Estudo mostra que bebidas ácidas podem provocar erosão dentária independentemente da presença de açúcar; alimentação equilibrada também contribui para a saúde bucal
Refrigerantes sem açúcar, bebidas energéticas, sucos
cítricos naturais ou industrializados e até os populares shots preparados com
ingredientes ácidos podem provocar desgaste progressivo dos dentes, mesmo em
pessoas que mantêm uma rotina adequada de escovação e uso do fio dental. O
alerta é de especialistas em odontologia e nutrição, que chamam atenção para um
fator muitas vezes negligenciado quando o assunto é saúde bucal: a alimentação.
O tema tem chamado atenção da comunidade científica. Uma revisão sistemática publicada na revista científica Nutrients identificou que bebidas ácidas, incluindo versões zero e diet de refrigerantes, apresentam potencial para causar erosão dentária em razão do baixo pH e do tempo de contato com os dentes, independentemente da presença de açúcar.
“Muitas pessoas acreditam que estão protegidas ao optar por
versões sem açúcar de determinadas bebidas, mas a acidez, por si só, pode
promover a erosão do esmalte dentário”, afirma a periodontista Dra. Maria
Fernanda Kolbe, SDA da EMS, especialista, mestre e doutora em Periodontia.
Nem
só o açúcar representa risco
Embora os doces ainda sejam os principais vilões quando o assunto é cárie, especialistas alertam que o risco à saúde bucal vai muito além do açúcar. Refrigerantes sem açúcar, bebidas energéticas, sucos ácidos naturais ou industrializados e até shots caseiros à base de ingredientes cítricos podem contribuir para a erosão dentária, um desgaste gradual e irreversível do esmalte provocado pela ação dos ácidos.
“As bebidas ácidas reduzem o pH da cavidade oral e promovem a desmineralização da camada mais externa e mais dura do dente, o esmalte. Com o passar do tempo, esse desgaste enfraquece e diminui o dente,e aumenta o risco de hipersensibilidade e de outras complicações”, explica a especialista.
O problema não se limita às bebidas. Alimentos ultraprocessados ricos em açúcares e amidos refinados também favorecem a proliferação de bactérias responsáveis pela formação do biofilme e pelo desenvolvimento de cárie.
“O açúcar é fermentado pelas bactérias presentes no biofilme,
produzindo ácidos capazes de iniciar o processo de cárie. Quando essa exposição
ocorre de forma frequente, há uma perda mineral progressiva das estruturas
dentárias”, acrescenta.
Alimentação
também ajuda a proteger dentes e gengivas
Se determinados hábitos alimentares podem aumentar os riscos, uma alimentação equilibrada atua no sentido oposto, contribuindo para a manutenção da saúde bucal e da saúde geral.
De acordo com a nutricionista Lúcia Endriukaite, do Instituto Ovos Brasil (IOB), nutrientes como proteínas, cálcio, fósforo, vitamina D, ômega 3 e vitaminas do complexo B desempenham papel importante na formação e manutenção dos tecidos bucais, na mineralização dentária e no funcionamento adequado do sistema imunológico.
“Os dentes, a gengiva e os demais tecidos da boca dependem de nutrientes específicos para se manterem saudáveis. Uma alimentação equilibrada contribui para a integridade dessas estruturas e auxilia os mecanismos naturais de proteção do organismo”, explica.
Esses nutrientes podem ser encontrados em diferentes grupos alimentares, como ovos, peixes, leite e derivados, vegetais verde-escuros, oleaginosas e leguminosas.
“O ovo, por exemplo, reúne proteínas de alta qualidade e nutrientes importantes para a manutenção de diferentes tecidos do organismo, incluindo aqueles relacionados à saúde bucal. Por ser um alimento acessível e versátil, pode contribuir para uma alimentação mais equilibrada no dia a dia”, afirma a nutricionista.
Segundo o Instituto Ovos Brasil, o consumo per
capita do alimento deve chegar a 320 ovos por pessoa em 2026, um avanço de 166%
em relação ao registrado há 17 anos. O aumento acompanha uma maior
conscientização da população sobre a importância da alimentação para a saúde.
