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sábado, 4 de julho de 2026

Férias Escolares

 

Brincadeira com pipas pode envolver acidentes fatais
 Pexels
Temporada de pipas: brincadeira tradicional reforça importância de lazer seguro e convivência familiar para desenvolvimento infantil
 

Aldeias Infantis SOS alerta para os riscos do uso de linhas cortantes e reforça que brincar com segurança é responsabilidade compartilhada entre famílias, sociedade e Poder Público
 

Com a chegada dos meses mais secos e ventosos do ano, somado ao período tradicional de férias escolares, o céu de muitas cidades volta a ganhar cores com uma das brincadeiras mais tradicionais da infância: empinar pipa. Presente na cultura popular há gerações, a atividade é um importante instrumento para o desenvolvimento físico, emocional e social de crianças e adolescentes, e, por se tratar de uma brincadeira, é um direito assegurado pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). 

No entanto, para que essa tradição continue colorindo os céus do país, é preciso garantir ambientes seguros e evitar riscos com o uso de materiais proibidos. O alerta é da Aldeias Infantis SOS, organização global que lidera o maior movimento de cuidado do mundo, por meio de serviços de acolhimento de crianças e adolescentes afastados dos pais por decisão judicial e iniciativas de fortalecimento familiar. 

A Organização chama a atenção para os perigos das linhas cortantes, que colocam em risco não apenas quem participa da brincadeira com pipa, mas também motociclistas, ciclistas, pedestres e demais pessoas que circulam pelas cidades. Segundo o projeto Cerol Não!, 57% dos acidentes registrados envolvendo linhas cortantes no trânsito resultam em mortes, sendo os motociclistas as principais vítimas fatais, representando 27% dos casos.  

Além disso, um levantamento do Projeto Criança Segura, da Aldeias Infantis SOS, a partir de informações do Tabnet/DataSUS, revela que, entre janeiro de 2020 e dezembro de 2025, foram registradas mais de 6.700 internações hospitalares de crianças e adolescentes, de até 14 anos, por acidentes que podem ter envolvido linhas de pipa. 

“O problema não está na brincadeira em si, que faz parte da cultura brasileira e contribui para o desenvolvimento infantil. O que coloca vidas em risco é o uso de materiais cortantes, como o cerol e a linha chilena. Quando uma linha recebe esse tipo de produto, ela deixa de ser um brinquedo e passa a representar uma ameaça real para toda a comunidade”, afirma José Carlos Sturza de Moraes, Ponto Focal do Projeto Criança Segura da Aldeias Infantis SOS. 

Produzido a partir da mistura de cola com vidro moído, o cerol é proibido em diversas localidades do país. Já a chamada linha chilena, composta por materiais altamente abrasivos, possui elevado poder de corte e é alvo de restrições legais, podendo provocar lesões graves e até fatais.

Segundo especialista da Aldeias Infantis SOS, o problema não é
a brincadeira em si, mas os materiais cortantes 
 Pexels
  

Fortalecimento familiar

Segundo Sturza, a prevenção passa, antes de tudo, pela informação e pelo fortalecimento das redes de proteção. “Nem todas as famílias têm acesso às orientações sobre os riscos do cerol ou dispõem de espaços adequados para essa brincadeira. Por isso, campanhas educativas, fiscalização e políticas públicas são fundamentais. Promover informação também é proteger crianças e adolescentes”, destaca. 

Por meio de seus projetos de fortalecimento familiar, a Aldeias Infantis SOS desenvolve ações de orientação, convivência comunitária, acesso à rede de proteção e promoção de direitos, contribuindo para que crianças cresçam em ambientes seguros e acolhedores. Nesse contexto, empinar pipa pode representar muito mais do que uma diversão: é uma oportunidade para aproximar gerações e fortalecer laços. 

“O hábito de soltar pipa fortalece vínculos familiares e comunitários. Quando adultos e crianças compartilham esse momento, a atividade favorece o diálogo, a confiança e o sentimento de pertencimento, contribuindo para o desenvolvimento saudável da infância”, reforça Sturza. “Brincar é um direito fundamental e deve ser incentivado. Preservar tradições como empinar pipa também é importante. O desafio é garantir que essa experiência ocorra de forma segura, com o compromisso de toda a sociedade para que a diversão deixe apenas boas lembranças e nunca coloque vidas em risco”, conclui.

 

Aldeias Infantis SOS
www.aldeiasinfantis.org.br


Férias escolares: como equilibrar passeios, telas e descanso para evitar a sobrecarga mental em crianças neurodivergentes

 Divulgação 
Mudanças na rotina e excesso de estímulos podem aumentar a ansiedade e o cansaço emocional; planejamento e previsibilidade ajudam a tornar o período mais leve

 

Com a chegada das férias escolares, muitas famílias aproveitam o período para programar viagens, passeios e atividades especiais para as crianças. Embora essas experiências sejam importantes para o desenvolvimento e o fortalecimento dos vínculos familiares, o excesso de compromissos e estímulos pode gerar impactos negativos para crianças neurodivergentes, especialmente aquelas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), TDAH e outras condições do neurodesenvolvimento. 

De acordo com Isabella Roque, psicóloga e coordenadora técnica da Casa Trilá, que integra o grupo ViV Saúde Mental e Emocional, o ideal é que as famílias mantenham uma estrutura mínima de organização durante as férias, estabelecendo horários flexíveis para alimentação, sono, lazer e descanso, sem transformar o período em uma extensão da rotina escolar. Além disso, passeios e atividades externas devem ser planejados de acordo com as características, preferências e necessidades de cada criança. 

“Ambientes muito movimentados, barulhentos ou com excesso de estímulos sensoriais podem provocar desconforto e cansaço. A orientação é alternar momentos mais intensos com períodos de pausa, permitindo que a criança tenha tempo para processar as experiências vividas”, explica a especialista. 

