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Especialista aponta que o isolamento social de idosos decorre da perda de papel produtivo e defende que o vínculo humano é parte fundamental da saúde mental
O isolamento social e a solidão atingem uma parcela significativa
da população idosa. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de uma
em cada quatro pessoas que estão nessa fase da vida sofre com o isolamento
social, enquanto a solidão afeta aproximadamente uma em cada dez. A entidade
também alerta que o etarismo pode prejudicar a saúde mental e contribuir para o
isolamento social, a solidão e a perda de qualidade de vida.
Esse cenário ganha ainda mais relevância durante o Setembro
Amarelo, período dedicado à conscientização sobre a saúde
mental e à prevenção do suicídio. Na terceira idade, olhar para os impactos
emocionais do isolamento, da falta de vínculos sociais e do preconceito
relacionado à idade é fundamental para fortalecer redes de apoio e identificar
sinais de sofrimento emocional. A promoção de vínculos, pertencimento e espaços
de escuta pode ter um papel importante na construção de uma velhice com mais
qualidade de vida e bem-estar.
A relação entre etarismo e saúde também foi analisada em uma ampla
revisão sistemática encomendada pela OMS. O levantamento analisou 422 estudos
realizados em 45 países e encontrou associação entre etarismo e piores
resultados de saúde em 96% dos trabalhos analisados, incluindo efeitos sobre
dimensões físicas, mentais e sociais.
Para David Amorim, pesquisador na área
de Antropologia Médica e do envelhecimento, discutir a saúde mental na velhice
exige analisar como a estrutura social enxerga a pessoa idosa. A perda de
reconhecimento, o enfraquecimento de vínculos e a ausência de um papel social
definido tornam essa fase da vida mais vulnerável ao isolamento.
“Vivemos em uma sociedade muito utilitária na maneira como trata
as pessoas. Quando você trabalha, você é a sua profissão. Quando se aposenta,
existe uma tendência de deixar de ser visto como alguém ‘útil’ para a sociedade”,
afirma.
Essa perda de reconhecimento pode afetar a forma como a pessoa se
percebe e se relaciona com o mundo ao seu redor. Ao se aposentar ou deixar de
ocupar determinadas funções sociais, ela pode sentir que perdeu parte do espaço
que tinha na família, no trabalho e na comunidade. Para David, esse processo
ajuda a entender por que o sentimento de pertencimento continua sendo
importante ao longo de toda a vida. “Envelhecer não deveria significar perder espaço na sociedade. A
pessoa continua tendo desejos, capacidade de contribuir, criar relações e
participar das decisões que dizem respeito à própria vida.’’
A solidão merece atenção ainda pelo possível impacto sobre a saúde
cognitiva. Uma análise publicada em 2024 na Nature Mental Health, com
dados de mais de 600 mil pessoas, encontrou associação entre solidão e maior
risco de demência, estimando aumento de aproximadamente 31% no risco de
demência por todas as causas entre pessoas que apresentavam solidão. Os
autores, no entanto, ressaltam que os dados são observacionais e não permitem
estabelecer uma relação direta de causa e efeito.
Para David, esses dados reforçam que os vínculos sociais não devem
ser tratados como um detalhe da velhice, mas como parte da própria saúde. “Uma
grande mentira contada é que os seres humanos precisam ser independentes. Não
existe espécie mais dependente do que o ser humano. Nosso diferencial é
justamente saber viver em sociedade e construir laços’’.
Atitudes simples do cotidiano também podem fazer diferença para
quem está atravessando um período de isolamento. Uma ligação, uma visita ou uma
pergunta sincera sobre como a pessoa está podem funcionar como sinais de
pertencimento e reconhecimento. “A presença cura! Uma ligação, uma visita, uma
pergunta sincera de como a pessoa está. São pequenos gestos que mostram que
aquela pessoa importa”, afirma o especialista.
O desafio é que o sofrimento emocional nem sempre aparece de forma
evidente. Segundo David, pessoas idosas podem tentar esconder que precisam de
atenção ou cuidado justamente pelo estigma relacionado à saúde mental e pela
ideia de que demonstrar vulnerabilidade representa dependência.
Por isso, mudanças persistentes na rotina, afastamento de
atividades que antes despertavam interesse, redução do contato com amigos e
familiares e falas relacionadas à inutilidade, solidão ou falta de sentido
merecem atenção. Para o especialista, identificar esses sinais e oferecer
espaço para escuta e convivência pode ajudar a evitar que o sofrimento
emocional passe despercebido. “As interações sociais são importantes para um
bom funcionamento do cérebro. Manter vínculos sociais é uma questão de vida
saudável no geral”, finaliza David.

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