“Os dentes, a gengiva e os demais tecidos da boca dependem de nutrientes
específicos para se manterem saudáveis. Uma alimentação equilibrada contribui
para a integridade dessas estruturas e auxilia os mecanismos naturais de
proteção do organismo”, explica a nutricionista Lúcia Endriukaite, do IOB. O
ovo é uma das fontes desses nutrientes, reunindo proteínas de alta qualidade,
fósforo, vitaminas A e D e vitaminas do complexo B, importantes para a manutenção
da saúde bucal e do organismo como um todo.
A tendência observada no Brasil acompanha um
movimento mais amplo na América Latina. Um estudo publicado no Handbook of Egg Science and
Technology, com base em dados da FAO e da International Egg Commission (IEC), aponta
que o consumo médio na região alcançou 265 ovos por pessoa em 2020. O avanço
foi ainda mais expressivo em alguns dos principais mercados: entre 2010 e 2020,
o consumo per capita cresceu 90,2% no Brasil, 51,9% na Colômbia, 58,4% no Peru
e 27,6% na Argentina. No Brasil, o consumo praticamente dobrou, passando de 132
para 251 ovos por pessoa ao ano.
A
saliva é uma das principais aliadas da saúde bucal
Pouca gente associa a produção de saliva à prevenção de doenças bucais. No entanto, ela é considerada uma das principais defesas naturais da boca.
Além de auxiliar na digestão, a saliva contribui para neutralizar a acidez do ambiente bucal, remover resíduos alimentares e controlar a proliferação de microrganismos.
Alimentos que exigem maior mastigação, como maçã, pera, cenoura e brócolis, ajudam a estimular esse mecanismo natural. “Esses alimentos aumentam a salivação , além de auxiliarem na neutralização da acidez da boca”, explica Dra. Maria Fernanda.
A hidratação também exerce papel fundamental. “A água é essencial
para a produção de saliva. Quando há desidratação, o fluxo salivar diminui e o
risco de problemas como mau hálito, cárie e inflamações gengivais aumenta
significativamente”, acrescenta.
Prevenção exige uma abordagem integrada
Apesar da importância da alimentação e dos cuidados diários de higiene, especialistas reforçam que esses hábitos não substituem o acompanhamento odontológico regular.
“Uma alimentação equilibrada e uma boa higiene bucal são pilares fundamentais da prevenção. No entanto, o acompanhamento profissional permite identificar fatores de risco precocemente e controlar o biofilme antes que ele provoque danos mais significativos”, afirma a periodontista.
Nesse contexto, abordagens preventivas inovadoras baseadas em
evidências científicas vêm ganhando espaço nos consultórios odontológicos.
Entre elas está o Guided Biofilm Therapy (GBT), protocolo utilizado para evidenciar e remover o biofilme
de forma direcionada, além de individualizar as orientações de higiene conforme
as necessidades de cada paciente.
“O paciente passa a compreender melhor seus fatores de risco e a importância dos cuidados contínuos, reduzindo as chances de desenvolver cárie e doenças gengivais”, explica.
Para Lúcia Endriukaite, a integração entre nutrição e odontologia
tende a ganhar cada vez mais relevância nas estratégias de prevenção. “A saúde
bucal está diretamente conectada à saúde geral do organismo. Quando adotamos
uma visão integrada dos cuidados, os benefícios vão muito além do sorriso”,
conclui.
Maria Fernanda Kolbe - mestre e doutora em Clínicas Odontológicas, com ênfase em Periodontia, pela Universidade Paulista (UNIP). Especialista em Periodontia, é habilitada em laser pela IALD e graduada em Odontologia pela Universidade de São Paulo (USP). Atua como cirurgiã-dentista em São Paulo e é SDA Trainer da Swiss Dental Academy, da EMS (Electro Medical System).
Lúcia Endriukaite - nutricionista formada pela Universidade de Mogi das Cruzes, com especialização em Fitoterapia e outras áreas da nutrição. Atua como palestrante em instituições de ensino e eventos do agronegócio. Desenvolve pesquisas e materiais educativos no Instituto Ovos Brasil.
EMS - Electro Medical Systems
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