Controle da
alimentação e atenção às mudanças no corpo do animal estão entre os cuidados
que podem fazer parte da rotina
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Sete em cada dez cadelas com
tumores mamários estavam acima do peso em um estudo brasileiro. A pesquisa, realizada pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e
publicada no Austral Journal of Veterinary Sciences analisou 600 cadelas* diagnosticadas com tumores
mamários – sendo 54 com tumores benignos e 546 malignos - e
suas condições corporais, classificadas entre muito magras,
peso ideal, sobrepeso e obesidade. Desse total, 70,2% apresentavam sobrepeso
ou obesidade. O excesso de peso também apareceu associado a
tumores de grau histológico II. *tabela 01.
Os resultados não significam que a obesidade seja a
causa do câncer — e os próprios pesquisadores não encontraram associação entre
peso e malignidade, estágio ou metástase em todas as análises. Mas reforçam uma
questão que vem ganhando atenção na oncologia veterinária: qual é o
papel da alimentação e da manutenção do peso adequado no risco e na evolução
dos tumores em cães e gatos?
De acordo com Gabriela Corte Real, veterinária
de A Quinta Pet, foodtech de
alimentação natural para cães, a obesidade provoca alterações metabólicas e um
estado inflamatório crônico no organismo. “Não existe evidência de que uma
alimentação específica seja capaz de prevenir o câncer, mas controlar a
quantidade de calorias, oferecer uma dieta nutricionalmente equilibrada e
evitar o ganho excessivo de peso são medidas que ajudam a manter uma condição
corporal saudável, que é justamente um dos fatores que a ciência tem colocado
sob investigação quando o assunto é câncer”, explica.
A relação entre obesidade e câncer também é
discutida em uma revisão científica conduzida por pesquisadores da
Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo
(USP), publicada em 2025. O trabalho explica que o tecido
adiposo não funciona apenas como reserva de energia. Em excesso, está
relacionado a alterações metabólicas, hormonais e à produção de mediadores
inflamatórios, criando um estado de inflamação crônica de baixo grau. Essa é
uma das possíveis conexões investigadas entre obesidade, desenvolvimento e
progressão de tumores em animais.
O que o tutor pode
fazer no dia a dia?
Para Gabriela, não basta oferecer ingredientes
considerados saudáveis. A dieta precisa fornecer proteínas, gorduras, carboidratos,
vitaminas e minerais nas proporções adequadas para espécie, idade, porte,
nível de atividade e condições de saúde do pet. Também é
preciso olhar para a quantidade. Mesmo uma alimentação
nutricionalmente equilibrada pode levar ao ganho de peso quando é oferecida
acima das necessidades energéticas daquele animal. Essas necessidades podem
mudar ao longo da vida de acordo com fatores como idade, nível de atividade,
castração e presença de doenças.
Petiscos, recompensas, restos
oferecidos entre as refeições e alimentos
usados para administrar medicamentos também entram nessa conta. As diretrizes
de nutrição e controle de peso da American Animal Hospital Association (AAHA)
orientam que esses alimentos extras não ultrapassem, juntos, 10% das
calorias diárias do animal, justamente para evitar tanto o excesso
de energia quanto o desequilíbrio da dieta principal. Por isso, mais importante
do que estabelecer um único modelo de alimentação como o correto para todos os
pets é observar, sempre com o acompanhamento do veterinário responsável, se aquele
animal está recebendo os nutrientes e a quantidade de energia adequados para
manter uma boa condição corporal.
E quando o câncer
já foi diagnosticado?
Nesse momento, a alimentação passa a fazer parte
também do suporte ao tratamento. As Diretrizes de
Oncologia 2026 da American Animal Hospital Association (AAHA) recomendam que a alimentação seja individualizada
de acordo com o diagnóstico de câncer, outras condições de saúde existentes e
as necessidades nutricionais de cada paciente.
Segundo Gabriela, nesses períodos a alimentação
pode exigir características diferentes das adotadas na rotina de um animal saudável,
com maior aporte de proteínas e aminoácidos para preservar a condição corporal
e a massa muscular do animal. Além da composição nutricional, ela frisa que
aspectos como textura e palatabilidade precisam ser considerados,
principalmente quando há redução de apetite ou dificuldade para se alimentar.
A especialista destaca ainda que os avanços da
nutrição veterinária vêm impulsionando o desenvolvimento de dietas
voltadas a necessidades clínicas específicas, sobretudo para
animais em convalescença, internação ou tratamento oncológico. “Já existem
opções pensada especificamente para esses períodos. Inclusive, estamos
acompanhando de perto a evolução de alguns pacientes que recebem esse suporte
nutricional durante o tratamento oncológico”, explica a veterinária, que
recentemente participou do desenvolvimento de uma dieta formulada para
favorecer elevada síntese proteica, direcionada à cicatrização, à preservação
da massa muscular e à resposta imunológica.
A indicação, porém, deve sempre considerar o quadro
clínico e ser feita com orientação veterinária. “A alimentação não substitui
cirurgia, quimioterapia ou qualquer outro tratamento indicado. Mas pode ocupar
um espaço importante tanto antes, ajudando o animal a manter
uma condição corporal adequada, quanto durante o tratamento, contribuindo
para preservar seu estado nutricional e sua qualidade de vida”, completa.
Como o responsável
pode ajudar na identificação precoce?
Ao lado da alimentação adequada, existe um cuidado
simples que pode ser incorporado à rotina: conhecer o corpo do próprio
animal. Os tumores mamários podem começar como pequenos nódulos
e, muitas vezes, são indolores. Por isso, esperar que o pet demonstre dor,
perda de peso, falta de apetite ou mudança de comportamento pode atrasar a
procura pelo médico-veterinário.
Durante momentos de carinho, banho ou escovação, o
responsável pode apalpar delicadamente as duas cadeias mamárias, que se
estendem da região do tórax até próximo à virilha. Com as pontas dos dedos, sem
apertar ou espremer, é possível perceber alterações que antes não estavam
presentes: pequenos caroços ou nódulos, áreas endurecidas, aumento de volume ou
diferença entre as mamas, vermelhidão, alterações no mamilo, secreções, feridas
ou ulcerações.
A palpação não substitui o exame veterinário. Por
isso, ao encontrar alguma alteração, procure o veterinário. Um pequeno nódulo
percebido enquanto o animal ainda brinca, come e se comporta normalmente pode
ser justamente a oportunidade de investigar uma alteração antes que ela avance.
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