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segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Hiperconectividade afeta o sono e pode comprometer a rotina de trabalho; 12% têm fadiga diurna, mostra estudo com mais de 60 mil brasileiros

Uso constante de telas, redes sociais e notificações pode prejudicar o descanso e repercutir na concentração, no humor e no desempenho durante o dia


Estar conectado se tornou parte da rotina. O celular acompanha as pessoas ao longo do dia, as redes sociais ocupam momentos de pausa e notificações interrompem atividades. Essa hiperconectividade, porém, pode ter um efeito que vai muito além do tempo passado diante das telas: ela também pode afetar o sono e, consequentemente, a forma como as pessoas funcionam no dia seguinte, inclusive no trabalho, alerta a Associação Brasileira de Qualidade de Vida (ABQV).

Dados do estudo ELSA-Brasil ajudam a dimensionar esse cenário. Entre 2.064 participantes avaliados por actigrafia e avaliação clínica, 27,2% apresentaram duração média de sono inferior a seis horas. Nesse grupo, houve 45% maior chance de sonolência diurna excessiva.

“A sonolência diurna não deve ser tratada apenas como desconforto ou cansaço. Ela pode reduzir a atenção sustentada, aumentar o tempo de reação e comprometer a tomada de decisão. Em atividades que envolvem condução de veículos, máquinas, trabalho em altura ou outras tarefas críticas, isso também pode representar um fator relevante para a segurança no trabalho”, alerta Ana Carolina Peuker, psicóloga e diretora de Mercado e Expansão da Associação Brasileira de Qualidade de Vida (ABQV).
 

Uma conexão que não termina quando o dia acaba 

A influência da hiperconectividade sobre o sono não acontece de uma única maneira. O uso de dispositivos pode simplesmente ocupar o tempo que seria destinado ao descanso. Ao mesmo tempo, conteúdos, jogos, redes sociais, mensagens e notificações podem manter a pessoa cognitivamente e emocionalmente estimulada justamente no período em que deveria começar a desacelerar. A exposição à luz durante a noite também pode interferir nos sinais biológicos que organizam o ciclo sono-vigília. Por isso, não é apenas a quantidade de tempo diante da tela que importa, mas também o horário e a forma como os dispositivos são utilizados. Um estudo realizado com dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) brasileira, cuja base foi composta por 60.202 adultos, mostrou que 14% das pessoas possuem distúrbios do sono e aproximadamente 12% apresentam fadiga diurna. Entre 5% e 8% possuem ambos os sintomas.
 

O impacto da noite pode aparecer durante o dia

É durante o dia, portanto, que parte da conta da hiperconectividade pode aparecer. A pessoa dorme menos, acorda cansada e precisa lidar com uma rotina que exige concentração, tomada de decisões, interação com outras pessoas e capacidade de responder a diferentes demandas.

“No trabalho, sono insuficiente e fadiga podem repercutir em processos cognitivos essenciais, como concentração, memória, regulação emocional e capacidade de lidar com situações complexas. Quando isso se torna recorrente, deixa de ser apenas uma questão de bem-estar individual e passa a exigir atenção também sob a perspectiva da organização do trabalho, da saúde e da prevenção de riscos”, destaca Ana Carolina Peuker.
 

Uma questão individual e também organizacional

Cuidar do sono é uma responsabilidade individual, mas a discussão também pode ser ampliada para os ambientes e as relações de trabalho. Se a conectividade faz parte da forma como as pessoas trabalham, estratégias de promoção da saúde precisam considerar também os períodos de descanso e desconexão.

Isso pode envolver desde hábitos individuais, como estabelecer limites para o uso de dispositivos à noite, até práticas organizacionais que respeitem os períodos de descanso e evitem transformar a disponibilidade permanente em expectativa cotidiana. 

“A tecnologia pode ampliar produtividade, flexibilidade e acesso, mas precisa vir acompanhada de limites claros. Uma cultura em que mensagens fora do horário, respostas imediatas e disponibilidade contínua se tornam regra pode dificultar a recuperação necessária entre uma jornada e outra. Organizações maduras precisam olhar para a hiperconectividade também como uma dimensão da gestão do trabalho e criar condições reais para que os períodos de descanso sejam respeitados”, completa Ana Carolina Peuker.


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