No mês de conscientização e próximo ao Dia Nacional da Doação de Órgãos, celebrado em 27 de setembro, especialista explica por que comunicar aos familiares o desejo de ser doador é essencial para ajudar a transformar a intenção em transplante.
O Brasil
opera o maior sistema público de transplantes do planeta, com todos os
procedimentos oferecidos gratuitamente pelo SUS. Ainda assim, a fila de espera
por um órgão segue entre as maiores das últimas duas décadas: são cerca de 66
mil pessoas aguardando uma chance, segundo o Ministério da Saúde. O gargalo,
segundo especialistas da área, não está apenas na quantidade de doadores em
potencial, mas em um detalhe que muita gente ainda ignora: por lei, é a família
quem autoriza ou recusa a doação, mesmo quando o falecido deixou claro, em
vida, que gostaria de doar.
Dados
do Registro Brasileiro de Transplantes, da Associação Brasileira de Transplante
de Órgãos, mostram que quase metade das entrevistas feitas com parentes de
potenciais doadores termina em recusa. O motivo mais comum não é a falta de
vontade de ajudar, e sim a insegurança do momento: famílias que nunca
conversaram sobre o assunto precisam decidir em minutos, no meio de um luto
repentino, sem saber ao certo o que a pessoa teria escolhido.
“A
carteira de doador não tem valor jurídico nenhum. O documento que decide tudo é
a palavra da família na hora da entrevista com a equipe de captação. Por isso a
gente insiste tanto nesse mês: não adianta guardar a vontade de doar só para si
mesmo, é preciso dizer isso em voz alta para quem vai precisar confirmar essa
decisão depois”, explica o cirurgião vascular Henrique Abreu.
A campanha Setembro Verde, instituída por lei em 2014, existe justamente para tirar esse tema da zona de desconforto e colocá-lo na roda de conversa em casa, no trabalho, entre amigos. Segundo o especialista, o problema raramente é ideológico: a maioria das recusas nasce de dúvidas sobre o diagnóstico de morte encefálica, medo de mutilação do corpo ou simplesmente de um silêncio que nunca foi quebrado em vida.
“Ninguém
recusa por maldade. As pessoas recusam porque têm medo do que não entendem, ou
porque não têm certeza se aquela seria a vontade do parente. Morte encefálica é
diagnóstico irreversível, confirmado por mais de um médico, com exames
específicos, exatamente para que não haja dúvida nenhuma. E o corpo é tratado
com todo o respeito, saí da cirurgia em condições normais para o velório”,
afirma.
Entre
os órgãos mais aguardados no país está o rim, responsável por mais da metade
dos casos na fila nacional, seguido por córnea e fígado. Mesmo com recordes
recentes de transplantes de fígado, a oferta ainda fica abaixo da necessidade
estimada pelas entidades médicas, o que reforça a urgência de ampliar o número
de doações autorizadas.
Para o
médico, a mensagem central do Setembro Verde deste ano é simples e cabe em uma
frase: a decisão do doador se registra em conversa, não em documento. “Fale no
almoço de domingo, manda uma mensagem no grupo da família, comenta assistindo
uma reportagem sobre o assunto. Não precisa ser solene. O importante é que, se
um dia a sua família precisar responder por você, ela saiba exatamente o que
dizer”, resume.
O Dia Nacional da Doação de Órgãos, em 27 de setembro, marca o encerramento simbólico da campanha, mas a orientação de quem trabalha na área é que a conversa não fique restrita a um mês do calendário. Como a autorização da família continua sendo, na prática, a etapa decisiva de todo o processo, manter o assunto vivo ao longo do ano é apontado como o caminho mais direto para reduzir a fila de espera e aumentar o número de vidas transformadas por um transplante.
Fonte: Dr. Henrique Abreu | Especialista em Cirurgia Vascular
instagram: @dr.henrique.abreu
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