A emoção de acompanhar uma partida, torcer pelo time do coração e vibrar com cada lance faz parte da cultura esportiva e pode trazer momentos de lazer, integração e entretenimento. No entanto, em períodos de grandes competições esportivas, como a Copa do Mundo, cresce também um comportamento que merece atenção: o aumento das apostas esportivas e, em alguns casos, o desenvolvimento da compulsão por jogos.
Segundo a
psiquiatra Dra. Maria Fernanda Caliani, especialista em Terapia
Cognitivo-Comportamental e transtornos relacionados aos impulsos, é importante
diferenciar uma atividade recreativa de um comportamento que passa a
comprometer a saúde mental e a qualidade de vida.
"Nem
toda pessoa que aposta desenvolverá uma compulsão ou transtorno do jogo
patológico. O problema surge quando a atividade deixa de ser uma forma de
entretenimento e passa a ocupar um espaço excessivo nos pensamentos, nas
emoções e nas decisões financeiras da pessoa", explica.
Nos últimos
anos, a popularização das plataformas digitais tornou os jogos de azar e as
apostas esportivas muito mais acessíveis. Com poucos cliques, é possível
apostar em resultados, placares, cartões, escanteios e inúmeras outras
variáveis de uma partida. Para algumas pessoas, esse acesso facilitado pode
aumentar o risco de comportamentos compulsivos.
"A
facilidade de apostar a qualquer hora, pelo celular, associada à promessa de
ganhos rápidos, pode funcionar como um gatilho importante para pessoas mais
vulneráveis à impulsividade e aos comportamentos compulsivos", alerta a
especialista.
Entre os
principais sinais de alerta estão a preocupação constante com apostas, o
aumento progressivo dos valores investidos, as tentativas frequentes de recuperar
perdas, a necessidade de esconder o comportamento da família e o
comprometimento das finanças pessoais.
"Um dos
sinais mais comuns é quando a pessoa passa a acreditar que conseguirá recuperar
tudo o que perdeu com uma nova aposta. Esse pensamento cria um ciclo perigoso,
porque cada prejuízo gera uma nova tentativa de compensação, aumentando ainda
mais as perdas", afirma Dra. Maria Fernanda.
A compulsão
por jogos, conhecida na Psiquiatria como transtorno do jogo, é uma condição
reconhecida e pode causar impactos significativos na vida pessoal,
profissional, familiar e financeira. Muitas vezes, o problema vem acompanhado
de sintomas como ansiedade, irritabilidade, culpa, vergonha, alterações do sono
e até quadros depressivos.
A família
costuma ser uma das primeiras a perceber que algo está errado. Mudanças bruscas
de comportamento, mentiras frequentes, isolamento social, dificuldades
financeiras sem explicação clara e preocupação excessiva com resultados
esportivos podem indicar que a situação exige atenção.
"Nesses
casos, o acolhimento é fundamental. Críticas, julgamentos e confrontos
agressivos costumam aumentar o sofrimento e a resistência da pessoa. O ideal é
estimular o diálogo e incentivar a busca por ajuda especializada",
orienta.
A psiquiatra
ressalta ainda que é possível apreciar o esporte de forma saudável, sem
transformar as apostas no centro da experiência.
"O
esporte promove convivência, emoção, entretenimento e conexão entre as pessoas.
Quando a atenção deixa de estar no jogo e passa a estar exclusivamente na
aposta, é importante refletir sobre o que está acontecendo e observar se
existem sinais de perda de controle", destaca.
Entre as
recomendações para manter uma relação saudável com as apostas estão estabelecer
limites financeiros rígidos, nunca utilizar dinheiro destinado a despesas
essenciais, evitar apostar para compensar prejuízos anteriores e buscar ajuda
profissional ao perceber dificuldade para interromper o comportamento.
"Reconhecer
que existe um problema não é sinal de fraqueza. Pelo contrário. É um passo
importante para recuperar o controle, preservar a saúde mental e reconstruir
relações que podem estar sendo afetadas pela compulsão", conclui Dra.
Maria Fernanda Caliani.

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