Especialista alerta que reconhecer essas doenças rapidamente pode reduzir internações, sequelas, reinternações e desperdícios no sistema de saúde
Quanto custa diagnosticar tarde demais? Na sepse, a resposta pode ser expressiva. Um grande estudo realizado em hospitais dos Estados Unidos mostrou que pacientes cuja sepse não estava registrada como presente na admissão tiveram custo hospitalar médio de US$ 51.022, contra US$ 18.023 entre os diagnosticados na chegada − uma diferença de aproximadamente 2,8 vezes.
O mesmo grupo também apresentou maior mortalidade e internações mais longas. O estudo ressalta, entretanto, que a categoria de sepse não presente na admissão inclui tanto casos possivelmente identificados tardiamente quanto episódios que surgiram posteriormente durante a hospitalização.
Além do impacto financeiro, a sepse representa grande carga para os sistemas de saúde. No Brasil, uma análise de 724.458 hospitalizações em 4.271 hospitais públicos e privados, entre 2006 e 2015, identificou aumento de 50,5% na incidência anual de hospitalizações por sepse. A letalidade média foi de 46,3%, chegando a 64,5% nas internações com passagem pela UTI.
O alerta ganha relevância diante da dimensão da sepse e da meningite e de consequências além do hospital. Internações em UTI, tratamentos complexos, reinternações, sequelas, reabilitação e afastamento de familiares do trabalho formam uma conta que nem sempre aparece no custo imediato.
Em escala mundial, o estudo Global Burden of Disease estimou 48,9 milhões de casos de sepse e 11 milhões de mortes relacionadas à síndrome em 2017, evidenciando sua dimensão para sistemas de saúde e sociedade.
“O
paciente precisa ter o diagnóstico apropriado, na hora correta”, afirma Gabriel
Ogata, especialista em Demonstração de Valor do Time Global de Acesso ao
Mercado, da bioMérieux. Para o especialista, olhar toda a jornada é essencial
para compreender os impactos clínicos e econômicos dessas doenças.
O custo invisível começa depois da alta
A conta da sepse e da meningite não termina na alta. Sobreviventes podem precisar de acompanhamento, reabilitação e novos atendimentos.
Uma revisão publicada no JAMA aponta que cerca de 40% dos pacientes que sobrevivem a uma hospitalização por sepse são reinternados em até 90 dias. O estudo também descreve limitações físicas, cognitivas e problemas de saúde mental entre os sobreviventes.
A revisão destaca a complexidade da recuperação. Entre sobreviventes, foram observados aumento de limitações funcionais e comprometimento cognitivo, além de elevada frequência de ansiedade, depressão e estresse pós-traumático. Os autores ressaltam que a qualidade do atendimento durante o episódio agudo, incluindo a oportunidade do cuidado, pode estar entre os fatores relacionados às complicações posteriores.
Na meningite meningocócica, o impacto pode durar anos. Estudo publicado em 2025 no Brazilian Journal of Infectious Diseases avaliou os custos das sequelas de longo prazo da doença meningocócica invasiva no Brasil. Os pesquisadores identificaram maior uso de recursos no primeiro ano e estimaram que cuidadores podem perder entre 33 e 85 dias de trabalho nesse período, conforme a sequela. Casos de amputações múltiplas apresentaram os maiores níveis de utilização de recursos e custos de tratamento.
Os resultados brasileiros mostram as necessidades de atendimento permanecem relevantes depois do primeiro ano. Para pacientes com amputações múltiplas, por exemplo, o estudo estimou dezenas de atendimentos médicos, psicológicos, de fisioterapia e terapia ocupacional no primeiro ano, além da necessidade de acompanhamento posterior.
Em estudo realizado na França, pesquisadores demonstraram que as consequências econômicas da doença meningocócica invasiva podem persistir por toda a vida. Em um cenário de criança com púrpura fulminante e amputação das pernas abaixo dos joelhos, o custo acumulado estimado chegou a €768.875; em outro, de meningite com sequelas neurocognitivas graves, chegou a €1,92 milhão. O primeiro ano concentrou os maiores custos.
O
impacto econômico não se restringe a hospitais e planos de saúde. Alcança
famílias, empregadores e sociedade, sobretudo quando há necessidade de cuidados
prolongados ou perda funcional.
Quando horas podem mudar a trajetória do paciente
Na sepse, tempo é crítico. O atraso no reconhecimento pode levar o quadro a maior gravidade e exigir mais recursos.
Estudo mostra que pacientes com sepse não identificada como presente na admissão permaneceram, em média, 17,6 dias no hospital, contra 7,7 dias entre os diagnosticados na admissão. Os custos foram de US$ 51.022 e US$ 18.023, respectivamente. A mortalidade também foi maior no grupo não identificado na admissão: 25,6% contra 11,4.
Os autores ressaltam que a relação entre diagnóstico tardio e pior desfecho requer cautela, pois a classificação “não presente na admissão” também contempla casos desenvolvidos após a entrada no hospital. Ainda assim, o estudo aponta que a identificação e o tratamento precoces estão associados a menor gravidade, mortalidade e custos.
