Existe uma ideia
recorrente quando falamos de inteligência artificial: a de que as grandes
empresas, por terem mais capital, tecnologia e estrutura, seriam naturalmente
as primeiras a adotar a ferramenta. Um novo levantamento do Sebrae mostra que,
entre os pequenos negócios, a realidade pode estar seguindo outro caminho.
A pesquisa,
realizada em parceria com o Meta Instituto de Pesquisa, mostra que 52% dos
empreendedores brasileiros de pequenos negócios utilizaram inteligência
artificial nas duas semanas anteriores à entrevista. Nos Estados Unidos, o índice
foi de 21% em levantamento equivalente. A diferença também aparece nas
perspectivas: 60% dos brasileiros pretendem adotar ou ampliar o uso de IA no
próximo semestre, contra 24% dos norte-americanos.
Mais interessante
do que a velocidade de adoção, porém, é entender para que os
pequenos negócios estão usando a tecnologia.
A
primeira transformação não é a demissão
Quando se fala em inteligência artificial e mercado de trabalho, a discussão rapidamente chega à substituição de pessoas. Os dados dos pequenos negócios brasileiros apontam, pelo menos neste momento, para outra direção.
Entre as empresas
que utilizam IA, 90% não alteraram o número de funcionários por causa da
tecnologia nos últimos seis meses. O uso aparece principalmente no
aprimoramento de tarefas já realizadas pelos colaboradores, citado por 28% dos
negócios, e na criação de novas funções, mencionada por 19%.
E isso muda a
pergunta que o empresário deveria fazer. Em vez de pensar primeiro em quantas
pessoas a IA pode substituir, é mais estratégico perguntar: o que uma
equipe do mesmo tamanho consegue fazer agora que antes não conseguia?
Para o pequeno
negócio, essa diferença é especialmente relevante. Uma empresa menor
normalmente não dispõe da mesma estrutura financeira, tecnológica ou de
especialistas de uma grande companhia. Se uma ferramenta permite que uma pessoa
produza mais, analise informações mais rapidamente, atenda melhor um cliente ou
execute atividades que antes exigiriam uma nova contratação, ela reduz uma
assimetria importante.
A IA pode,
portanto, funcionar menos como uma ferramenta de redução de equipes e mais como
uma ferramenta de ampliação de capacidade.
Por
que os pequenos podem estar avançando mais rápido
A diferença entre
Brasil e Estados Unidos não significa que o pequeno negócio brasileiro seja, em
todos os aspectos, mais digitalizado. Os levantamentos medem especificamente
adoção e intenção de uso. Mas o contraste revela algo importante: quando uma
tecnologia acessível resolve problemas concretos, pequenos empreendedores podem
ter menos barreiras para experimentá-la.
Uma grande empresa
precisa considerar integração de sistemas, governança, segurança, treinamento e
uma série de outras etapas antes de escalar uma nova tecnologia. O pequeno
negócio muitas vezes consegue testar uma ferramenta imediatamente e descobrir
se ela funciona.
Isso cria
velocidade.
O empreendedor
brasileiro também está acostumado a operar com restrições. Equipes menores e
recursos limitados fazem com que qualquer tecnologia capaz de aumentar
produtividade tenha um valor muito concreto. A IA não chega necessariamente
como um grande projeto de transformação digital. Ela chega para responder
clientes, organizar informações, apoiar vendas, produzir conteúdo, analisar
dados ou automatizar tarefas.
O desafio agora é
fazer essa experimentação evoluir.
Usar
IA não é transformar o negócio
Existe uma
diferença importante entre utilizar uma ferramenta de IA e incorporar
inteligência artificial à operação.
O primeiro estágio
é individual: um profissional usa uma ferramenta para escrever, pesquisar ou
organizar melhor o próprio trabalho. O segundo é operacional: a empresa começa
a redesenhar processos para incorporar a tecnologia. O terceiro é estratégico:
passa a decidir quais atividades devem continuar com pessoas, quais podem ser
automatizadas e, principalmente, o que os profissionais podem fazer com a
capacidade liberada pela IA.
É nessa última
etapa que a vantagem competitiva aparece. Se a empresa apenas faz a mesma coisa
um pouco mais rápido, ganhou produtividade. Se usa a tecnologia para repensar
como vende, atende, toma decisões, desenvolve produtos e organiza o trabalho,
está mudando sua forma de operar.
E isso também muda
o perfil das equipes. Um profissional pode passar menos tempo executando
tarefas repetitivas e mais tempo analisando, decidindo e criando. O vendedor
pode automatizar parte da prospecção e dedicar mais energia à negociação. O
gestor pode gastar menos tempo consolidando informações e mais tempo tomando
decisões.
A IA, nesse
sentido, não elimina necessariamente a necessidade de pessoas. Ela muda o que
esperamos que essas pessoas sejam capazes de fazer.
O dado do Sebrae
mostra que o pequeno negócio brasileiro já entrou nessa corrida. O próximo passo
será transformar a experimentação em processo, processo em produtividade e
produtividade em vantagem competitiva.
A discussão mais
importante sobre IA, portanto, talvez não seja quantas pessoas ela vai
substituir, mas o que empresas com as mesmas pessoas serão capazes
de fazer depois que aprenderem a trabalhar com ela.
Max Satiro - estrategista de negócios,
fundador da Sócio Estratégico, graduado em Marketing e com MBA pela FGV. Foi
CMO da V4 Company e atua na estratégia, reestruturação e crescimento de
negócios.
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