Outro ponto que costuma gerar dúvidas entre pais e responsáveis é o uso de telas durante as férias. Embora jogos, vídeos e aplicativos possam funcionar como ferramentas de entretenimento e até de aprendizagem, o aumento do tempo de exposição exige atenção. A recomendação é estabelecer limites saudáveis e incentivar atividades complementares, como brincadeiras criativas, leitura, esportes e momentos de interação com familiares e amigos. O objetivo não é eliminar a tecnologia da rotina, mas garantir que ela seja utilizada de forma equilibrada e adequada à faixa etária da criança. 

Para Adriana, o principal cuidado das famílias deve ser respeitar o ritmo individual de cada criança. “Existe uma tendência de associar férias a uma agenda cheia de atividades, mas, para muitas crianças neurodivergentes, o descanso também é uma necessidade fundamental. O ideal é construir um equilíbrio entre experiências novas, momentos de lazer, uso moderado de telas e períodos de pausa. Quando respeitamos os sinais da criança e evitamos a superestimulação, contribuímos para seu bem-estar emocional e tornamos as férias mais leve e divertida para toda a família”, afirma. 



ViV Saúde Mental e Emocional
Mais informações pelo número 0800 323 5088.


Você se apega rápido demais?

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Entenda como identificar seu padrão de apego e veja dicas práticas para se relacionar de forma mais segura e estável

 

Talvez você já tenha passado por aquele momento da vida em que deseja muito conhecer alguém, compartilhar intimidade e viver um vínculo profundo. Até que finalmente se apaixona... e o que era fantasia vira real. Ou melhor, imperfeito. Mas como lidar com a realidade das frustrações? 

Algo se desorganiza quando a paixão surge: deixamos de investir apenas em nós para dividir com o outro. A pessoa se torna objeto de desejo, mas também acende um alerta interno. É aí que o nosso estilo de apego começa a ficar mais evidente. 

No início, isso pode aparecer de forma sutil: dúvidas sobre a relação, pensamentos excessivos, vontade de se afastar ou a sensação de estar preso. Em outros momentos, acontece o oposto: você se entrega rápido demais e tenta garantir a presença a qualquer custo. 


Mas o que está por trás disso? O que faz tantos de nós sabotar o amor antes mesmo que ele tenha a chance de florescer? 

A teoria do apego ajuda a entender como nos vinculamos e reagimos em relacionamentos. Desenvolvida por John Bowlby, ela mostra que os vínculos da infância servem como modelo para a forma como nos relacionamos ao longo da vida. 

Existem quatro estilos de apego com características comuns, mas ninguém se encaixa totalmente em apenas um. O apego é um espectro, pode mudar com o tempo e costuma aparecer com mais força em situações de medo, mudança ou conflito.  


Com qual deles você mais se identifica hoje? 

Ansioso: pessoas com apego ansioso tendem a se ver de forma negativa e idealizar o outro. Têm medo intenso de abandono e, por isso, buscam constante segurança, validação e confirmação de amor. Diante de dúvidas, podem se tornar mais dependentes, exigentes e preocupadas com a relação. 

Dica prática: antes de buscar confirmação, faça uma pausa de 10 minutos e se pergunte: “tenho evidências reais ou é o medo falando?”. Também pratique comunicar suas necessidades de forma direta.  

Evitativo: tendem a se ver de forma positiva e a enxergar os outros com mais desconfiança. Valorizam muito a independência e a autossuficiência emocional, acreditando que não precisam de um relacionamento para se sentir completas. Por isso, evitam depender dos outros ou permitir que dependam delas, raramente buscando apoio ou acolhimento. 

Dica prática: compartilhe um sentimento ou pensamento por dia com alguém de confiança; comece com passos pequenos para treinar a própria vulnerabilidade sem se sobrecarregar. 

Desorganizado: oscilam entre aproximação e afastamento. Desejam intimidade, mas também sentem medo, o que gera comportamentos confusos, dificuldade em confiar, instabilidade nas relações e receio de se machucar. Podem agir de forma ambivalente, buscando o outro e, logo depois, se fechando para se proteger. 

Dica prática: quando sentir vontade de se afastar ou se aproximar impulsivamente, nomeie a emoção (“estou com medo de...”), respire fundo e espere cinco minutos antes de agir. 

Seguro: os três estilos de apego anteriores (ansioso, evitativo e desorganizado) são considerados inseguros, pois dificultam a formação e manutenção de vínculos saudáveis. Em contraste, o apego seguro sente-se confortável com a intimidade, confia no outro e permite relações mais equilibradas. 

Dica prática: mantenha o equilíbrio checando regularmente: “estou sendo claro sobre o que sinto e preciso?”; pratique validação mútua e combine limites de forma aberta. 

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A boa notícia é que o apego não é fixo. Novas vivências sempre podem transformar esses padrões. As experiências ao longo da adolescência e vida adulta podem ajudar a modificar e fortalecer os estilos de apego, mesmo que um lado inseguro tenha sido estabelecido na infância. Também vale ressaltar que a maturidade nos torna mais seguros e autoconfiantes, e a forma como vivemos nossos afetos pode migrar de um tipo para o outro.  

Não devemos ver esse mapa do apego como algo engessado, mas como um guia para compreender um pouco mais sobre nós mesmos e aprender a estar com outro de uma forma segura e estável. 


Danielle Vieira - psicóloga e psicanalista, pesquisadora dos afetos e das relações contemporâneas, mestre pela UMinho (PT), fundadora do IIPB e autora do livro “Amor moderno: o nosso mundo evitativo” (Editora Labrador). 


