Oratória reducionista é confortável para alguns homens, mas pode ser substituída por pensamentos funcionais e saudáveis
O movimento Red Pill masculino é, em linhas gerais, um conjunto de comunidades virtuais e presenciais de homens, que se formam espontaneamente e abastecem a Internet, cursos e palestras com máximas, que vão de relacionamentos a desenvolvimento pessoal e profissional.
O nome Red Pill (pílula vermelha) faz referência ao filme Matrix, como se estes homens tivessem tomado uma pílula que os fizessem enxergar a “verdade”. Será mesmo? Uma fala que transforma um gênero inteiro em inimigo merece desconfiança...
Quando a gente fala do Red Pill, é importante entender que a maior questão é que o discurso que eles trazem não é um discurso que beira a linha do absurdo, que leva para os extremos. Raramente isso acontece. Até porque eles sabem que uma fala “razoável” se conecta mais com as pessoas. As pessoas dificilmente se convencem com discursos extremos.
O que convence ainda mais é o fato deles conseguirem misturar observações reais com conclusões equivocadas. Pega-se um recorte, uma experiência pessoal bem pontual como se fosse o filme todo, a verdade plena... É aí que a bagunça começa.
Vamos entender. Existe mulher manipuladora? Existe. Existem homens que foram usados emocionalmente? Sim. Existem relações injustas para os homens? Claro que sim. A questão é que o movimento se apropria de experiências reais e as transformam em uma resposta simplificada e superficial sobre TODAS as mulheres. E é justamente nesta mistura de verdade com distorção cognitiva que o discurso vai se tornando muito sedutor para algumas pessoas, justificando e propagando violências.
É importante a gente se lembrar que todo discurso que reduz a complexidade da vida não é um discurso inteligente. Às vezes ele é apenas um discurso muito confortável.
A gente tem que entender que a vida é complexa, assim como os relacionamentos e as pessoas. Mas, é muito confortável a gente pensar que existe um grupo inteiro responsável pelo nosso sofrimento, pois nosso cérebro gosta de simplificar as coisas, de obter respostas simples para problemas complexos, até por economia de energia.
Então quando alguém oferece uma explicação superficial para uma dor profunda, o cérebro adora. Não porque seja verdade, mas porque isso reduz a angústia. Então, a pessoa me feriu, me machucou e me traiu e eu fico ali - tentando entender o porquê.
E é justamente o que o discurso Red Pill faz, pega dores complexas que alguns homens tiveram, algumas dificuldades de compreensão, de digerir alguma coisa e transforma aquilo em uma desculpa simples: “a mulher não presta”, “a mulher vai te maltratar se você fizer isso e aquilo”, “a mulher não te valoriza”, “o feminismo acabou com o casamento” etc.
A gente tem de entender algo. Eu me identificar com uma ideia, não significa que ela seja saudável. As pessoas estão confundindo muito isso com a Internet. Muitas vezes eu me identifico justamente porque fui treinada para pensar daquela forma.
E acaba que nós nos identificamos com crenças, medos, padrões
familiares, construções sociais, formas pré-determinadas de amar e sofrer...
A pergunta deveria ser: isso produz uma vida melhor para mim e para as
pessoas ao meu redor? Esta pergunta é crucial e potente, pois ela desloca a
discussão do plano ideológico para um campo mais funcional de pensamento.
Algumas pessoas não estão procurando verdade e sim, autorização, ou seja, elas são seduzidas pelo discurso Red Pill não porque elas queiram compreender algo, e sim, querem autorização para justificar a necessidade de manter ressentimentos e raiva, desculpas para continuar desconfiando de tudo e todos, evitando, assim, confrontar a própria vulnerabilidade.
O discurso Red Pill merece toda desconfiança pela generalização que produz menos consciência (isso vale para mulheres que adotam seu extremo oposto). Consciência exige nuance. Exige que a gente reconheça que existem homens e mulheres saudáveis e adoecidos.
Por fim: assumir que a gente foi ferido é muito doloroso, mas assumir que a gente foi ferido e assumir a responsabilidade pelo que a gente faz com esta dor é muito mais doloroso, porém enriquecedor.
A vida é feita de nuances e não devemos enxergar pessoas como categorias. É desumanizante. É um preço alto demais a se pagar por qualquer ideologia.
Saúde mental é fundamental. Procure ajuda!
Elisangela Niná (CRP 120921/06) – Graduada em Psicologia pela UNIP (Universidade Paulista UNIP, em 2011 e pós- graduada em Psicopedagogia pela ‘Anhembi Morumbi’. Tem formação em Neuropsicologia pelo CETCC (Centro de Estudos em Terapia Cognitivo Comportamental). Tem formação em Transtornos Alimentares pela USP (Universidade de São Paulo). Faz atendimento on-line. É palestrante corporativa.
@psielisangelanina
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