Para a arquiteta, especialista em arquitetura corporativa, Priscilla Bencke, decisão do STF não deve adiar a revisão de espaços que aumentam o desgaste dos trabalhadores
O Plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) confirmou, em agosto, a decisão que suspendeu por 90 dias multas e outras sanções relacionadas à inclusão dos fatores de risco psicossociais no gerenciamento de riscos ocupacionais da NR-1, porém, essa medida não deve ser entendida como um sinal para deixar a prevenção em segundo plano, como explica a arquiteta, especialista em neuroarquitetura e projetos para ambientes corporativos, Priscilla Bencke.
A medida, tomada em junho, busca abrir espaço
para uma conciliação sobre os critérios regulatórios e a aplicação das
penalidades. No cotidiano das empresas, porém, permanecem as condições que
deram relevância ao debate sobre saúde mental no trabalho.
Para a arquiteta, esperar o fim da discussão
jurídica significa prolongar problemas que já afetam as equipes. “Se o ambiente
gera desconforto, cansaço ou dificuldade de concentração, esses efeitos não
desaparecem porque as multas foram suspensas. A prevenção precisa continuar,
independentemente do calendário regulatório”, afirma.
O
ambiente também faz parte do trabalho
Todo trabalho acontece em algum ambiente. A
experiência profissional, portanto, não é determinada apenas pelas tarefas, pelos
prazos e pelas relações. Ela também é influenciada pelos espaços físicos que
acompanham o trabalhador durante a jornada.
Ruído constante, temperatura desconfortável,
iluminação inadequada, ar de baixa qualidade e falta de privacidade podem
tornar as atividades mais cansativas. Concentrar-se em meio a conversas
paralelas, procurar um local reservado ou lidar com calor excessivo exige um
esforço que se repete e consome energia.
Como esses incômodos passam a fazer parte da
rotina, muitas vezes deixam de ser questionados. “É possível se acostumar até
com espaços que não fazem bem. O corpo, no entanto, continua respondendo a
eles, mesmo quando o desconforto já parece normal”, explica Priscilla.
A arquitetura não é a única responsável pelo
adoecimento. Carga de trabalho, modelo de gestão, relações profissionais e
liderança fazem parte do mesmo cenário. O espaço é uma das camadas dessa
experiência e deve ser considerado junto com as demais.
Uma
relação que também passa pela NR-17
A presença do ambiente nessa discussão não
começou com a atualização da NR-1. Priscilla lembra que a NR-17 já prevê a
adaptação das condições de trabalho às características psicofisiológicas dos
trabalhadores.
Essa diretriz leva a ergonomia para além da
escolha de cadeiras, mesas e equipamentos. Também é preciso observar como as
tarefas são realizadas, que interações acontecem no local e se o espaço oferece
suporte a elas.
Um escritório aberto pode facilitar a troca
entre uma equipe e prejudicar quem precisa de silêncio para se concentrar. Uma
área de convivência pode favorecer encontros, mas não permitirá descanso se
estiver exposta ao mesmo ruído e à mesma circulação das estações de trabalho.
Antes
de mudar o espaço, é preciso entender a rotina
Como as necessidades variam, não existe uma
solução pronta para todas as empresas. Por isso, segundo Priscilla, a melhoria
do ambiente deve começar pela escuta, não pela reforma.
Pesquisas com funcionários, observação da
rotina e avaliações acústicas, térmicas, visuais e da qualidade do ar revelam o
que uma planta ou uma visita rápida não mostram. O diagnóstico ajuda a
localizar as interrupções, entender quais equipes precisam estar próximas e
reconhecer tarefas que exigem concentração ou privacidade.
Com essas informações, o projeto pode
responder à rotina real. Áreas de colaboração podem conviver com espaços
silenciosos, salas reservadas e locais de pausa protegidos do fluxo intenso. Em
vez de impor uma única configuração, o ambiente oferece opções para diferentes
atividades e necessidades sensoriais.
O
projeto não termina na entrega
Depois que o espaço entra em uso, a avaliação
pós-ocupação mostra o que funcionou, o que ainda gera dificuldade e quais
demandas surgiram. Esse acompanhamento transforma o ambiente em parte de uma
estratégia contínua de prevenção, não em uma intervenção apenas estética.
“O papel do arquiteto não é simplesmente
entregar um escritório bonito. É compreender os objetivos da empresa, escutar
as pessoas e atuar como parceiro na construção de condições mais saudáveis. A
arquitetura pode contribuir para a prevenção, mas precisa caminhar com a
gestão, os recursos humanos e a saúde ocupacional”, conclui Priscilla.
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