Grupos reflexivos para homens crescem 41,4%, mas transformação das masculinidades ainda é desafio nacional
Especialista Dr. Daniel de Castro
Barral defende que combater a violência contra as mulheres exige ir além da
responsabilização individual e questionar padrões culturais historicamente
associados ao poder, controle e domínio masculino.
O crescimento de 41,4% no número de grupos reflexivos para homens, apontado pelo Conselho Nacional de Justiça, revela uma mudança importante na forma como o Brasil começa a enfrentar a violência contra as mulheres.
Atualmente, existem 704 grupos em funcionamento no país, espaços voltados à reflexão, responsabilização e reeducação de homens envolvidos em situações de violência.
Conforme dados do CNJ (Conselho Nacional de Justiça).
Mas uma questão permanece: é possível
combater a violência de gênero sem discutir o modelo de masculinidade que,
durante séculos, associou o homem ao poder, à autoridade e ao domínio?
A proposta é discutir como as masculinidades são construídas historicamente e de que maneira determinados comportamentos apresentados como “naturalmente masculinos” são, na realidade, resultado de processos sociais, culturais, econômicos e históricos.
Partindo do crescimento dos grupos
reflexivos para abordar uma questão maior: o combate ao feminicídio e à
violência contra as mulheres também passa pela transformação da maneira como os
homens aprendem a exercer poder, autoridade, afetividade e responsabilidade
dentro das relações?
Podemos afirmar que não existe uma
masculinidade única e universal?
Existem masculinidades, moldadas de acordo
com diferentes períodos históricos, culturas e contextos sociais.
Um dos pontos centrais da discussão é
compreender como determinados modelos hegemônicos de masculinidade foram
associados ao domínio sobre mulheres e também à hierarquia entre os próprios
homens.
Nesse sentido, comportamentos frequentemente tratados como naturais — como ser provedor, dominante, emocionalmente contido ou incapaz de demonstrar vulnerabilidade — podem ser analisados como construções históricas.
A ideia de que existiria “O Homem” como personagem universal, biologicamente determinado e historicamente estável é, em grande medida, uma construção. Ser homem no Brasil do século XXI significa algo profundamente diferente de ser homem na França do século XVI ou no Império Inca. Os comportamentos, expectativas, responsabilidades e atributos associados à masculinidade mudam no tempo e no espaço. Reconhecer esse caráter histórico não significa negar diferenças entre homens e mulheres, mas compreender que grande parte das expectativas sociais atribuídas aos homens pode ser transformada. Se pretendemos produzir uma mudança cultural consistente e reduzir de maneira efetiva os índices de violência contra as mulheres e de feminicídio, será necessário ampliar significativamente o número de profissionais, instituições e espaços dedicados a questionar o modelo do homem dominador e a construir alternativas de masculinidade fundamentadas em respeito, responsabilidade e convivência igualitária.
Reforçando que a ideia de crescimento dos grupos é uma coisa boa para a sociedade.
Grupos são uma boa estratégia e o investimento é muito pequeno,
quando comparado com o quanto foi investido para construção dessa ideia de
homem que se está problematizando. Não dá para desconstruir dois séculos de controle
desta supremacia masculina sem um investimento similar ou equivalente.


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