Quando os sintomas persistem e os exames não confirmam infecção, outras causas precisam ser investigadas, incluindo a síndrome da bexiga dolorosa; fisioterapeuta explica como alterações da musculatura pélvica podem participar do quadro.
Ir ao banheiro várias vezes ao dia e sentir dor ou pressão na
região da bexiga pode levar à suspeita de infecção urinária. Quando as queixas
persistem e a investigação não identifica uma infecção, porém, é necessário
avaliar outras possibilidades. Entre elas está a síndrome da bexiga dolorosa,
também conhecida como cistite intersticial, cujo diagnóstico exige excluir
condições que possam explicar os sintomas.
O quadro pode envolver desconforto no baixo ventre, urgência
e aumento da frequência urinária. Em algumas pessoas, a dor piora conforme a
bexiga se enche e melhora temporariamente depois de urinar. A apresentação
varia, e esses sinais, isoladamente, não confirmam o diagnóstico.
Segundo Jullia Mello, fisioterapeuta pélvica, especialista
em Uroginecologia e Obstetrícia e mentora do grupo Pelve Conecta, a persistência
dos sintomas merece atenção mesmo quando os primeiros exames não mostram
alterações. “Um resultado normal não significa que o desconforto não existe. Precisamos
entender o padrão da dor, sua relação com a vontade de urinar e o impacto na
rotina, em conjunto com a investigação médica”, explica.
Na consulta, informações como o início das queixas, a
frequência das idas ao banheiro e a presença de dor antes ou depois de urinar
ajudam a orientar a avaliação. Um diário miccional, com registro dos horários,
volumes urinados e sintomas, pode complementar esse levantamento. Os exames são
definidos conforme a história e os achados clínicos.
Além da bexiga, a musculatura do assoalho pélvico pode
precisar de avaliação. Algumas pessoas apresentam sensibilidade dolorosa,
tensão e dificuldade de relaxamento nessa região. Quando essas alterações estão
presentes, a fisioterapia pélvica pode integrar o tratamento, conforme
indicação individual. A diretriz da Associação Americana de Urologia recomenda
técnicas manuais específicas para pacientes com sensibilidade dolorosa na
musculatura pélvica.
“O assoalho pélvico participa das funções urinárias, e
precisamos avaliar como essa musculatura está funcionando. Não podemos presumir
que toda queixa exige fortalecimento. Quando há tensão e dor, o cuidado pode
ter como foco o relaxamento e a coordenação”, afirma Jullia.
Exercícios de contração feitos por conta própria podem ser
inadequados nesse contexto. A mesma diretriz orienta evitar exercícios de
fortalecimento, como os chamados exercícios de Kegel, em pacientes com síndrome
da bexiga dolorosa e sensibilidade dolorosa do assoalho pélvico, pois podem
agravar os sintomas.
A fisioterapia deve ser planejada a partir dos achados da
avaliação, com explicação dos recursos propostos e consentimento da paciente. O
acompanhamento pode envolver técnicas manuais e estratégias para melhorar a
percepção e o relaxamento muscular, sem substituir o cuidado médico ou atribuir
todos os sintomas a uma causa muscular.
“Não existe uma sequência de exercícios que sirva para todas
as pessoas com dor na bexiga. Precisamos identificar o que pode ser trabalhado
na fisioterapia e acompanhar a resposta, respeitando os limites e o conforto da
paciente”, orienta a especialista.
O impacto também precisa entrar na conversa. Interromper
atividades para procurar um banheiro, evitar trajetos longos ou conviver com
receio de sentir dor são informações relevantes para definir os objetivos do
cuidado. A melhora deve ser acompanhada tanto pelos sintomas quanto pela possibilidade
de retomar atividades importantes.
Para Jullia, investigar sem minimizar a queixa é o primeiro
passo. “A pessoa não precisa se acostumar a organizar toda a vida em torno da
dor e das idas ao banheiro. Um acompanhamento integrado permite compreender
melhor o quadro e construir um tratamento adequado às suas necessidades”,
conclui.
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