A fábrica de culpa e as telas dos pais: ciência da parentalidade erra o alvo


A engrenagem da culpa parental, tão agressiva e massacrante para tantos pais e mães que já vivem com o coração apertado por “não fazerem tudo o que teria que ser feito para o filho”, ganhou recentemente mais um elemento, fruto de uma reportagem que repercutia uma pesquisa científica publicada no periódico Frontiers in Psychology sobre a chamada "tecnoferência" — quando os adultos se distraem com o smartphone no ambiente familiar — e que estaria ligada ao desenvolvimento de um "apego inseguro, ansioso e evitativo" em adolescentes de 12 a 17 anos. 

Em um mundo onde pais e mães já vivem exaustos, equilibrando carreiras exigentes e as pressões diárias, esse tipo de conteúdo coloca ainda mais esse peso nas suas costas. O subentendido é cruel: se seu filho adolescente é inseguro, a culpa é sua, que ousou responder a um e-mail de trabalho ou checar uma mensagem enquanto ele estava na sala. 

Na Relacionamentoria, onde baseamos nosso trabalho nas premissas do psicólogo Alfred Adler, nós olhamos para esse tipo de conclusão com muita ressalva. E o motivo é simples: análises assim invertem a lógica da dinâmica familiar e retiram dos pais a ferramenta mais preciosa na educação dos filhos — a tranquilidade. 

Se olharmos com atenção para os dados da própria pesquisa, percebemos que o estudo fala sobre correlação, e não sobre causa e efeito. Adolescentes que já apresentam traços de insegurança ou dependência emocional tendem a interpretar qualquer distração dos pais como "rejeição". O celular, portanto, não é a causa do problema; ele é apenas o objeto em que a dinâmica disfuncional se manifesta. 

Precisamos nos fazer uma pergunta fundamental: desde quando a estabilidade emocional de um jovem de quase 18 anos deve depender do fato de os pais estarem com a atenção 100% voltada para ele o tempo todo? 

Ao exigir que os adultos funcionem como fontes ininterruptas de entretenimento e validação, o que o discurso moderno está criando não são jovens seguros, mas sim filhos tiranos. Cria-se a ilusão de que o mundo orbita ao redor deles e que qualquer desvio de foco dos pais é uma ofensa grave. 

Alfred Adler nos ensinou que a família é um sistema social que deve funcionar com base no respeito mútuo e na ordem. Os pais não são iguais aos filhos em termos de papel; eles são os líderes do lar. Um líder maduro trabalha, resolve problemas, se comunica com o mundo exterior e, sim, usa o celular. Quando os filhos testemunham os pais lidando com suas próprias vidas e obrigações, eles aprendem uma lição valiosa sobre a realidade e sobre o espaço do outro. 

Através da abordagem que defendemos na Relacionamentoria, nós mostramos que o que realmente traz segurança emocional para uma criança ou adolescente não é uma presença artificial e hipervigilante, mas sim a certeza de que os pais estão no comando. A segurança do filho está ancorada na tranquilidade e na autoridade natural dos pais. Em nossa mentoria, ensinamos que se os adultos demonstram firmeza, estão em paz com suas escolhas (inclusive a de usar o telefone para trabalhar ou descansar) e não reagem com desespero às cobranças dos filhos, os jovens absorvem essa estabilidade. 

A insegurança de um adolescente não nasce porque o pai olhou para a tela; ela nasce quando ele percebe que, através de suas queixas e exigências, ele consegue desestabilizar os adultos da casa. É a falta de liderança clara, e não a presença do smartphone, que gera o vazio emocional. 

Precisamos urgentemente desligar a tomada dessa fábrica de culpa. Pais e mães não precisam ser perfeitos, e certamente não precisam banir a tecnologia de suas vidas para serem bons educadores. Eles precisam, sim, resgatar a convicção de seu papel. Quando você assume a sua autoridade sem culpa, o celular deixa de ser uma ameaça à segurança do seu filho e volta a ser apenas o que ele realmente é: uma ferramenta. 



Yafit Laniado - psicanalista e hipnoterapeuta, criadora da Relacionamentoria, consultoria especializada no relacionamento entre pais e filhos.


O que pode estar por trás dos bloqueios emocionais

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Você já sentiu uma tristeza que não sabia explicar? Uma angústia que parecia não ter origem? Ou talvez um padrão que se repete na sua vida, nos relacionamentos, no trabalho, nas escolhas, e que, por mais que você tente mudar, insiste em aparecer? Pois bem, pode ser que essa história tenha começado muito antes de você.  

Partimos de uma premissa simples, mas profunda: não somos ilhas. Somos o resultado de tudo aquilo que vivemos, sim, mas também do que as gerações antes de nós viveram e não conseguiram elaborar completamente. Lutos que não foram chorados, segredos que ficaram guardados, pessoas que foram excluídas da família, traumas que ficaram sem amparo. Tudo isso não desaparece com o tempo, mas circula, de forma silenciosa, dentro do sistema familiar — e pode aparecer na vida dos descendentes como ansiedade sem nome, bloqueios inexplicáveis ou relacionamentos que nunca fluem.  

Não se trata de culpar os nossos ancestrais. Muito pelo contrário. Trata-se de compreender que o que sentimos nem sempre começou em nós. E que ao trazer luz para essas dinâmicas, deixamos de repetir automaticamente e passamos a ter escolha.  

Podemos pensar, por exemplo, no impacto da ausência paterna na vida de uma pessoa. E aqui é importante entender que ausência não significa apenas não estar presente fisicamente. Um pai pode estar em casa todos os dias e, ainda assim, ser emocionalmente distante, indisponível, desconectado.  

