Pesquisa desenvolvida no curso de Engenharia Civil da Universidade Christus já produziu duas gerações de protótipos e avança para testes em paredes e situações mais próximas das condições reais de uso
Um resíduo abundante no litoral pode ganhar uma nova possibilidade de aplicação na construção civil. Pesquisadores do curso de Engenharia Civil da Universidade Christus desenvolvem painéis de vedação produzidos com fibra de coco e resina epóxi, com foco na melhoria do conforto térmico e acústico das edificações. Além do aproveitamento de um material natural, o estudo investiga aplicações que vão de residências e ambientes corporativos a construções temporárias de canteiros de obras.
A pesquisa surgiu
a partir da observação de outro campo de estudo. Segundo Paula Nobre,
coordenadora do curso de Engenharia Civil da Universidade Christus, a ideia
veio de uma tese de doutorado relacionada à ambiência e ao conforto térmico de
gado leiteiro. O trabalho havia identificado que a utilização de fibra de coco
nas camas dos animais contribuía para reduzir a temperatura dos galpões. A
partir desse resultado, surgiu a possibilidade de adaptar o princípio à
realidade da construção civil, especialmente em regiões submetidas a
temperaturas elevadas.
“Começamos
pensando principalmente no conforto térmico e em uma aplicação para estruturas
temporárias de obras, mas, à medida que os testes avançaram, percebemos outras
possibilidades. O material apresentou também resultados relacionados ao
isolamento acústico, o que ampliou bastante o campo de investigação”, explica
Paula Nobre.
Primeiros protótipos
Na pesquisa, são
utilizadas tanto fibras longas quanto fibras de coco já processadas
industrialmente. O material é combinado com resina epóxi, responsável por unir
as fibras e conferir coesão ao painel. A opção pela matéria-prima previamente
beneficiada também facilita a participação dos estudantes, já que elimina
etapas como descascamento, moagem e processamento artesanal do coco.
Os primeiros
testes, realizados em 2024, envolveram seis painéis com diferentes composições.
Segundo a coordenadora, algumas das configurações avaliadas registraram redução
de aproximadamente 20% na temperatura dos ambientes testados e aumento superior
a 30% no isolamento acústico entre espaços. Os resultados variaram de acordo
com a proporção de fibras e resina utilizada em cada protótipo.
O projeto já
passou por duas etapas de desenvolvimento. Inicialmente, foram produzidos
painéis de 15 por 15 centímetros. Depois, os pesquisadores avançaram para peças
de 50 por 50 centímetros e cinco centímetros de espessura, dimensões mais próximas
às de elementos disponíveis comercialmente para vedação. Os painéis maiores
pesam entre oito e dez quilos.
A espessura
reduzida é um dos pontos estudados pela equipe diante de uma realidade marcada
por imóveis com áreas menores e ambientes cada vez mais próximos. Entre as
possibilidades avaliadas estão divisórias de salas comerciais, separação de
cômodos residenciais, home offices e espaços de uso coletivo sujeitos à
propagação de ruídos, como salões de festas. Para o conforto térmico, uma das
aplicações consideradas são paredes e fachadas mais expostas à incidência do
sol da tarde.
Além dos testes
térmicos e acústicos, a equipe acompanha o comportamento dos protótipos ao
longo do tempo. Alguns dos blocos produzidos estão moldados há mais de dois anos
e, conforme a pesquisa, não apresentaram até o momento sinais visíveis de mofo,
bolor, amarelecimento, deterioração orgânica ou deformação.
Aplicação pode chegar aos canteiros de obras
Uma das frentes
que permanecem no horizonte do projeto é justamente aquela que ajudou a
originá-lo: a melhoria das condições de permanência nos canteiros.
Estruturas
provisórias utilizadas em obras costumam reunir materiais que podem favorecer o
aquecimento interno, como coberturas metálicas. Para quem já desenvolve atividades
que exigem esforço físico, permanecer durante intervalos ou períodos de
trabalho em espaços excessivamente quentes pode ampliar o desconforto.
Nesse contexto, os
painéis poderiam ser empregados nas vedações de almoxarifados, escritórios
temporários e outras estruturas, associados a estratégias como ventilação e
sombreamento.
“Quando pensamos
no canteiro de obras, não estamos falando apenas do desempenho de um material.
Estamos falando também das condições oferecidas às pessoas que permanecem nesses
ambientes. Se conseguirmos reduzir o calor de espaços de apoio e descanso,
podemos contribuir para um ambiente de trabalho mais confortável e adequado”,
destaca Paula.
Os próximos passos
devem aproximar o projeto das condições reais de uso. A equipe pretende
utilizar os painéis maiores na construção de uma parede para realizar medições
acústicas entre ambientes. Outra estrutura deverá ser instalada em área externa
e submetida diretamente ao sol poente, permitindo verificar o comportamento
térmico do material em uma situação mais próxima à encontrada em uma
edificação.
Para a
coordenadora, o potencial do estudo está justamente na combinação entre uma
matéria-prima relacionada à realidade regional e problemas concretos
encontrados nas edificações.
“Queremos
desenvolver uma solução que dialogue com o clima e com as necessidades das
pessoas. O coco faz parte da realidade do Ceará, e transformar esse material em
um componente que possa contribuir para o conforto térmico e acústico das
edificações também é uma forma de pensar a construção a partir dos recursos e
desafios que temos aqui”, afirma.
Além das possíveis
aplicações em residências e empresas, o estudo poderá abrir caminhos para
estruturas temporárias e outros projetos que não dependam de elementos
estruturais. A expectativa dos pesquisadores é que o avanço das próximas etapas
permita definir, com maior precisão, os usos mais adequados para o material e
sua viabilidade fora do ambiente acadêmico.

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