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quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Sinais de esgotamento mental no trabalho podem ser identificados antes do afastamento

Brasil concedeu mais de 546 mil benefícios por incapacidade temporária relacionados a transtornos mentais e comportamentais em 2025


O número de brasileiros afastados do trabalho em razão de transtornos mentais e comportamentais continua em crescimento. Dados preliminares do Ministério da Previdência Social mostram que 546.254 benefícios por incapacidade temporária foram concedidos por esses diagnósticos em 2025, aumento de 15,66% em relação aos 472.328 registrados no ano anterior. Entre os grupos de diagnósticos mais frequentes estão os transtornos ansiosos e os episódios depressivos.

Os números não significam que todos esses afastamentos tenham relação com o ambiente profissional, mas ajudam a dimensionar um problema que também chama a atenção para as condições de trabalho. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que 15% dos adultos em idade produtiva vivam com algum transtorno mental. Globalmente, depressão e ansiedade são responsáveis pela perda de aproximadamente 12 bilhões de dias de trabalho todos os anos, com impacto estimado de US$ 1 trilhão na economia mundial, principalmente pela redução da produtividade.

Antes que o sofrimento emocional resulte em afastamento, mudanças no comportamento e na rotina podem indicar que algo não vai bem. Mais importante do que procurar sintomas isolados, entretanto, é perceber alterações persistentes no padrão daquela pessoa. Queda de produtividade, desmotivação, irritabilidade e isolamento podem vir acompanhados de dificuldades de concentração, esquecimentos e maior lentidão para tomar decisões que antes eram simples.

Com a evolução do quadro, as manifestações podem chegar ao corpo. Sono que não proporciona descanso, cansaço persistente mesmo após o fim de semana, dores de cabeça, tensões musculares, alterações no apetite e adoecimento mais frequente estão entre os sinais que merecem atenção, principalmente quando representam uma mudança em relação ao comportamento habitual e permanecem por semanas.

Para o psicólogo da Paraná Clínicas, Eric Aquino Corrêa, é justamente essa mudança de padrão que deve ser observada. “Os sinais merecem atenção quando destoam do que era habitual para aquela pessoa e se mantêm por semanas, não por apenas um dia ruim”, explica. “O sentimento de injustiça pode ser total, isso faz com que a pessoa comece a criar aversão pelo próprio trabalho, o ambiente vira uma grande punição, assim vai se gerando um desgaste mental e emocional, até virar sintoma físico e, por fim, o burnout”, alerta especialista.

No ambiente profissional, colegas e gestores podem contribuir para identificar essas mudanças, mas não devem assumir o papel de profissionais de saúde ou tentar realizar diagnósticos. A primeira abordagem pode partir de uma conversa reservada e de uma escuta sem julgamentos, comparações ou soluções prontas. Para o especialista da Paraná Clínicas, há ainda uma diferença importante entre as responsabilidades de colegas e lideranças: enquanto o colega pode oferecer proximidade e apoio, o gestor possui condições de avaliar aspectos relacionados à própria organização do trabalho.

“Escuta sem ação vira só mais uma conversa que não muda nada, e a conversa com um gestor é um pedido de ajuda, não só um desabafo. O papel dele passa a ser reconhecer a entrega, rever prazo, redistribuir carga e encaminhar formalmente para o apoio da empresa”, destaca o psicólogo.



Cuidado preventivo

A atenção aos primeiros sinais é importante para que a procura por ajuda não aconteça somente quando o sofrimento já compromete a capacidade de trabalhar. Dependendo de cada situação e da avaliação profissional, o cuidado pode envolver psicoterapia, acompanhamento psiquiátrico quando necessário, atividade física e outras estratégias que auxiliem na recuperação e na construção de uma rotina mais saudável.

Corrêa ressalta, porém, que o cuidado individual não substitui a necessidade de avaliar as condições que podem contribuir para o adoecimento. “Tratamento sem mudança de ambiente é tratar sintoma sem tocar na causa. A pessoa sai recuperada e volta para o mesmo lugar que a machucou”, alerta.


NR-1

A prevenção também passa pela estrutura e pela cultura das organizações. Diagnosticar riscos, avaliar cargas e prazos, estabelecer metas adequadas, capacitar lideranças para reconhecer situações de sofrimento e disponibilizar canais de apoio são algumas das medidas que podem contribuir para ambientes profissionais mais saudáveis.

A discussão ganhou ainda mais relevância neste ano com a nova redação do capítulo 1.5 da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que entrou em vigor em 26 de maio de 2026. A norma, que trata do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO), passou a incluir expressamente os fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho. Entre os aspectos que podem representar riscos estão aqueles relacionados à organização e à gestão do trabalho.

A mudança reforça a necessidade de as empresas identificarem esses fatores, avaliarem os riscos e planejarem medidas de prevenção. Segundo orientações do Ministério do Trabalho e Emprego, não existe uma metodologia única obrigatória para essa avaliação: as medidas devem considerar as características de cada organização e estar integradas ao processo de gerenciamento dos riscos ocupacionais.

Para o psicólogo da Paraná Clínicas, a prevenção precisa fazer parte da cultura da empresa e começar antes do adoecimento. Isso inclui desde o diagnóstico dos riscos existentes até ações concretas sobre a organização do trabalho, capacitação das lideranças, canais confidenciais de escuta e acesso à assistência especializada.

Procurar ajuda nos estágios iniciais também pode evitar que o sofrimento avance até comprometer completamente a rotina profissional e pessoal. “Quanto mais cedo, menos cristalizado está o processo. Com o tempo, ele deixa de ser só estresse do momento e vira um jeito aprendido de se relacionar com o trabalho. O afastamento costuma marcar o ponto em que o corpo já não aguenta segurar sozinho o que ninguém segurou antes. Buscar ajuda cedo é o que evita que a conta chegue tão alta”, concluem.


Paraná Clínicas


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