Quando a paternidade não vem acompanhada de vínculo real, isso deixa marcas. O filho pode crescer com dificuldade de se sentir pertencente ao mundo, de confiar em si mesmo, de se realizar profissionalmente ou de construir relacionamentos saudáveis. Muitas vezes, passa a vida tentando preencher esse vazio em outros lugares: em parceiros, em conquistas, na busca por aprovação.  

No entanto, a ideia não é forçar uma reconciliação artificial com esse pai. Mas algo ainda mais transformador: dar um lugar interno a essa figura, com todas as suas limitações humanas, para que o filho possa, finalmente, seguir em frente sem carregar esse peso. E é justamente aqui que surge um dos maiores equívocos sobre o processo de transformação: a crença de que, para se libertar, é preciso cortar os vínculos com o passado. Que para ser livre, é necessário esquecer, romper, rejeitar.  

Quando tentamos fugir da nossa história com raiva ou repúdio, continuamos presos a ela, só que de outro jeito. A rejeição também é uma forma de emaranhamento. E a repetição continua, muitas vezes com polaridade invertida. A verdadeira liberdade começa quando paramos de fugir e passamos a olhar. Quando nos permitimos ver nossa origem como ela realmente foi, sem idealizações e sem condenações. Quando conseguimos dizer internamente: "você é meu pai, você é minha mãe, e eu recebo a vida que vocês me deram." Não porque o passado foi perfeito, mas porque ele foi real. E porque, ao aceitá-lo, abrimos espaço para que a vida possa, finalmente, fluir.  

Diferenciar-se não é apagar de onde viemos. É honrar as raízes com consciência, deixar com cada um o peso que lhe pertence, e assumir com coragem e leveza o próprio lugar no mundo. Esse é o caminho proposto: não o de quem foge, mas o de quem integra, escolhe e segue. 

  

Adriana Braz de Oliveira - psicóloga, doutora em Psicologia da Saúde, especialista em Psicologia Transpessoal e autora do livro PsiConstelação.

 

Você tem medo de voar? Saiba por que seu cérebro pode estar te enganando

 Lito Sousa explica por que acidentes ficam gravados na memória, enquanto milhões de voos seguros passam despercebidos 

 

Basta uma turbulência mais intensa ou a repercussão de um acidente aéreo para que o medo de voar volte a ocupar espaço nas conversas e preocupações dos passageiros. O receio é comum, mas os números mostram uma realidade diferente daquela que muitas pessoas imaginam.

Segundo o relatório mais recente da Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA), divulgado em março de 2026, a aviação comercial realizou 38,7 milhões de voos em todo o mundo em 2025, transportando 4.53 bilhões de pessoas, com apenas 51 acidentes registrados. O índice equivale a 1,32 acidente por milhão de voos, reforçando que o avião continua sendo o meio de transporte mais seguro para percorrer longas distâncias.

Ainda assim, milhares de pessoas enfrentam ansiedade antes de embarcar. Para Lito Sousa, fundador do Lito Group, piloto, mecânico aeronáutico com habilitações nacionais e americanas e especialista internacional em fatores humanos na aviação, essa aflição está menos relacionada aos riscos reais da aviação e mais à forma como o cérebro humano processa informações e situações de incerteza. Com mais de 40 anos de experiência no setor — sendo 36 deles na aviação comercial em uma das maiores companhias aéreas do mundo —, Sousa é considerado um dos pioneiros no Brasil no estudo e na conscientização sobre a aerofobia. 

"Quando entramos em um avião, entregamos o controle da situação para outras pessoas. Para quem já possui um perfil mais ansioso, isso pode gerar desconforto. Além disso, quando um acidente recebe ampla repercussão, é comum que as pessoas passem a acreditar que voar ficou mais perigoso, mesmo que os dados mostrem o contrário", afirma.

De acordo com o especialista, o cérebro tende a dar mais importância aos acontecimentos que provocam medo, preocupação ou forte impacto emocional. Por isso, um único acidente pode permanecer na memória por muito tempo, enquanto milhões de voos realizados diariamente sem qualquer ocorrência passam despercebidos.

"Um acidente recebe cobertura durante vários dias e desperta emoções intensas. Já os pousos e decolagens que acontecem normalmente não viram notícia. Isso cria uma percepção de risco muito maior do que o risco real", explica.


Por que algumas situações dentro do avião causam insegurança?

Além da repercussão de acidentes, muitos passageiros se sentem desconfortáveis por não compreenderem totalmente o funcionamento da aeronave. Sons durante o voo, mudanças na potência dos motores e turbulências estão entre os principais gatilhos para quem tem medo de voar.

"Muitas pessoas interpretam qualquer barulho diferente como sinal de problema. Na prática, esses sons fazem parte da operação normal da aeronave. O mesmo acontece com a turbulência, que pode causar desconforto, mas é uma situação prevista e para a qual pilotos e aviões são preparados", diz Sousa.

Segundo ele, a falta de informação faz com que situações comuns da aviação sejam percebidas como ameaças, aumentando a ansiedade e a sensação de insegurança durante a viagem.


O que pode ajudar a reduzir o medo de voar?

Embora não exista uma solução única, algumas atitudes podem contribuir para tornar a experiência mais tranquila:

  • Buscar informações sobre aviação em fontes confiáveis;
  • Evitar o consumo excessivo de notícias sensacionalistas antes de viajar;
  • Escolher horários de voo que proporcionem mais conforto e descanso;
  • Utilizar técnicas de respiração para controlar a ansiedade;
  • Conversar com profissionais especializados quando o medo começar a impactar a rotina.

"Conhecimento reduz a insegurança. Quando entendemos melhor como funciona a aviação, conseguimos substituir parte da ansiedade por confiança. E, quando o medo interfere na qualidade de vida da pessoa, buscar ajuda profissional pode fazer toda a diferença", afirma.

