Dr. Alfonso Massaguer, especialista em Reprodução Humana Assistida, comenta o fenômeno de gestações inesperadas entre usuárias de medicamentos GLP-1, a relação entre obesidade, SOP e infertilidade, e os cuidados necessários para quem planeja engravidar durante ou após o tratamento
Um fenômeno tem
chamado a atenção de ginecologistas e especialistas em fertilidade nos últimos
meses: os chamados "bebês do Ozempic".
O termo, criado
nas redes sociais, descreve o aumento de relatos de gestações inesperadas entre
mulheres que utilizam medicamentos da classe GLP-1, popularmente conhecidos
como canetas emagrecedoras, mesmo estando em uso de métodos contraceptivos.
Para o Dr. Alfonso
Massaguer, especialista em Reprodução Humana Assistida e fundador da Clínica
Mãe, o fenômeno tem uma explicação médica clara, e nada mágica: a perda de peso
está destravando um sistema reprodutivo que estava bloqueado pelo excesso de
peso corporal.
A relação
direta entre obesidade e infertilidade
A obesidade é um
dos fatores mais conhecidos, e ainda subestimados, de dificuldade para
engravidar. O excesso de peso provoca alterações hormonais e metabólicas que
afetam diretamente a ovulação, reduz a qualidade dos óvulos e está associado a
maior risco de aborto espontâneo, inclusive em ciclos de fertilização in vitro.
Um estudo já
consolidado na literatura médica, publicado na revista Fertility and Sterility,
acompanhou mulheres obesas em tratamento de infertilidade e constatou que uma
perda média de apenas 10 quilos foi suficiente para restaurar a fertilidade em
90% dos casos avaliados.
"É esse
mesmo mecanismo que explica os chamados bebês do Ozempic. O medicamento não age
diretamente sobre o ovário nem tem propriedade fértil por si só. O que acontece
é que, ao promover a perda de peso, ele melhora a resistência à insulina e
restabelece o equilíbrio hormonal, o que favorece a ovulação em mulheres que antes
não ovulavam com regularidade", explica o Dr. Massaguer.
A conexão
entre obesidade e síndrome dos ovários policísticos
Um dos cenários em
que essa relação fica mais evidente é o da Síndrome dos Ovários Policísticos
(SOP), condição hormonal que afeta uma parcela expressiva das mulheres em idade
reprodutiva e que está diretamente associada à dificuldade de engravidar. A SOP
tem forte relação com a resistência à insulina, e o excesso de peso corporal
tende a agravar esse quadro, criando um ciclo em que a obesidade piora os
sintomas da SOP, e a SOP, por sua vez, dificulta ainda mais a perda de peso.
Estudos recentes
mostram que pacientes com SOP e obesidade tratadas com medicamentos GLP-1
apresentaram aumento significativo na regularidade menstrual e na frequência de
ovulação, com relatos de gestações espontâneas mesmo sem intervenção adicional
de reprodução assistida, justamente pela melhora do quadro metabólico de base.
Contraindicação
na gravidez e a importância do planejamento
Apesar dos potenciais
benefícios indiretos sobre a fertilidade, o Dr. Massaguer reforça um ponto que
considera essencial e que costuma passar despercebido nas conversas sobre o
tema: as canetas emagrecedoras são formalmente contraindicadas durante a
gestação.
Estudos em animais
indicam risco ao desenvolvimento fetal, e por isso a orientação médica é de
suspensão do medicamento com antecedência mínima de dois meses antes de uma
tentativa planejada de gravidez.
"O grande
recado que eu deixo às minhas pacientes é: essas medicações não foram criadas
como tratamento de fertilidade, e usá-las com esse objetivo, sem orientação
médica adequada, ignora metade da história. A outra metade é a necessidade de
planejamento cuidadoso da suspensão antes de tentar engravidar, e de um acompanhamento
nutricional atento, já que a redução do apetite causada pelo medicamento pode
levar a deficiências de nutrientes fundamentais para a ovulação e para a
qualidade do endométrio, como ferro, proteínas e vitamina D", afirma o
especialista.
Atenção
também para quem não deseja engravidar
O Dr. Massaguer
chama atenção ainda para outro aspecto pouco discutido: mulheres que utilizam
GLP-1 e não desejam engravidar precisam redobrar a atenção ao método
contraceptivo escolhido. Isso porque o retardo do esvaziamento gástrico causado
por essas medicações, somado a efeitos colaterais como náuseas, vômitos e
diarreia, pode comprometer a absorção de anticoncepcionais orais.
Métodos que não
dependem de absorção intestinal, como DIU, implante subdérmico, injetáveis e
anel vaginal, costumam ser preferíveis nesse contexto, justamente por não
sofrerem esse tipo de interferência.
Um recado
final sobre planejamento
Para o Dr.
Massaguer, o principal aprendizado por trás do fenômeno dos "bebês do
Ozempic" não é sobre o medicamento em si, mas sobre a importância do
acompanhamento médico individualizado em qualquer fase da jornada reprodutiva.
"Cada organismo responde de uma forma, cada tratamento precisa ser
pensado dentro do contexto de vida daquela paciente. Se você está em tratamento
com GLP-1 e pensa em engravidar em algum momento, ou pelo contrário, quer
evitar uma gravidez nesse período, o caminho mais seguro sempre passa por uma
conversa franca com seu médico", completa.
Clínica Mãe
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