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sexta-feira, 18 de setembro de 2026

"Bebês do Ozempic": Clínica Mãe explica a relação entre canetas emagrecedoras, obesidade e fertilidade

Dr. Alfonso Massaguer, especialista em Reprodução Humana Assistida, comenta o fenômeno de gestações inesperadas entre usuárias de medicamentos GLP-1, a relação entre obesidade, SOP e infertilidade, e os cuidados necessários para quem planeja engravidar durante ou após o tratamento

 

Um fenômeno tem chamado a atenção de ginecologistas e especialistas em fertilidade nos últimos meses: os chamados "bebês do Ozempic". 

O termo, criado nas redes sociais, descreve o aumento de relatos de gestações inesperadas entre mulheres que utilizam medicamentos da classe GLP-1, popularmente conhecidos como canetas emagrecedoras, mesmo estando em uso de métodos contraceptivos. 

Para o Dr. Alfonso Massaguer, especialista em Reprodução Humana Assistida e fundador da Clínica Mãe, o fenômeno tem uma explicação médica clara, e nada mágica: a perda de peso está destravando um sistema reprodutivo que estava bloqueado pelo excesso de peso corporal.
 

A relação direta entre obesidade e infertilidade 

A obesidade é um dos fatores mais conhecidos, e ainda subestimados, de dificuldade para engravidar. O excesso de peso provoca alterações hormonais e metabólicas que afetam diretamente a ovulação, reduz a qualidade dos óvulos e está associado a maior risco de aborto espontâneo, inclusive em ciclos de fertilização in vitro. 

Um estudo já consolidado na literatura médica, publicado na revista Fertility and Sterility, acompanhou mulheres obesas em tratamento de infertilidade e constatou que uma perda média de apenas 10 quilos foi suficiente para restaurar a fertilidade em 90% dos casos avaliados. 

"É esse mesmo mecanismo que explica os chamados bebês do Ozempic. O medicamento não age diretamente sobre o ovário nem tem propriedade fértil por si só. O que acontece é que, ao promover a perda de peso, ele melhora a resistência à insulina e restabelece o equilíbrio hormonal, o que favorece a ovulação em mulheres que antes não ovulavam com regularidade", explica o Dr. Massaguer.
 

A conexão entre obesidade e síndrome dos ovários policísticos 

Um dos cenários em que essa relação fica mais evidente é o da Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP), condição hormonal que afeta uma parcela expressiva das mulheres em idade reprodutiva e que está diretamente associada à dificuldade de engravidar. A SOP tem forte relação com a resistência à insulina, e o excesso de peso corporal tende a agravar esse quadro, criando um ciclo em que a obesidade piora os sintomas da SOP, e a SOP, por sua vez, dificulta ainda mais a perda de peso. 

Estudos recentes mostram que pacientes com SOP e obesidade tratadas com medicamentos GLP-1 apresentaram aumento significativo na regularidade menstrual e na frequência de ovulação, com relatos de gestações espontâneas mesmo sem intervenção adicional de reprodução assistida, justamente pela melhora do quadro metabólico de base.
 

Contraindicação na gravidez e a importância do planejamento 

Apesar dos potenciais benefícios indiretos sobre a fertilidade, o Dr. Massaguer reforça um ponto que considera essencial e que costuma passar despercebido nas conversas sobre o tema: as canetas emagrecedoras são formalmente contraindicadas durante a gestação. 

Estudos em animais indicam risco ao desenvolvimento fetal, e por isso a orientação médica é de suspensão do medicamento com antecedência mínima de dois meses antes de uma tentativa planejada de gravidez. 

"O grande recado que eu deixo às minhas pacientes é: essas medicações não foram criadas como tratamento de fertilidade, e usá-las com esse objetivo, sem orientação médica adequada, ignora metade da história. A outra metade é a necessidade de planejamento cuidadoso da suspensão antes de tentar engravidar, e de um acompanhamento nutricional atento, já que a redução do apetite causada pelo medicamento pode levar a deficiências de nutrientes fundamentais para a ovulação e para a qualidade do endométrio, como ferro, proteínas e vitamina D", afirma o especialista.
 

Atenção também para quem não deseja engravidar 

O Dr. Massaguer chama atenção ainda para outro aspecto pouco discutido: mulheres que utilizam GLP-1 e não desejam engravidar precisam redobrar a atenção ao método contraceptivo escolhido. Isso porque o retardo do esvaziamento gástrico causado por essas medicações, somado a efeitos colaterais como náuseas, vômitos e diarreia, pode comprometer a absorção de anticoncepcionais orais.

Métodos que não dependem de absorção intestinal, como DIU, implante subdérmico, injetáveis e anel vaginal, costumam ser preferíveis nesse contexto, justamente por não sofrerem esse tipo de interferência.
 

Um recado final sobre planejamento 

Para o Dr. Massaguer, o principal aprendizado por trás do fenômeno dos "bebês do Ozempic" não é sobre o medicamento em si, mas sobre a importância do acompanhamento médico individualizado em qualquer fase da jornada reprodutiva. "Cada organismo responde de uma forma, cada tratamento precisa ser pensado dentro do contexto de vida daquela paciente. Se você está em tratamento com GLP-1 e pensa em engravidar em algum momento, ou pelo contrário, quer evitar uma gravidez nesse período, o caminho mais seguro sempre passa por uma conversa franca com seu médico", completa.

 

Clínica Mãe


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