No Brasil, um estudo comparando sepse adquirida na comunidade e sepse adquirida no hospital encontrou diferença importante. Pacientes com sepse hospitalar permaneceram 23 dias internados, contra oito dias entre os que tinham sepse adquirida na comunidade. A mortalidade hospitalar foi de 30,7% contra 15,6%, respectivamente.
O estudo destaca que estratégias para reduzir a mortalidade incluem detecção precoce, ressuscitação e antibioticoterapia. Os autores também relatam que, nos casos de sepse adquirida no hospital, o tempo até o diagnóstico tende a ser maior, enquanto a adesão ao tratamento é menor.
Na meningite bacteriana, a relação com o tempo de tratamento também é clara. Em um corte populacional de adultos na Dinamarca, pacientes diagnosticados após a admissão receberam antibióticos, na mediana, 8,5 horas após a chegada, contra 1,3 hora entre os diagnosticados imediatamente. A mortalidade hospitalar foi de 30% contra 14%, respectivamente.
O estudo associou atraso na antibioticoterapia a pior desfecho. Nos primeiros seis horas de internação, cada hora adicional de atraso esteve associada a aumento do risco de desfecho desfavorável na alta.
“Reduzir
o tempo entre a suspeita clínica e a primeira dose de antimicrobiano é uma das
medidas com maior potencial de impacto simultâneo sobre mortalidade, sequelas e
custos”, explica Ogata.
Diagnóstico precoce também depende da organização
Embora novas tecnologias ampliem a identificação rápida e precisa, o desafio não é apenas tecnológico. Protocolos, capacitação, integração de informações e sistemas de alerta também integram a equação.
Um estudo realizado no Houston Methodist Hospital, nos Estados Unidos, avaliou um programa de reconhecimento e resposta precoce à sepse com quatro componentes: compromisso institucional e liderança orientada por dados; rastreamento integrado ao prontuário eletrônico; protocolos de triagem; e treinamento da enfermagem.
Após a implementação, a mortalidade das internações por sepse passou de 29,7% no período anterior para 21,1%. Entre beneficiários do Medicare analisados especificamente, os pagamentos de casos considerados outliers caíram de aproximadamente US$ 5,6 milhões para US$ 3,2 milhões entre os períodos comparados. Os próprios autores, porém, ressaltam que, por se tratar de um estudo observacional do tipo antes-e-depois, não é possível estabelecer causalidade definitiva entre o programa e as reduções observadas.
Para
Ogata, os protocolos precisam ser incorporados à rotina. “Os protocolos
desempenham um papel central na qualificação da assistência”, afirma o
especialista. Segundo ele, a implementação exige capacitação e mudanças
organizacionais e monitoramento contínuo de adesão e resultados.
Prevenir também significa reduzir custos
A prevenção é outra frente para alterar essa equação. No caso da meningite, a análise do Global Burden of Disease Study 2016 mostrou uma redução de 49,1% nos casos de meningite por Haemophilus influenzae tipo b entre 1990 e 2016, fazendo a doença passar de causa mais comum de meningite incidente em 1990 para a menos comum entre as quatro categorias analisadas em 2016. O estudo ressalta a importância da vacinação, do acesso a diagnósticos e tratamentos e do suporte aos sobreviventes com deficiência.
A doença meningocócica invasiva também tem importante potencial de prevenção. O estudo brasileiro sobre sequelas destaca que a doença é grave, progride rapidamente e pode deixar consequências físicas, neurológicas e psicológicas de longo prazo.
Na sepse, programas com indicadores acompanhados podem melhorar identificação e tratamento. O estudo de Jones e colaboradores é um exemplo de como ferramentas de rastreamento, protocolos e treinamento podem ser integrados à rotina hospitalar.
Ogata
também defende altas coberturas vacinais, modelos de financiamento que
considerem a jornada completa do paciente e a incorporação criteriosa de
tecnologias diagnósticas com base em avaliação de tecnologias em saúde.
A pergunta que o sistema precisa fazer
Mais do que perguntar quanto custa tratar sepse e meningite, importa saber quanto custa não reconhecê-las a tempo.
Os estudos mostram diferentes dimensões do problema. No Brasil, a sepse apresenta elevada letalidade e consumo significativo de recursos hospitalares. Nos Estados Unidos, casos de sepse não identificados como presentes na admissão apresentaram custos hospitalares médios aproximadamente 2,8 vezes superiores aos casos identificados na chegada. Na meningite bacteriana, pacientes diagnosticados depois da admissão tiveram maior tempo até a antibioticoterapia e maior mortalidade hospitalar. E, depois da fase aguda, os impactos podem continuar por meses ou anos, seja por reinternações após sepse, seja por sequelas da doença meningocócica.
Para o especialista, reduzir o intervalo entre suspeita, diagnóstico e tratamento pode ajudar a enfrentar três desafios: reduzir mortes, minimizar sequelas e usar melhor os recursos disponíveis.
O debate evidencia uma mudança na saúde: o valor do cuidado não está apenas no procedimento, mas na capacidade de o sistema de identificar o problema no momento adequado, evitar a progressão e acompanhar o paciente em toda a jornada.
“Nesse
contexto, diagnóstico precoce deixa de ser apenas uma questão clínica. Torna-se
também estratégia de qualidade assistencial, eficiência e sustentabilidade do
sistema de saúde”, conclui o especialista da bioMérieux.
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