Especialistas reunidos em Porto Alegre discutem avanços no atendimento aos pacientes, tratamentos estéticos e riscos associados a procedimentos
O uso da inteligência artificial nos consultórios
médicos e os avanços na identificação precoce do melanoma, um dos tipos mais
agressivos de câncer da pele, estiveram entre os principais assuntos debatidos
nesta sexta-feira (16/10), em Porto Alegre. As discussões integraram a
programação da 33ª Jornada Sul-Brasileira de Dermatologia e da 51ª Jornada
Gaúcha de Dermatologia. Os eventos são promovidos pela Sociedade Brasileira de
Dermatologia (SBD), em conjunto com suas regionais, entre elas a Sociedade
Brasileira de Dermatologia – Secção do Rio Grande do Sul (SBD-RS). A
programação reúne médicos dermatologistas, residentes e especialistas em
formação para compartilhar conhecimentos sobre novas tecnologias, diagnóstico,
tratamentos e segurança na prática clínica.
Diagnóstico precoce do câncer
da pele
A identificação do melanoma em seus estágios
iniciais recebeu atenção especial durante a programação. O presidente da SBD,
Dr. Carlos Baptista Barcaui, abordou os sinais dermatoscópicos da doença, o
tratamento cirúrgico e as indicações da biópsia do linfonodo sentinela. O
procedimento permite investigar se células tumorais atingiram os primeiros
gânglios linfáticos para os quais o câncer pode se disseminar, contribuindo
para o estadiamento e a definição da conduta terapêutica.
“Lesões muito pequenas já podem apresentar
características suspeitas. A avaliação individual com o dermatoscópio é rápida
e permite reconhecer padrões importantes para o diagnóstico. Mesmo quando uma
lesão parece benigna, é fundamental investigar qualquer suspeita de melanoma”,
destacou.
Os desafios para diferenciar a doença de alterações
benignas, como os nevos melanocíticos (pintas), foram discutidos pelo médico
dermatologista Dr. Renato Marchiori Bakos. O especialista ressaltou a
importância do acompanhamento digital para identificar mudanças nas lesões e
evitar remoções desnecessárias.
“O seguimento digital permite avaliar a
estabilidade das lesões, mas apresenta limitações. É importante considerar
outros diagnósticos e, quando a suspeita de melanoma persiste, pode ser
necessária a remoção da lesão para análise e confirmação diagnóstica”,
explicou.
A programação também contemplou o tratamento cirúrgico
da hidradenite supurativa, doença inflamatória crônica da pele, em apresentação
conduzida pela médica dermatologista Dra. Ariane Silva Bastos Geller.
Inteligência artificial na
prática médica
O uso da inteligência artificial nos consultórios
foi abordado pela médica dermatologista Dra. Fabíola Welter Ribeiro. A
especialista apresentou ferramentas capazes de transcrever consultas, organizar
prontuários e facilitar a rotina profissional, permitindo que o médico dedique
mais atenção ao paciente. Também alertou para as limitações dessas tecnologias.
“Essas ferramentas podem organizar as informações
da conversa no prontuário, permitindo que o médico tenha mais atenção ao paciente.
Por outro lado, ainda faltam dados suficientes para que os modelos sejam utilizados
em diferentes populações. O desempenho pode ser desigual conforme a pigmentação
da pele, a faixa etária e o grupo étnico”, explicou.
A palestrante ressaltou que esses recursos também
podem auxiliar na análise de informações, na consulta à literatura científica e
no acompanhamento clínico. No entanto, reforçou que a avaliação e as decisões
terapêuticas devem permanecer sob responsabilidade do médico.
Reforma tributária e impactos
nos consultórios
As mudanças previstas pela reforma tributária e
seus possíveis reflexos na atividade médica foram apresentadas pela palestrante
Danielle Bertagnoli. Entre os pontos discutidos estiveram a reorganização dos
tributos sobre o consumo, a redução de 60% nas alíquotas de referência prevista
para serviços de saúde e as diferenças de enquadramento entre procedimentos com
finalidade médica e exclusivamente estética.
“A reforma busca simplificar o sistema tributário,
mas exige atenção das clínicas. A previsão é de uma tributação em torno de 11%
para serviços médicos. Na Dermatologia, um dos desafios será diferenciar
procedimentos com finalidade médica daqueles exclusivamente estéticos, que
podem ter tributação diferente”, explicou.
Cosmiatria, tricologia e
segurança em procedimentos estéticos
A sessão científica coordenada pela médicas
dermatologista Dra. Laura de Mattos Milman reuniu atualizações em cosmiatria e
tricologia, com destaque para abordagens terapêuticas e cuidados voltados à eficácia
e à segurança dos procedimentos.
