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quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Quando o Supremo julga a si mesmo

Sessão tumultuada no STF expõe os riscos de uma Corte que administra a apuração sobre seus próprios integrantes e reforça a urgência de transparência, controle institucional e participação cidadã


Na última terça-feira (15/09), o Brasil assistiu, no plenário do Supremo Tribunal Federal, a uma sessão tumultuada que terminou sem resposta e acrescentou mais um capítulo institucionalmente vergonhoso à história recente do país.

Extrapolando as divergências jurídicas, o episódio expôs uma articulação política e processual que, aos olhos da sociedade, pareceu cuidadosamente estruturada para proteger o ministro Alexandre de Moraes e impedir que os fatos fossem examinados por instância verdadeiramente independente.

A crítica mais grave é objetiva: Moraes participou de uma deliberação processual diretamente relacionada a um caso que o envolve. Ainda que o mérito não tenha sido formalmente apreciado, a decisão discutida poderia reunir processos, alterar sua condução e influenciar o caminho da investigação. Em termos jurídicos, isso configura, no mínimo, uma situação de manifesta aparência de parcialidade e de comprometimento da imparcialidade objetiva.

Ninguém pode ser juiz da própria causa, e esse não é um detalhe regimental; é uma garantia elementar do devido processo legal, da moralidade pública e da confiança na jurisdição.

Durante horas, o país quis saber se os fatos envolvendo um ministro da mais alta Corte seriam investigados com independência, transparência respeito às garantias constitucionais.

A resposta não veio e o mérito sequer foi analisado. Em seu lugar, houve acusações, contra-acusações, disputas regimentais, interrupções, conflitos entre ministros e um pedido de vista que suspendeu novamente a conclusão.

O resultado foi um espetáculo processual incompatível com a dignidade da Suprema Corte. O bloco formado por Gilmar Mendes, Flávio Dino e Alexandre de Moraes, com apoio de Cristiano Zanin na reunião dos casos, transmitiu a imagem de uma atuação coordenada para preservar o próprio tribunal de qualquer controle externo efetivo.

Não é necessário afirmar, sem prova, que houve um acordo ilícito. Basta reconhecer o que foi exposto publicamente: ministros interessados na preservação do Supremo passaram a controlar o modo, o alcance e o ritmo da apuração que poderia atingir um de seus integrantes.

Isso não é independência judicial; é autodefesa corporativa. Moraes não precisou contratar advogados para defendê-lo. Utilizou a própria estrutura da Corte, seus pares e a autoridade institucional do cargo para participar de uma decisão que poderia limitar ou reorganizar a investigação relacionada a ele. Trata-se, portanto, de uma situação juridicamente perturbadora e politicamente inaceitável.

Investigar não é condenar, assim como afastamento preventivo não é declaração de culpa. Mas impedir, controlar ou tumultuar a investigação também não é defender a democracia.

O que se viu foi uma espécie de autodefesa jurisdicional: o órgão que deveria ser objeto de fiscalização passou a administrar a própria apuração. Em vez de oferecer uma resposta transparente à sociedade, a Corte pareceu fechar-se sobre si mesma.

E ainda mais grave: a mensagem transmitida ao cidadão foi a de que, no Brasil, todos possuem vínculos, todos têm relações com escritórios de advocacia, todos circularam pelos mesmos ambientes de poder e todos podem ser alcançados por suspeitas semelhantes. Se essa é a tese, então ela não absolve ninguém. Ao contrário: revela a necessidade urgente de uma investigação independente, ampla e imparcial.

A alegação de que “todos são iguais” não pode servir como salvo-conduto. Se existem relações financeiras, profissionais ou institucionais relevantes envolvendo ministros, advogados, escritórios e empresários, tudo deve ser esclarecido documentalmente, com contraditório, transparência e autoridade independente. A generalização não substitui a prova nem pode impedir a apuração individualizada de fatos concretos.

Dois ministros se declararam impedidos ou suspeitos. Isso, por si só, deveria ter provocado máxima cautela institucional. Mas a reação predominante foi outra: ministros em situação potencialmente mais delicada recusaram-se a reconhecer a necessidade de afastamento e insistiram em conduzir o próprio processo.

Ao cidadão, cabe o questionamento: quem fiscaliza o Supremo quando o Supremo decide não se submeter a nenhum controle efetivo?