Para o especialista, sentir medo não deve ser motivo de vergonha. O importante é compreender suas causas e buscar formas de lidar com ele.

"O medo de voar pode limitar oportunidades profissionais, viagens em família e experiências importantes. Com informação, preparo e, quando necessário, acompanhamento especializado, muitas pessoas conseguem superar esse receio e voltar a viajar com tranquilidade."

Esse é um dos motivos que levou o Lito Group a desenvolver um curso voltado a quem tem medo de voar. Nos últimos seis anos, mais de 8 mil alunos já passaram pelo treinamento, que reúne uma abordagem multidisciplinar para ajudar passageiros a compreender melhor o universo da aviação e reduzir a ansiedade relacionada aos voos. Totalmente online e com mais de 40 horas de conteúdo, o programa aborda temas que costumam gerar insegurança entre os passageiros, como turbulência, sistemas e falhas das aeronaves, confiança nos pilotos, meteorologia, voos transoceânicos e protocolos para emergências médicas a bordo. Além de Lito Sousa, participam das aulas pilotos internacionais, meteorologistas, engenheiros aeronáuticos, psicólogos especializados em aerofobia e comissários de voo. 

Em um momento em que o número de passageiros continua crescendo em todo o mundo, especialistas reforçam que compreender os mecanismos da ansiedade é tão importante quanto conhecer os dados sobre segurança. Afinal, embora o medo seja uma reação natural do cérebro, ele nem sempre reflete a realidade dos fatos.

 

Lito Group
Lito Academy


Copa, apostas e compulsão: quando a diversão deixa de ser saudável?

A emoção de acompanhar uma partida, torcer pelo time do coração e vibrar com cada lance faz parte da cultura esportiva e pode trazer momentos de lazer, integração e entretenimento. No entanto, em períodos de grandes competições esportivas, como a Copa do Mundo, cresce também um comportamento que merece atenção: o aumento das apostas esportivas e, em alguns casos, o desenvolvimento da compulsão por jogos.

Segundo a psiquiatra Dra. Maria Fernanda Caliani, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental e transtornos relacionados aos impulsos, é importante diferenciar uma atividade recreativa de um comportamento que passa a comprometer a saúde mental e a qualidade de vida.

"Nem toda pessoa que aposta desenvolverá uma compulsão ou transtorno do jogo patológico. O problema surge quando a atividade deixa de ser uma forma de entretenimento e passa a ocupar um espaço excessivo nos pensamentos, nas emoções e nas decisões financeiras da pessoa", explica.

Nos últimos anos, a popularização das plataformas digitais tornou os jogos de azar e as apostas esportivas muito mais acessíveis. Com poucos cliques, é possível apostar em resultados, placares, cartões, escanteios e inúmeras outras variáveis de uma partida. Para algumas pessoas, esse acesso facilitado pode aumentar o risco de comportamentos compulsivos.

"A facilidade de apostar a qualquer hora, pelo celular, associada à promessa de ganhos rápidos, pode funcionar como um gatilho importante para pessoas mais vulneráveis à impulsividade e aos comportamentos compulsivos", alerta a especialista.

Entre os principais sinais de alerta estão a preocupação constante com apostas, o aumento progressivo dos valores investidos, as tentativas frequentes de recuperar perdas, a necessidade de esconder o comportamento da família e o comprometimento das finanças pessoais.

"Um dos sinais mais comuns é quando a pessoa passa a acreditar que conseguirá recuperar tudo o que perdeu com uma nova aposta. Esse pensamento cria um ciclo perigoso, porque cada prejuízo gera uma nova tentativa de compensação, aumentando ainda mais as perdas", afirma Dra. Maria Fernanda.

A compulsão por jogos, conhecida na Psiquiatria como transtorno do jogo, é uma condição reconhecida e pode causar impactos significativos na vida pessoal, profissional, familiar e financeira. Muitas vezes, o problema vem acompanhado de sintomas como ansiedade, irritabilidade, culpa, vergonha, alterações do sono e até quadros depressivos.

A família costuma ser uma das primeiras a perceber que algo está errado. Mudanças bruscas de comportamento, mentiras frequentes, isolamento social, dificuldades financeiras sem explicação clara e preocupação excessiva com resultados esportivos podem indicar que a situação exige atenção.

"Nesses casos, o acolhimento é fundamental. Críticas, julgamentos e confrontos agressivos costumam aumentar o sofrimento e a resistência da pessoa. O ideal é estimular o diálogo e incentivar a busca por ajuda especializada", orienta.

A psiquiatra ressalta ainda que é possível apreciar o esporte de forma saudável, sem transformar as apostas no centro da experiência.

"O esporte promove convivência, emoção, entretenimento e conexão entre as pessoas. Quando a atenção deixa de estar no jogo e passa a estar exclusivamente na aposta, é importante refletir sobre o que está acontecendo e observar se existem sinais de perda de controle", destaca.

Entre as recomendações para manter uma relação saudável com as apostas estão estabelecer limites financeiros rígidos, nunca utilizar dinheiro destinado a despesas essenciais, evitar apostar para compensar prejuízos anteriores e buscar ajuda profissional ao perceber dificuldade para interromper o comportamento.

"Reconhecer que existe um problema não é sinal de fraqueza. Pelo contrário. É um passo importante para recuperar o controle, preservar a saúde mental e reconstruir relações que podem estar sendo afetadas pela compulsão", conclui Dra. Maria Fernanda Caliani.

  

Fonte: Dra. Maria Fernanda Caliani - Médica Psiquiatra, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental e transtornos relacionados à compulsão e ao comportamento impulsivo.


