Especialista explica por que adiar tarefas nem sempre é falta de disciplina e mostra caminhos práticos para sair da inércia
Uma pesquisa da consultoria Triad PS aponta que
cerca de 70% dos brasileiros procrastinam com frequência. Já um levantamento
nacional da plataforma Onlinecurrículo, feito com profissionais de diferentes
regiões do país, mostrou que 38,4% das pessoas querem abandonar a
procrastinação como hábito de trabalho, o principal item da lista de mudanças
desejadas para a rotina profissional.
Os números escancaram um comportamento que
atravessa gerações e profissões: adiar aquela tarefa importante até o último
momento possível, mesmo sabendo que isso vai gerar mais estresse depois. Para
quem vive essa rotina, a procrastinação costuma vir acompanhada de culpa e da
sensação de que falta força de vontade, mas, segundo especialistas, a
explicação é mais complexa do que isso.
"A procrastinação raramente é sobre preguiça.
Na maioria das vezes, é sobre emoção. A pessoa adia porque a tarefa gera
desconforto, medo de errar ou a sensação de que não vai dar conta",
explica Cristiano Moreira, especialista em desenvolvimento comportamental e
Programação Neurolinguística (PNL) da Dynamis Soluções. "O cérebro busca
alívio imediato, e evitar a tarefa traz esse alívio a curto prazo, mesmo que o
custo emocional depois seja maior".
De acordo com Moreira, tarefas complexas,
desagradáveis ou que envolvem algum tipo de julgamento, como uma apresentação
importante ou uma conversa difícil, ativam esse mecanismo de evitação com mais
força. "Quanto maior a exigência percebida, maior a resistência para
começar. E, curiosamente, quanto mais a pessoa adia, maior fica essa tarefa na
cabeça dela, o que aumenta ainda mais a resistência", observa o
especialista.
A boa notícia é que existem estratégias simples e
acessíveis para reduzir esse ciclo, sem depender de força de vontade. "Não
é sobre ter mais disciplina, é sobre reduzir o tamanho da barreira inicial.
Quando a primeira ação é pequena o suficiente, o cérebro para de reagir como se
fosse uma ameaça", afirma Moreira.
A primeira estratégia é dividir a tarefa em partes
menores e mais concretas. Em vez de encarar "terminar o relatório"
como um bloco único e intimidador, ele sugere transformar a meta em ações
pequenas, como "abrir o documento" ou "escrever o primeiro
parágrafo". "Quando a tarefa é grande demais, o cérebro reage com
resistência antes mesmo de começar. Quebrar em pedaços menores muda essa percepção",
explica.
Outro passo importante é definir um primeiro
movimento simbólico, que exija pouco esforço e sirva apenas para destravar o
início. Esse movimento não precisa levar mais do que alguns minutos, nem ficar
preso a um horário vago como "ainda hoje": definir um momento
específico do dia, mesmo que curto, já reduz bastante a margem para o
adiamento. "O primeiro passo não precisa ser perfeito nem precisa ser
grande. Ele só precisa existir", afirma.
Reduzir as distrações do ambiente antes de começar
também ajuda. Guardar o celular, fechar abas desnecessárias e avisar as pessoas
ao redor mantêm o foco nos primeiros minutos, que costumam ser os mais difíceis.
Para o especialista, reconhecer o início da tarefa, e não apenas a sua
conclusão, é o que rompe o ciclo da procrastinação. "Uma vez que a pessoa
começa, a resistência inicial já foi vencida, e o restante costuma fluir com
mais naturalidade", conclui Cristiano.

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