Especialistas explicam como ajudar adolescentes a compreender as próprias emoções, identificar mudanças de comportamento e encontrar espaços seguros de diálogo e acolhimento
A saúde mental de crianças e adolescentes tem se tornado uma preocupação cada vez mais presente entre famílias, escolas e profissionais de saúde. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024, divulgada pelo IBGE este ano, mostram que três em cada dez estudantes brasileiros de 13 a 17 anos afirmaram se sentir tristes sempre ou na maioria das vezes. Diante desse cenário, especialistas alertam para a importância de criar espaços seguros de diálogo e ensinar crianças e adolescentes a reconhecer e compreender aquilo que sentem.
Falar sobre saúde mental nessa fase pode contribuir para o autoconhecimento e para a identificação precoce de situações de sofrimento emocional. Nesse período, marcado por mudanças físicas, sociais e emocionais, ter adultos de confiança por perto pode fazer diferença para que o adolescente se sinta à vontade para falar sobre o que está vivendo.
O assunto ganha ainda mais relevância durante o Setembro Amarelo, campanha de conscientização sobre a prevenção do suicídio e a importância do cuidado com a saúde mental. O diálogo deve evitar tanto a infantilização quanto a minimização dos sentimentos apresentados. “A conversa com os adolescentes precisa considerar a idade, a maturidade e o contexto em que estão inseridos. O mais importante é encontrar formas de diálogo que façam sentido para essa fase da vida, sem infantilizar suas experiências ou minimizar aquilo que estão sentindo”, explica a psicóloga Mirelle Burgos, professora da Afya Garanhuns.
Uma das formas de facilitar essa conversa é utilizar
referências que façam parte do universo dos próprios adolescentes. Filmes,
livros, músicas, séries e outros conteúdos culturais podem ajudar a criar
oportunidades para falar sobre sentimentos e situações difíceis. Um exemplo é o
filme Divertida Mente, que pode servir como ponto de partida para conversar
sobre diferentes emoções de maneira mais acessível.
Mudanças de comportamento precisam ser observadas
Além de conversar, também é importante observar mudanças significativas na rotina e no comportamento. Alterações no sono, isolamento, perda de interesse por atividades que antes despertavam entusiasmo, mudanças bruscas de humor ou queda no rendimento escolar, por exemplo, podem indicar que algo não está bem. Isoladamente, esses sinais não significam necessariamente a existência de um transtorno, mas merecem atenção quando representam mudanças significativas no comportamento habitual.
“Mudanças importantes em comportamentos habituais dos adolescentes precisam ser observadas e avaliadas. Elas podem ser indicadores de sofrimento emocional, e compreender essas mudanças é fundamental para identificar suas possíveis motivações”, complementa Mirelle Burgos.
A identificação de possíveis sinais de sofrimento, no entanto, não significa tentar diagnosticar o adolescente em casa. A recomendação é estabelecer uma conversa acolhedora e, quando necessário, buscar a orientação de profissionais de saúde. Perguntar diretamente como a pessoa está se sentindo pode ser mais efetivo do que esperar que ela tome a iniciativa de falar.
Segundo o médico psiquiatra e professor da Afya Educação
Médica Recife, Rafael Amorim, a avaliação médica especializada é um passo
decisivo para diferenciar as oscilações naturais da fase dos quadros clínicos
que exigem acompanhamento. “O papel da psiquiatria na infância e adolescência
não é rotular, mas compreender se aquele sofrimento ultrapassa o limite do
esperável e compromete a funcionalidade do jovem. É preciso desmistificar o
acompanhamento psiquiátrico: identificar precocemente um quadro depressivo ou
de ansiedade evita o agravamento dos sintomas e devolve a qualidade de vida ao
adolescente. A medicina atua como uma aliada da família e da escola para
garantir que o adolescente receba o suporte adequado”, destaca.
Família e escola também fazem parte da rede de apoio
Como muitos adolescentes passam boa parte do dia no ambiente escolar, a escola pode se tornar um importante espaço de escuta, acolhimento e identificação de possíveis mudanças emocionais. Professores e outros profissionais que acompanham a rotina dos estudantes podem perceber alterações que nem sempre são observadas em outros ambientes.
“Todos precisam atuar de forma integrada nesses momentos. Família, escola e profissionais de saúde têm responsabilidades importantes no desenvolvimento emocional, intelectual, cultural e social dos adolescentes.”
O diálogo também não precisa acontecer apenas quando surge uma situação de crise. Criar, no cotidiano, espaços em que o adolescente perceba que pode falar sobre aquilo que sente facilita a busca por ajuda quando surgir uma dificuldade. Nesse processo, acolher não significa concordar com tudo, mas demonstrar disposição para ouvir e compreender antes de fazer julgamentos.
O Setembro Amarelo pode ser uma oportunidade para
reforçar uma prática que precisa existir durante todo o ano: criar relações em
que adolescentes saibam que podem falar sobre aquilo que sentem sem medo de
serem ridicularizados, condenados ou julgados. A atenção aos sinais, o diálogo
e a busca por ajuda profissional, quando necessária, são caminhos importantes
para fortalecer a rede de apoio e o cuidado com a saúde mental nessa fase da
vida.
Afya
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