Vício em apostas pode ter raízes ainda na infância, alertam especialistas

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 Pesquisas e experiência clínica mostram como o uso precoce de telas abre caminho para o jogo compulsivo na adolescência 

 

O alerta vem de quem está no consultório. Psicanalistas que acompanham crianças, adolescentes e famílias observam que o vício em apostas na adolescência raramente começa nesta fase. Ele tem raízes mais antigas, fincadas nos primeiros anos de vida. Os números confirmam a gravidade do cenário. Mais de 1 milhão de adolescentes brasileiros entre 14 e 17 anos já apostou ao menos uma vez no último ano e 55,2% deles já estão na zona de risco ou apresentam transtorno relacionado ao vício, segundo o Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD III), da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). 

A explicação para esse caminho começa muito antes da adolescência. Nos primeiros anos de vida, o bebê depende do olhar de quem cuida para aprender a reconhecer o que sente, a tolerar o desconforto e a se relacionar com o mundo. É um processo que acontece no corpo, nas trocas afetivas, na presença de alguém que responde. E é exatamente aí que a tela interfere de uma forma que muitas famílias ainda não percebem. 

"O precursor do espelho é o olhar da mãe. Quando o bebê olha para o rosto de quem cuida, ele se enxerga refletido. A tela não devolve esse contorno afetivo. Ela captura pela saturação de estímulos, mas não oferece o acolhimento que a criança precisa para integrar o que sente. Onde deveria haver troca, instala-se a repetição", explica Jailza Peguim, psicanalista da Sow Saúde Integral. 

Segundo a pesquisa TIC Kids Online Brasil 2025, realizada pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), 28% das crianças e adolescentes brasileiros começaram a usar a internet antes dos seis anos de idade, quase o triplo do registrado em 2016. 

Essa lacuna, construída nos primeiros anos de vida, não desaparece. Ela acompanha a criança e vai encontrar, na adolescência, um ambiente projetado para explorá-la. Diferentemente das redes sociais, as plataformas de apostas operam com um elemento a mais, a recompensa imprevisível. O apostador nunca sabe quando vai ganhar, e é exatamente essa incerteza que alimenta a compulsão. As consequências chegam ao consultório de formas que a família raramente associa às apostas de imediato. 

A mesma pesquisa TIC Kids Online Brasil revelou que mais da metade dos adolescentes entre 11 e 17 anos já teve contato com publicidade de apostas online, número que sobe para 63% entre os de 15 a 17 anos, mesmo sendo essa publicidade proibida para menores por lei. 

"O que a clínica mostra é que o sofrimento do adolescente dificilmente aparece sozinho. Ele vem acompanhado de vergonha, de dívidas escondidas, de vínculos rompidos e de uma família que, muitas vezes, só percebe o tamanho do problema quando já está dentro dele", afirma Flávia Anjos, psicanalista e diretora vice-presidente da Sow Saúde Integral. 

Na prática, os sinais chegam de formas concretas. Adolescentes que checam o celular compulsivamente, que sentem irritação ou culpa depois de apostar, que perdem o sono e têm dificuldade de concentração nos estudos. Muitas vezes, os pais percebem esses sinais tarde e, quando percebem, tendem a colocar a culpa exclusivamente na tecnologia. 

De acordo com Jailza, essa percepção funciona como um mecanismo de defesa. "Ao colocar a culpa na tela, a família se desimplica da engrenagem do sofrimento da criança, evitando encarar as falhas na mediação ou as fissuras nos laços afetivos cotidianos. O que a clínica mostra é que o uso abusivo quase sempre é uma tentativa de automedicação psíquica. E os pais, frequentemente, também estão capturados pelas próprias telas", explica a especialista. 

Para as famílias que já lidam com esse problema na adolescência, o caminho não é a culpa nem o controle repentino. É a busca por ajuda especializada, porque os mecanismos envolvidos são complexos e raramente se resolvem apenas com força de vontade. A escola também tem papel nessa rede, podendo identificar mudanças de comportamento precocemente e aproximar a família da situação.

 

Nova lei, velhos desafios

Em março de 2026, entrou em vigor o ECA Digital (Lei nº 15.211/2025), o marco regulatório mais abrangente já criado no Brasil para proteger crianças e adolescentes no ambiente digital. Entre outras medidas, a lei proíbe o uso de dados e perfis emocionais de menores para fins publicitários e veda conteúdos que incentivem jogos baseados em recompensas, como as bets. 

Para Flávia, a lei representa um avanço, mas sua efetividade ainda está por ser provada. A legislação tem menos de três meses de vigor e o histórico de aplicação real ainda não existe. Enquanto isso, a família não pode esperar que o Estado resolva. 

“O vínculo construído dentro de casa é o que vai determinar se o filho terá ou não com quem falar quando o problema aparecer. O adolescente ainda está em formação. Ele não tem condições plenas de discernimento e é muito suscetível à pressão do grupo, à necessidade de pertencer, de ser aceito. Quando a família está presente de verdade, não apenas fisicamente, o filho tem mais chance de falar antes que o problema tome proporções que ele não consegue mais controlar sozinho", conclui.


DISCURSO RED PILL É PERIGOSO POR OFERECER RESPOSTAS RASAS, DIVULGANDO EXPERIÊNCIAS PESSOAIS E PONTUAIS COMO VERDADES ABSOLUTAS

Oratória reducionista é confortável para alguns homens, mas pode ser substituída por pensamentos funcionais e saudáveis 

 

O movimento Red Pill masculino é, em linhas gerais, um conjunto de comunidades virtuais e presenciais de homens, que se formam espontaneamente e abastecem a Internet, cursos e palestras com máximas, que vão de relacionamentos a desenvolvimento pessoal e profissional. 

O nome Red Pill (pílula vermelha) faz referência ao filme Matrix, como se estes homens tivessem tomado uma pílula que os fizessem enxergar a “verdade”.  Será mesmo? Uma fala que transforma um gênero inteiro em inimigo merece desconfiança...    

