Discussões entre colegas no ambiente de trabalho, pressão de lideranças, mensagens em grupos corporativos e medo de se posicionar podem transformar divergências políticas em fonte de estresse, alerta psiquiatra
A eleição não acontece apenas nas urnas. Conforme a disputa eleitoral ganha espaço nas conversas, ela também chega aos corredores das empresas, grupos de WhatsApp, reuniões, almoços entre colegas e até à relação entre chefes e funcionários. O problema começa quando uma divergência política deixa de ser apenas uma diferença de opinião e passa a produzir constrangimento, medo, hostilidade ou sensação de ameaça dentro do ambiente profissional.
Segundo
o psiquiatra corporativo Dr. Daniel Sócrates, especialista
em saúde mental relacionada ao trabalho, empresas precisam estar atentas à
maneira como o período eleitoral interfere nas relações profissionais.
“Divergência faz parte de uma sociedade democrática. O que não pode ser normalizado é um ambiente em que o trabalhador começa a sentir que precisa esconder o que pensa, concordar com o chefe ou evitar determinados colegas para se proteger profissionalmente”, explica.
Política também pode virar risco psicossocial
Em
períodos de polarização, as discussões podem ultrapassar o campo das ideias e
afetar diretamente a convivência profissional.
Ironias,
provocações, apelidos, exclusão de grupos, exposição pública da preferência
política de colegas e conflitos repetitivos podem criar um ambiente de insegurança
psicológica.
E
o trabalhador nem sempre reage discutindo.
Alguns
passam a falar menos, evitam determinados ambientes, deixam de participar de
conversas, ficam hipervigilantes diante dos colegas ou simplesmente tentam “não
chamar atenção”.
“Nem
sempre o sofrimento aparece como um conflito aberto. Muitas vezes, ele aparece
como silêncio. A pessoa começa a medir cada palavra porque não sabe como uma
opinião será interpretada ou se poderá ter alguma consequência profissional”,
explica o psiquiatra.
A empresa precisa estabelecer limites
Para
Daniel Sócrates, lideranças e áreas de gestão de pessoas precisam perceber que
cuidar da saúde mental no período eleitoral não significa determinar sobre o
que os funcionários podem pensar.
Significa
proteger o ambiente profissional de situações de intimidação.
Algumas
medidas ajudam: reforçar políticas de respeito e convivência, evitar propaganda
político-partidária em canais corporativos, orientar lideranças sobre a
assimetria de poder existente na relação com subordinados e criar canais
seguros para que trabalhadores possam relatar situações de constrangimento.
“O
papel da empresa não é escolher uma posição política para o funcionário. É
garantir que ele possa exercer sua cidadania sem medo de consequências profissionais”,
finaliza.
Dr. Daniel Sócrates - Médico psiquiatra, doutor pela UNIFESP, com mais de duas décadas de atuação clínica. Dedica-se ao cuidado de profissionais que enfrentam altos níveis de exigência e responsabilidade, com abordagem focada em performance sustentável, saúde mental e qualidade de vida.
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