Nefrologista
ressalta importância de debater sobre doação de órgãos em situações anteriores
a de perda, e comenta sobre transplante de rim ser o mais requisitado
O Brasil celebra este ano uma grande
conquista quando falamos da fila de espera para doações de órgãos. Segundo
relatório do Registro Brasileiro de Transplantes, em 2025 4.335 pessoas
transplantaram pelo menos um órgão, o que equivale a 20,3 por milhão de
população (pmp). O número representa aumento e ressalta a importância em
falar sobre se tornar doador muito antes do momento de doença e falecimento.
Entre os órgãos, o rim segue sendo o
mais transplantado, com 6.697 cirurgias e crescimento de 5,9% em relação a
2024. Na sequência, o fígado também apresentou crescimento, com 2.573
procedimentos e crescimento de 4,8%. No entanto, para órgãos torácicos (coração
e pulmão), houve redução.
Segundo o nefrologista do Grupo São
Lucas, Dr. Filipe Miranda Bernardes (CRM: 202097 | RQE: 112141), o
transplante renal pode representar muito mais do que deixar a
diálise, e sim recuperar autonomia, melhorar a qualidade de vida e ter a
possibilidade de viver por muitos anos com maior liberdade. Porém, existe
uma diferença muito grande entre o número de pessoas que precisam de um rim e o
número de órgãos disponíveis. Ao final de 2025, quase 39 mil pessoas estavam na
lista de espera no Brasil.
Ele ressalta que o país tem
um dos maiores programas públicos de transplantes do mundo, mas ainda apresenta
diferenças importantes entre as regiões. Há locais com grande atividade
transplantadora e outros onde o acesso é muito menor. O próprio consenso da
Sociedade Brasileira de Nefrologia chama atenção para esse problema e estima
que o número de transplantes realizados ainda esteja bastante abaixo da
necessidade existente.
"Reduzir a fila depende de aumentar a
doação, mas também de melhorar toda essa jornada desde o diagnóstico até o
encaminhamento, avaliação, estrutura dos centros transplantadores e logística.
Quando uma dessas etapas falha, podemos perder tempo e, em algumas situações,
até uma oportunidade de transplante", explica o especialista.
Recentemente, houve uma
mudança neste consenso para a importância de encaminhar os pacientes
com doença renal crônica para avaliação de transplante no momento
adequado. Agora, recomenda-se encaminhar potenciais candidatos quando a
taxa de filtração estiver abaixo de 20 mL/min/1,73 m² e, quando possível,
iniciar esse processo cerca de seis a doze meses antes da previsão de
necessidade de diálise.
"Isso faz diferença porque a
avaliação para transplante não acontece de um dia para o outro. Existem exames,
avaliações cardiológicas, investigação de infecções, atualização de vacinas e,
em alguns casos, a possibilidade de avaliar um doador vivo. Quando o
paciente chega cedo, nós ganhamos algo extremamente valioso na medicina, tempo
para planejar. Em alguns casos, é possível até realizar o transplante
antes de o paciente precisar iniciar diálise, o chamado transplante preemptivo.
Além dos benefícios clínicos, isso muda completamente a experiência do
paciente, porque ele deixa de conhecer suas opções apenas quando a doença já
chegou a uma fase muito avançada", complementa.
Morte encefálica e recusa
familiar
Ainda segundo o relatório, a
principal origem dos órgãos doados é de doadores falecidos. Na grande
maioria dos casos, a morte encefálica é o principal caminho deste processo. O
termo usado vem para explicar que houve uma perda completa e irreversível das
funções do cérebro. Diferente do coma, no qual ainda existe atividade cerebral
e pode haver possibilidade de recuperação dependendo da causa.
No Brasil, o diagnóstico segue um
protocolo médico rigoroso. É necessário que exista uma causa conhecida capaz de
explicar aquela lesão cerebral e que sejam afastadas situações que poderiam
confundir a avaliação, como determinados medicamentos, alterações importantes
da temperatura corporal ou outros distúrbios que possam interferir no
funcionamento do cérebro.
Em seguida, são realizadas avaliações
clínicas por médicos capacitados, em momentos distintos, procurando sinais que
demonstrem a ausência das funções cerebrais. Também é realizado o teste de
apneia, que avalia se existe capacidade de respirar espontaneamente. Além
disso, o protocolo brasileiro prevê a realização de exame complementar que
demonstre ausência de atividade ou de circulação sanguínea cerebral, conforme
os critérios estabelecidos. Somente depois de todas essas etapas é possível
declarar a morte encefálica.
A recusa familiar ainda segue sendo uma
grande dificuldade no processo de doação, principalmente por dúvidas com
relação ao diagnóstico entre outras crenças e mitos conservados
pela sociedade.
"Algumas pessoas veem o coração
batendo com auxílio de aparelhos e têm dificuldade para compreender que aquela
pessoa já faleceu. Também existem receios de que a retirada dos órgãos
desfigure o corpo, de que a família tenha custos ou até de que a equipe médica
possa reduzir os esforços para salvar a vida de alguém que seja doador. Esses
receios não correspondem ao funcionamento do sistema. A retirada é realizada
cirurgicamente por equipes autorizadas, o corpo é reconstituído e o diagnóstico
de morte encefálica é independente da decisão sobre doação. Existe ainda
uma informação fundamental de que no Brasil, quem autoriza a doação após a
morte é a família. Por isso, mais importante do que simplesmente dizer que
é doador, é conversar em casa e deixar essa vontade clara", indica.
Em 2025 foi estabelecida uma nova
Política Nacional de Doação e Transplantes. Entre os pontos importantes estão o
fortalecimento da organização nacional das listas, uma maior integração entre
as centrais estaduais e a Central Nacional de Transplantes e uma atenção maior
à logística de distribuição e transporte dos órgãos.
Também foram criados mecanismos para
incentivar a qualidade dos serviços de doação e transplante, e em 2026 o
Ministério da Saúde publicou orientações específicas para melhorar etapas como
retirada, preservação, acondicionamento e transporte dos órgãos.
É importante que se esclareça que não
existe uma fila baseada em ordem de chegada. Em uma situação de doença renal
crônica por exemplo, são realizados exames de sangue, avaliação cardiovascular,
investigação de infecções, atualização de vacinas entre outros de acordo com a
idade e o histórico de cada pessoa.
Depois que a avaliação é concluída e
não existem impedimentos para o transplante, o paciente pode ser inscrito no
Sistema Nacional de Transplantes. A seleção de quem receberá determinado
rim considera critérios como compatibilidade sanguínea e imunológica, tempo de
espera e outras situações previstas pelo sistema. Portanto, quando surge um
órgão, o sistema identifica entre os pacientes inscritos aqueles que apresentam
as melhores condições de compatibilidade para aquele doador.
"Temos um sistema de transplantes
muito relevante e profissionais extremamente qualificados no Brasil. O desafio
dos próximos anos é fazer com que toda essa estrutura funcione cada vez mais
como uma rede integrada, identificando melhor os doadores, aproveitando
mais órgãos, transportando-os com rapidez e fazendo o paciente chegar ao
transplante na hora certa", conclui o médico.
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