Quando a gente fala do Red Pill, é importante entender que a maior questão é que o discurso que eles trazem não é um discurso que beira a linha do absurdo, que leva para os extremos. Raramente isso acontece. Até porque eles sabem que uma fala “razoável” se conecta mais com as pessoas. As pessoas dificilmente se convencem com discursos extremos. 

O que convence ainda mais é o fato deles conseguirem misturar observações reais com conclusões equivocadas. Pega-se um recorte, uma experiência pessoal bem pontual como se fosse o filme todo, a verdade plena... É aí que a bagunça começa. 

Vamos entender. Existe mulher manipuladora? Existe. Existem homens que foram usados emocionalmente? Sim. Existem relações injustas para os homens? Claro que sim. A questão é que o movimento se apropria de experiências reais e as transformam em uma resposta simplificada e superficial sobre TODAS as mulheres. E é justamente nesta mistura de verdade com distorção cognitiva que o discurso vai se tornando muito sedutor para algumas pessoas, justificando e propagando violências.  

É importante a gente se lembrar que todo discurso que reduz a complexidade da vida não é um discurso inteligente. Às vezes ele é apenas um discurso muito confortável.   

A gente tem que entender que a vida é complexa, assim como os relacionamentos e as pessoas. Mas, é muito confortável a gente pensar que existe um grupo inteiro responsável pelo nosso sofrimento, pois nosso cérebro gosta de simplificar as coisas, de obter respostas simples para problemas complexos, até por economia de energia. 

Então quando alguém oferece uma explicação superficial para uma dor profunda, o cérebro adora. Não porque seja verdade, mas porque isso reduz a angústia. Então, a pessoa me feriu, me machucou e me traiu e eu fico ali  - tentando entender o porquê.    

E é justamente o que o discurso Red Pill faz, pega dores complexas que alguns homens tiveram, algumas dificuldades de compreensão, de digerir alguma coisa e transforma aquilo em uma desculpa simples: “a mulher não presta”, “a mulher vai te maltratar se você fizer isso e aquilo”, “a mulher não te valoriza”, “o feminismo acabou com o casamento” etc. 

A gente tem de entender algo. Eu me identificar com uma ideia, não significa que ela seja saudável. As pessoas estão confundindo muito isso com a Internet. Muitas vezes eu me identifico justamente porque fui treinada para pensar daquela forma. 

E acaba que nós nos identificamos com crenças, medos, padrões familiares, construções sociais, formas pré-determinadas de amar e sofrer...  A pergunta deveria ser: isso produz uma vida melhor para mim e para as pessoas ao meu redor? Esta pergunta é crucial e potente, pois ela desloca a discussão do plano ideológico para um campo mais funcional de pensamento.

Algumas pessoas não estão procurando verdade e sim, autorização, ou seja, elas são seduzidas pelo discurso Red Pill não porque elas queiram compreender algo, e sim, querem autorização para justificar a necessidade de manter  ressentimentos e raiva, desculpas para continuar desconfiando de tudo e todos, evitando, assim, confrontar a própria vulnerabilidade. 

O discurso Red Pill merece toda desconfiança pela generalização que produz menos consciência (isso vale para mulheres que adotam seu extremo oposto). Consciência exige nuance. Exige que a gente reconheça que existem homens e mulheres saudáveis e adoecidos. 

Por fim: assumir que a gente foi ferido é muito doloroso, mas assumir que a gente foi ferido e assumir a responsabilidade pelo que a gente faz com esta dor é muito mais doloroso, porém enriquecedor. 

A vida é feita de nuances e não devemos enxergar pessoas como categorias. É desumanizante. É um preço alto demais a se pagar por qualquer ideologia. 

Saúde mental é fundamental. Procure ajuda!

 


Elisangela Niná (CRP 120921/06) – Graduada em Psicologia pela UNIP (Universidade Paulista UNIP, em 2011 e pós- graduada em Psicopedagogia pela ‘Anhembi Morumbi’. Tem formação em Neuropsicologia pelo CETCC (Centro de Estudos em Terapia Cognitivo Comportamental). Tem formação em Transtornos Alimentares pela USP (Universidade de São Paulo). Faz atendimento on-line. É palestrante corporativa.
@psielisangelanina



sexta-feira, 3 de julho de 2026

Explore Troia: acidade antiga que moldou lendas

 

A experiência de Troia, na Turquia, não se limita à cidade antiga em si.
Foto: Divulgação/Turquia

Das páginas da Ilíada e da Odisseia de Homero a inúmeras produções cinematográficas e às principais instituições culturais do mundo, a história de Troia continua a ecoar através dos séculos e continentes. Localizada na região do Egeu Norte, na Turquia, e reconhecida como Patrimônio Mundial da UNESCO, esta icônica cidade antiga ergue-se não apenas como testemunha da história, mas também como uma fonte viva de inspiração para a literatura, a arte, o cinema e a ciência. Hoje, o legado duradouro de Troia está alcançando novos públicos ao redor do mundo por meio de uma série de eventos culturais internacionais.  

A marcante exposição de artefatos troianos no Coliseu de Roma, inaugurada em 11 de junho deste ano, consolidou-se como uma das apresentações internacionais mais prestigiadas de Troia nos últimos anos. Levando o legado da cidade antiga a um dos monumentos culturais mais icônicos do mundo, a mostra apresenta 221 artefatos selecionados de 19 museus da Turquia — incluindo o Museu de Troia em Çanakkale —, sendo que 50 deles nunca haviam sido exibidos na Itália, além de outros 80 provenientes de coleções de museus italianos. Atraindo grande atenção internacional, a exposição oferece uma oportunidade excepcional para exibir a riqueza do patrimônio arqueológico de Troia e reforça ainda mais o status da cidade antiga como um tesouro cultural universal.  

