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segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Fibra de coco é estudada como alternativa para melhorar conforto térmico e acústico em edificações

Pesquisa desenvolvida no curso de Engenharia Civil da Universidade Christus já produziu duas gerações de protótipos e avança para testes em paredes e situações mais próximas das condições reais de uso 

 

Um resíduo abundante no litoral pode ganhar uma nova possibilidade de aplicação na construção civil. Pesquisadores do curso de Engenharia Civil da Universidade Christus desenvolvem painéis de vedação produzidos com fibra de coco e resina epóxi, com foco na melhoria do conforto térmico e acústico das edificações. Além do aproveitamento de um material natural, o estudo investiga aplicações que vão de residências e ambientes corporativos a construções temporárias de canteiros de obras.

 

A pesquisa surgiu a partir da observação de outro campo de estudo. Segundo Paula Nobre, coordenadora do curso de Engenharia Civil da Universidade Christus, a ideia veio de uma tese de doutorado relacionada à ambiência e ao conforto térmico de gado leiteiro. O trabalho havia identificado que a utilização de fibra de coco nas camas dos animais contribuía para reduzir a temperatura dos galpões. A partir desse resultado, surgiu a possibilidade de adaptar o princípio à realidade da construção civil, especialmente em regiões submetidas a temperaturas elevadas.

 

“Começamos pensando principalmente no conforto térmico e em uma aplicação para estruturas temporárias de obras, mas, à medida que os testes avançaram, percebemos outras possibilidades. O material apresentou também resultados relacionados ao isolamento acústico, o que ampliou bastante o campo de investigação”, explica Paula Nobre.

 

Primeiros protótipos 

Na pesquisa, são utilizadas tanto fibras longas quanto fibras de coco já processadas industrialmente. O material é combinado com resina epóxi, responsável por unir as fibras e conferir coesão ao painel. A opção pela matéria-prima previamente beneficiada também facilita a participação dos estudantes, já que elimina etapas como descascamento, moagem e processamento artesanal do coco.

 

Os primeiros testes, realizados em 2024, envolveram seis painéis com diferentes composições. Segundo a coordenadora, algumas das configurações avaliadas registraram redução de aproximadamente 20% na temperatura dos ambientes testados e aumento superior a 30% no isolamento acústico entre espaços. Os resultados variaram de acordo com a proporção de fibras e resina utilizada em cada protótipo.

 

O projeto já passou por duas etapas de desenvolvimento. Inicialmente, foram produzidos painéis de 15 por 15 centímetros. Depois, os pesquisadores avançaram para peças de 50 por 50 centímetros e cinco centímetros de espessura, dimensões mais próximas às de elementos disponíveis comercialmente para vedação. Os painéis maiores pesam entre oito e dez quilos.

 

A espessura reduzida é um dos pontos estudados pela equipe diante de uma realidade marcada por imóveis com áreas menores e ambientes cada vez mais próximos. Entre as possibilidades avaliadas estão divisórias de salas comerciais, separação de cômodos residenciais, home offices e espaços de uso coletivo sujeitos à propagação de ruídos, como salões de festas. Para o conforto térmico, uma das aplicações consideradas são paredes e fachadas mais expostas à incidência do sol da tarde.

 

Além dos testes térmicos e acústicos, a equipe acompanha o comportamento dos protótipos ao longo do tempo. Alguns dos blocos produzidos estão moldados há mais de dois anos e, conforme a pesquisa, não apresentaram até o momento sinais visíveis de mofo, bolor, amarelecimento, deterioração orgânica ou deformação.

 

Aplicação pode chegar aos canteiros de obras 

Uma das frentes que permanecem no horizonte do projeto é justamente aquela que ajudou a originá-lo: a melhoria das condições de permanência nos canteiros.

 

Estruturas provisórias utilizadas em obras costumam reunir materiais que podem favorecer o aquecimento interno, como coberturas metálicas. Para quem já desenvolve atividades que exigem esforço físico, permanecer durante intervalos ou períodos de trabalho em espaços excessivamente quentes pode ampliar o desconforto.

 

Nesse contexto, os painéis poderiam ser empregados nas vedações de almoxarifados, escritórios temporários e outras estruturas, associados a estratégias como ventilação e sombreamento.

 

“Quando pensamos no canteiro de obras, não estamos falando apenas do desempenho de um material. Estamos falando também das condições oferecidas às pessoas que permanecem nesses ambientes. Se conseguirmos reduzir o calor de espaços de apoio e descanso, podemos contribuir para um ambiente de trabalho mais confortável e adequado”, destaca Paula.

 

Os próximos passos devem aproximar o projeto das condições reais de uso. A equipe pretende utilizar os painéis maiores na construção de uma parede para realizar medições acústicas entre ambientes. Outra estrutura deverá ser instalada em área externa e submetida diretamente ao sol poente, permitindo verificar o comportamento térmico do material em uma situação mais próxima à encontrada em uma edificação. 

 

Para a coordenadora, o potencial do estudo está justamente na combinação entre uma matéria-prima relacionada à realidade regional e problemas concretos encontrados nas edificações.

 

“Queremos desenvolver uma solução que dialogue com o clima e com as necessidades das pessoas. O coco faz parte da realidade do Ceará, e transformar esse material em um componente que possa contribuir para o conforto térmico e acústico das edificações também é uma forma de pensar a construção a partir dos recursos e desafios que temos aqui”, afirma.

 

Além das possíveis aplicações em residências e empresas, o estudo poderá abrir caminhos para estruturas temporárias e outros projetos que não dependam de elementos estruturais. A expectativa dos pesquisadores é que o avanço das próximas etapas permita definir, com maior precisão, os usos mais adequados para o material e sua viabilidade fora do ambiente acadêmico.

 

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