As imagens e decisões da sessão estão nas manchetes, nos telejornais e nas redes sociais. O episódio tornou-se impossível de minimizar e a percepção pública é devastadora: a Justiça brasileira está se canibalizando e, ao fazê-lo, destrói também a reputação internacional do Brasil.

Os números internacionais apenas confirmam o que o cidadão já percebe. No Índice de Estado de Direito de 2025, do World Justice Project, o Brasil aparece na 78ª posição entre 143 países: está em 76º lugar em ausência de corrupção, 77º na Justiça civil e 111º na Justiça criminal. No Índice de Percepção da Corrupção da Transparência Internacional, ocupa a 107ª posição entre 182 países.

Esses indicadores refletem a percepção de que as instituições brasileiras não conseguem assegurar, com consistência, independência, previsibilidade e responsabilização.

Dois exemplos internacionais ajudam a compreender a gravidade do problema.

No Reino Unido, o julgamento do caso Pinochet foi anulado porque um dos julgadores possuía vínculo não revelado com uma organização participante do processo. Não foi necessário provar suborno. A aparência objetiva de parcialidade bastou para comprometer a validade do julgamento.

Na Nova Zelândia, o ministro Bill Wilson renunciou à Suprema Corte depois que sua relação empresarial e financeira com um advogado atuante perante o tribunal foi submetida a escrutínio. Também não foi necessário demonstrar que uma decisão havia sido comprada. A aparência de conflito foi considerada incompatível com a permanência no cargo.

É essa a diferença entre instituições que preservam sua legitimidade e instituições que tentam preservar apenas seus integrantes: as primeiras compreendem que a aparência de imparcialidade é parte da própria imparcialidade.

No Brasil, porém, parece prevalecer a lógica oposta: a autoridade do cargo é utilizada como escudo; o tribunal se fecha, os ministros se defendem mutuamente, o Senado hesita e a sociedade é tratada como espectadora de uma disputa interna, sem acesso pleno aos fatos e sem instrumentos eficazes de controle.

O Senado Federal precisa agir com urgência. Não para substituir o Supremo, nem para interferir em decisões judiciais, mas para exercer suas competências constitucionais de fiscalização, responsabilização e controle político-institucional.

No entanto, o Senado também precisa higienizar a própria casa. Não pode cobrar transparência do Supremo enquanto mantém acordos, relações políticas e interesses cruzados sem esclarecimento público. A crise é sistêmica e nenhuma instituição pode exigir das outras padrões que não aplica a si mesma.


O Brasil não precisa de uma guerra entre Poderes; precisa de limites entre Poderes

Não devemos escolher entre Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes, Flávio Dino, André Mendonça ou qualquer outro ministro como quem escolhe um time de futebol. O compromisso do cidadão deve ser com a Constituição, com a verdade, com a igualdade perante a lei e com a responsabilização de todos.

Defender o Supremo não significa defender cada comportamento de seus ministros; significa impedir que ele seja capturado por interesses corporativos, alianças políticas ou mecanismos de autoproteção.

E neste cenário, o que resta ao cidadão brasileiro?

Exercer sua consciência cidadã participativa transformadora, reconhecer-se como sujeito político, acompanhar os fatos, exigir transparência, pressionar o Senado, cobrar investigação independente e, sobretudo, trocar seus representantes quando eles se recusarem a cumprir o dever de proteger a República.

A democracia não termina no voto, mas começa por ele. Se os representantes, inclusive os senadores, não cumprirem suas atribuições, a sociedade deverá substituí-los. Mas se o Supremo não compreender que sua autoridade depende da confiança pública, a crise continuará se aprofundando.

As perguntas são incômodas, mas necessárias: este é o Brasil que merecemos ter, ou o Brasil que estamos permitindo que destruam diante dos nossos olhos? Os fatos serão investigados por uma autoridade independente ou o próprio poder continuará controlando a investigação sobre si mesmo?

O Supremo não pertence aos ministros, o Senado não pertence aos senadores e o Estado não pertence aos ocupantes temporários dos cargos. Tudo isso pertence à República.

E o futuro da República é responsabilidade de cada cidadão. E, por isso mesmo, é da nossa conta!


**As opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e não coincidem, necessariamente, com as do Diário do Comércio**

 

 Paulo Cavalcanti

Fonte: https://www.dcomercio.com.br/publicacao/s/quando-o-supremo-julga-a-si-mesmo

 

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