A engrenagem da culpa parental, tão agressiva e massacrante para tantos pais e mães que já vivem com o coração apertado por “não fazerem tudo o que teria que ser feito para o filho”, ganhou recentemente mais um elemento, fruto de uma reportagem que repercutia uma pesquisa científica publicada no periódico Frontiers in Psychology sobre a chamada "tecnoferência" — quando os adultos se distraem com o smartphone no ambiente familiar — e que estaria ligada ao desenvolvimento de um "apego inseguro, ansioso e evitativo" em adolescentes de 12 a 17 anos.
Em um mundo onde pais e mães já vivem exaustos, equilibrando carreiras exigentes e as pressões diárias, esse tipo de conteúdo coloca ainda mais esse peso nas suas costas. O subentendido é cruel: se seu filho adolescente é inseguro, a culpa é sua, que ousou responder a um e-mail de trabalho ou checar uma mensagem enquanto ele estava na sala.
Na Relacionamentoria, onde baseamos nosso trabalho nas premissas do psicólogo Alfred Adler, nós olhamos para esse tipo de conclusão com muita ressalva. E o motivo é simples: análises assim invertem a lógica da dinâmica familiar e retiram dos pais a ferramenta mais preciosa na educação dos filhos — a tranquilidade.
Se olharmos com atenção para os dados da própria pesquisa, percebemos que o estudo fala sobre correlação, e não sobre causa e efeito. Adolescentes que já apresentam traços de insegurança ou dependência emocional tendem a interpretar qualquer distração dos pais como "rejeição". O celular, portanto, não é a causa do problema; ele é apenas o objeto em que a dinâmica disfuncional se manifesta.
Precisamos nos fazer uma pergunta fundamental: desde quando a estabilidade emocional de um jovem de quase 18 anos deve depender do fato de os pais estarem com a atenção 100% voltada para ele o tempo todo?
Ao exigir que os adultos funcionem como fontes ininterruptas de entretenimento e validação, o que o discurso moderno está criando não são jovens seguros, mas sim filhos tiranos. Cria-se a ilusão de que o mundo orbita ao redor deles e que qualquer desvio de foco dos pais é uma ofensa grave.
Alfred Adler nos ensinou que a família é um sistema social que deve funcionar com base no respeito mútuo e na ordem. Os pais não são iguais aos filhos em termos de papel; eles são os líderes do lar. Um líder maduro trabalha, resolve problemas, se comunica com o mundo exterior e, sim, usa o celular. Quando os filhos testemunham os pais lidando com suas próprias vidas e obrigações, eles aprendem uma lição valiosa sobre a realidade e sobre o espaço do outro.
Através da abordagem que defendemos na Relacionamentoria, nós mostramos que o que realmente traz segurança emocional para uma criança ou adolescente não é uma presença artificial e hipervigilante, mas sim a certeza de que os pais estão no comando. A segurança do filho está ancorada na tranquilidade e na autoridade natural dos pais. Em nossa mentoria, ensinamos que se os adultos demonstram firmeza, estão em paz com suas escolhas (inclusive a de usar o telefone para trabalhar ou descansar) e não reagem com desespero às cobranças dos filhos, os jovens absorvem essa estabilidade.
A
insegurança de um adolescente não nasce porque o pai olhou para a tela; ela
nasce quando ele percebe que, através de suas queixas e exigências, ele
consegue desestabilizar os adultos da casa. É a falta de liderança clara, e não
a presença do smartphone, que gera o vazio emocional.
Precisamos urgentemente desligar a tomada dessa fábrica de culpa. Pais e mães não precisam ser perfeitos, e certamente não precisam banir a tecnologia de suas vidas para serem bons educadores. Eles precisam, sim, resgatar a convicção de seu papel. Quando você assume a sua autoridade sem culpa, o celular deixa de ser uma ameaça à segurança do seu filho e volta a ser apenas o que ele realmente é: uma ferramenta.
Yafit Laniado - psicanalista e hipnoterapeuta, criadora da Relacionamentoria, consultoria especializada no relacionamento entre pais e filhos.
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