A médica dermatologista Dra. Aline Roberta Campos
Donati Jorge apresentou evidências científicas relacionadas ao uso de
cosméticos capilares e aos desafios do tratamento da haste dos fios. A palestra
enfatizou a necessidade de avaliar as características dos cabelos e selecionar
produtos conforme as necessidades individuais.
“O cuidado com os fios precisa considerar as
características da haste capilar e as evidências disponíveis sobre os produtos
utilizados. Nem sempre o cosmético mais sofisticado é o mais indicado. O
importante é compreender a necessidade de cada cabelo e orientar o paciente de
maneira individualizada”, explicou.
Na palestra “Toxina botulínica: atualizações”, a
médica dermatologista Dra. Alessandra Ribeiro Romiti abordou, entre outros
aspectos, o tratamento do terço inferior da face. A especialista ressaltou que
essas aplicações exigem conhecimento anatômico e domínio técnico, diferenciais
da atuação do dermatologista que contribuem para a segurança e a confiança dos
pacientes.
“Já faz bastante tempo que tratamos o terço
inferior da face. É um tratamento delicado, que exige conhecimento e diferencia
a atuação do médico, fazendo o paciente voltar ao consultório. Tratamos
basicamente o depressor do ângulo oral e o mentoniano. O depressor do lábio
inferior, só quando há assimetria, seja natural ou causada pela nossa toxina”,
afirmou.
O lipedema, condição crônica caracterizada pelo
acúmulo desproporcional de tecido adiposo, principalmente nos membros inferiores,
também integrou os debates. A médica dermatologista Dra. Taciana de Oliveira
Dal’Forno Dini destacou o crescimento das publicações científicas sobre o tema
na última década, especialmente nos dois anos mais recentes.
“Acomete principalmente mulheres, com aumento
desproporcional e simétrico do tecido adiposo, sobretudo nos membros inferiores.
Uma característica é a persistência desse acúmulo mesmo após a perda de peso”,
explicou.
O encontro incluiu ainda uma apresentação sobre
rejuvenescimento facial com tecnologias que atuam em diferentes camadas da
pele, conduzida pela médica dermatologista Dra. Juliana Merheb Jordão. O
encerramento do bloco foi dedicado às complicações relacionadas ao uso de
bioestimuladores de colágeno, com análise de casos clínicos e participação das
médicas dermatologistas Dra. Alessandra Ribeiro Romiti, Dra. Taciana de
Oliveira Dal’Forno Dini, Dra. Juliana Merheb Jordão, Dra. Ana Paula Dornelles
Manzoni e a médica radiologista Dra. Marilia Maia de Gonçalves.
Abertura destaca integração e
atualização profissional
A integração entre a SBD e a SBD-RS marcou a
abertura dos encontros em Porto Alegre. Os presidentes das entidades
ressaltaram a oportunidade de reunir diferentes áreas da especialidade e
promover discussões que vão além dos temas científicos, incluindo questões
presentes na rotina dos consultórios.
O presidente da SBD, Dr. Carlos Baptista Barcaui,
celebrou a realização conjunta da programação nacional e regional e destacou a
diversidade dos conteúdos apresentados.
“É uma satisfação enorme juntar três eventos em um
só, aproximando a nacional e a regional. Além dos temas científicos, como
Dermatologia Pediátrica e Oncologia, tivemos a presença de uma advogada
tributarista para orientar os colegas sobre a reforma tributária. Isso mostra o
caráter inovador do encontro”, afirmou.
Já o presidente da SBD-RS, Dr. Juliano Peruzzo,
ressaltou a presença crescente da inteligência artificial na Medicina e a
necessidade de atualização permanente dos profissionais.
“A inteligência artificial vem para nos auxiliar na
prática clínica, e o dermatologista precisa saber utilizá-la a seu favor, seja
na busca por artigos científicos, seja no acompanhamento e na comunicação com o
paciente. Fazia muitos anos que não recebíamos um evento da SBD nacional. É uma
honra reunir toda essa programação em Porto Alegre”, declarou.
Programação de sábado
A 33ª Jornada Sul-Brasileira de Dermatologia e a
51ª Jornada Gaúcha de Dermatologia seguem neste sábado (17/10), com debates
sobre avanços da medicina regenerativa, tratamentos para cicatrizes, uso de
lasers no melasma e cuidados estéticos após o emagrecimento rápido. Também
estão previstas discussões sobre a segurança de procedimentos em pacientes com
outras doenças, tendências coreanas de cuidados com a pele, medidas preventivas
antes do uso de medicamentos imunobiológicos, testes de contato e intervenções
nas unhas. O encerramento contará com a premiação dos trabalhos científicos
apresentados durante o evento.

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