Dr. Tiago Ferolla, geriatra do Mater Dei Santa Genoveva, explica como diferenciar mudanças naturais do envelhecimento de sinais que merecem investigação e destaca a importância de preservar a independência e a qualidade de vida
O envelhecimento faz parte da vida e
pode trazer mudanças naturais, como precisar de mais tempo para lembrar um nome
ou aprender algo novo. Mas existe uma diferença importante entre envelhecer e
adoecer com o passar dos anos. Esquecimentos frequentes, alterações de
comportamento, dificuldades para realizar tarefas cotidianas e perda
progressiva de autonomia não devem ser automaticamente atribuídos à idade.
Durante o Setembro Lilás, mês dedicado
à conscientização sobre a doença de Alzheimer e outras demências, a rede Mater
Dei em Uberlândia reforça a importância de observar essas mudanças e buscar
avaliação médica diante de sinais persistentes ou que representem uma alteração
em relação ao funcionamento habitual da pessoa.
Segundo o geriatra Dr. Tiago Ferolla, o
principal sinal de alerta é justamente o impacto que determinada mudança passa
a provocar na vida cotidiana. “Demência não é uma consequência normal da idade.
O principal sinal de alerta é quando a mudança começa a interferir na vida
cotidiana ou representa uma piora em relação ao funcionamento habitual daquela
pessoa”, ressalta.
Nem todo esquecimento é
demência
Esquecer ocasionalmente um nome ou uma
informação pode acontecer em qualquer idade. A preocupação aumenta quando os
episódios passam a ser frequentes e comprometem atividades que antes eram
realizadas normalmente.
Fazer repetidamente as mesmas
perguntas, esquecer informações recentes, perder-se em lugares conhecidos,
confundir datas, apresentar dificuldade para administrar dinheiro ou
medicamentos e deixar de preparar uma refeição que sempre soube fazer são
alguns exemplos.
Alterações importantes de comportamento
e personalidade, por exemplo, merecem atenção. Isso também vale para quedas
recorrentes, lentidão para caminhar, perda de força, emagrecimento sem
explicação, isolamento social, desânimo persistente, alterações do sono e
perdas de visão ou audição.
Segundo o geriatra, nem todas essas
manifestações estão necessariamente relacionadas a uma demência. Depressão,
infecções, efeitos de medicamentos, alterações da tireoide, deficiência de
vitamina B12, distúrbios do sono e outras doenças neurológicas também podem
provocar mudanças cognitivas e funcionais.
Por isso, quanto mais cedo a causa for
investigada, maiores são as possibilidades de intervenção, adaptação e
planejamento do cuidado.
Perda de autonomia precisa
ser investigada
Outro ponto importante é observar
quando o idoso começa a ter dificuldades para caminhar, organizar a própria
rotina, tomar medicamentos ou realizar atividades que sempre fez sozinho.
Para o Dr. Tiago, essa avaliação precisa
considerar o idoso de maneira integral. O médico deve entender quando a mudança
começou, se ocorreu de forma súbita ou progressiva e quais atividades foram
afetadas. A participação dos familiares também é importante, já que eles podem
ajudar a identificar diferenças entre o funcionamento atual e o habitual.
A avaliação geriátrica considera
memória, atenção, linguagem, orientação e capacidade de julgamento, mas também
força muscular, equilíbrio, marcha, visão, audição, alimentação, humor, sono,
continência, doenças existentes e condições sociais e ambientais.
A revisão dos medicamentos é igualmente
parte desse processo. Alguns deles podem provocar sonolência, confusão, tontura
ou queda da pressão arterial, aumentando inclusive o risco de quedas.
Uma perda súbita de autonomia merece
atenção rápida, pois pode estar relacionada a infecção, desidratação,
alterações metabólicas, efeitos de medicamentos ou eventos neurológicos. Quando
a perda acontece de maneira progressiva, é necessário investigar possibilidades
como demências, fragilidade, sarcopenia, depressão e outras doenças crônicas.
O que pode ser recuperado
ou adaptado
Identificar a causa de uma perda
funcional é fundamental, porque nem toda dificuldade precisa ser permanente.
Dependendo do caso, intervenções relativamente simples podem trazer ganhos
importantes.
Fisioterapia, atividade física com
fortalecimento muscular, terapia ocupacional, correção de alterações visuais e
auditivas, adequação nutricional, tratamento da depressão e revisão dos medicamentos
estão entre as estratégias que podem contribuir para recuperar ou preservar
capacidades.
De acordo com o médico, “mesmo diante
de uma doença progressiva, como algumas formas de demência, o cuidado não deixa
de ter objetivos. É possível preservar habilidades, reduzir riscos e manter o
idoso participando das decisões e das atividades que fazem sentido para sua
vida”.
Cuidar não significa fazer
tudo pelo idoso
Na rotina dos consultórios, percebe-se
que uma preocupação frequente das famílias, a atenção excessiva a exames e
números, pode fazer com que aspectos fundamentais para a qualidade de vida
fiquem em segundo plano.
Colesterol, glicemia e outros
indicadores são importantes, mas não contam sozinhos a história da saúde de uma
pessoa idosa. Força muscular, equilíbrio, mobilidade, alimentação, audição,
vínculos sociais e participação nas atividades cotidianas também precisam ser
observados.
Um idoso pode apresentar exames
adequados e, ao mesmo tempo, estar caminhando menos, perdendo massa muscular,
alimentando-se mal ou se isolando socialmente.
Outro cuidado importante é evitar a
superproteção. Com a intenção de ajudar, familiares podem começar a realizar
pelo idoso tarefas que ele ainda é capaz de executar. Embora pareça uma forma
de proteção, essa substituição precoce pode contribuir para a perda de
autonomia.
“O ideal é oferecer supervisão e
segurança, mas permitir que ele continue fazendo aquilo que ainda consegue
realizar”, orienta o geriatra.
Mais do que tratar
doenças, preservar a vida que importa
A atenção à saúde da pessoa idosa não
deve se limitar ao diagnóstico de doenças ou ao controle de exames. Preservar a
independência, os vínculos, o movimento, a capacidade de escolha e o propósito
também faz parte do cuidado.
Como resume o Dr. Tiago Ferolla, a
geriatria propõe uma mudança importante de perspectiva: “a pergunta não é
somente ‘quais doenças essa pessoa tem?’, mas, principalmente, ‘o que ela ainda
consegue fazer, o que é importante para ela e como podemos ajudá-la a continuar
vivendo com dignidade e qualidade?’”.
No Setembro Lilás, essa reflexão ganha
ainda mais importância. Reconhecer precocemente mudanças cognitivas e
funcionais permite investigar suas causas, buscar possibilidades de tratamento
e, principalmente, construir estratégias para que a pessoa idosa mantenha
autonomia e qualidade de vida pelo maior tempo possível.
Para informações e
avaliação especializada, procure a equipe de Geriatria do Mater Dei Santa
Genoveva.
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