Ao lado dessa grande vitrine, uma série de eventos culturais e acadêmicos em diferentes países continua a levar a cidade antiga a novos públicos. Após uma cativante conferência e exposição fotográfica na Turkish House em Nova York, Troia agora se prepara para encantar o público na Holanda: uma exposição fotográfica especial será aberta no Instituto Yunus Emre, em Amsterdã, no dia 28 de junho, seguida por uma conferência do Professor Rüstem Aslan, arqueólogo-chefe das escavações de Troia, na Universidade de Leiden, no dia 29 de junho. Mais atividades estão planejadas globalmente e, embora essas conferências e exposições mundiais despertem um grande interesse por Troia, elas oferecem apenas uma prévia do local para os entusiastas. Para vivenciá-lo plenamente, a Turquia convida os viajantes curiosos a visitarem a própria cidade antiga de Troia, localizada a apenas 30 quilômetros do centro de Çanakkale. 

 

Uma jornada pela natureza, patrimônio e mito 

Çanakkale, aninhada no portal norte do Egeu, fica na entrada do Estreito de Çanakkale, também conhecido como "Os Dardanelos". Este oásis costeiro oferece experiências incomparáveis, desde praias ensolaradas e esportes aquáticos emocionantes até áreas de acampamento panorâmicas, ciclovias e rotas de vinhos de marcas exclusivas (boutique). Aqui, os visitantes podem refazer os passos históricos da Batalha de Çanakkale — também conhecida como a Campanha de Galípoli ou dos Dardanelos na Primeira Guerra Mundial — e até mesmo mergulhar para explorar os fascinantes naufrágios da guerra. Também podem se perder nas encostas esmeralda do Monte Ida, refrescar-se nas águas cristalinas de Assos e descobrir o charme insular único de Bozcaada e Gökçeada.  

Contudo, a verdadeira joia da coroa da cidade é, sem dúvida, Troia. Um enorme cavalo de madeira no centro da cidade oferece um vislumbre desse local mítico, cujo charme misterioso continua a fascinar viajantes de todos os cantos do planeta. 

 

Troia: camadas de civilização  

A uma curta viagem de carro do coração de Çanakkale, Troia convida os entusiastas da cultura a caminhar por seu terreno repleto de camadas, oferecendo uma oportunidade rara de testemunhar a história como uma linha do tempo viva. Localizada no vilarejo de Tevfikiye, Troia é mais conhecida como a cidade que inspirou o poema épico de Homero, a Ilíada. Embora a Guerra de Troia tenha gravado a cidade permanentemente em nossa memória, o local foi o lar de diversas culturas muito antes da lenda. Hoje, o patrimônio mundial da UNESCO revela 5.000 anos de assentamento contínuo, abrangendo dez camadas distintas (e em expansão), que vão desde a Idade do Bronze Antiga até o período Romano Oriental.  

Na entrada de Troia, os visitantes são recebidos por um monumental Cavalo de Troia de madeira. Iniciando sua jornada histórica por ali, os viajantes podem caminhar pelas muralhas de pedra e ruas antigas bem preservadas, que um dia podem ter sido pisadas por algumas das maiores figuras do mito troiano.  

Troia também está intimamente ligada às origens do Império Romano através da lenda de Eneias. De acordo com o épico imortalizado na Eneida de Virgílio, o príncipe Eneias embarcou em uma viagem lendária para encontrar uma "Nova Troia" após a queda da cidade. Seguindo o que os historiadores hoje chamam de "Rota de Eneias" — também reconhecida como uma Rota Cultural pelo Conselho da Europa —, o príncipe anatólio finalmente chegou às margens do Lácio, onde seus descendentes fundariam Roma em 753 a.C.  

Além do reino dos mitos, uma coisa permanece certa sobre Troia: como uma cidade anatólia profundamente enraizada, com assentamento contínuo e influência global, ela serviu como a inspiração definitiva, plantando as próprias raízes da literatura ocidental. Hoje, testemunhar as ruínas antigas de um assentamento tão importante, que se estende desde fortificações da Idade do Bronze até o Odeon romano e o Bouleuterion, é uma experiência de valor inestimável. 

 

Uma experiência de museu moderna: descobrindo troia além das ruínas  

A experiência de Troia não se limita à cidade antiga em si. Na entrada do sítio arqueológico, o premiado Museu de Troia, com sua arquitetura simples, porém impressionante, convida os visitantes a enriquecer sua jornada histórica explorando os tesouros arqueológicos descobertos na região. Reconectando o passado de Troia com o público de hoje, o Museu de Troia apresenta a história em camadas da cidade antiga ao longo de três pavimentos, por meio de uma narrativa contemporânea e imersiva. 

 

Como Chegar 

Voos diários conectam o Aeroporto de Istambul a Çanakkale. Os visitantes também podem desfrutar de uma viagem de carro panorâmica saindo de Istambul para chegar a Troia em poucas horas. 

 

Onde Ficar  

Çanakkale oferece uma variedade de opções de hospedagem, desde redes de hotéis até propriedades de charme (boutique). Para uma experiência mais autêntica, os visitantes podem se hospedar no encantador vilarejo de Tevfikiye, o assentamento mais próximo de Troia, onde pousadas familiares aconchegantes oferecem uma oportunidade única de vivenciar a hospitalidade local. 

 

 A experiência de Troia, na Turquia, não se limita à cidade antiga em si.
 Foto: Divulgação/Turquia

A experiência de Troia, na Turquia, não se limita à cidade antiga em si.
 Foto: Divulgação/Turquia


A experiência de Troia, na Turquia, não se limita à cidade antiga em si.
 Foto: Divulgação/Turquia



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