A adoção de ferramentas digitais abre uma discussão sobre produtividade e carga de trabalho; quando o tempo poupado se transforma apenas em novas demandas, as empresas precisam rever metas, dimensionamento das equipes e expectativas de disponibilidade.
Um relatório que exigia horas ganha uma
primeira versão em minutos. Reuniões passam a ter resumos automáticos, e
tarefas repetitivas podem ser realizadas com menos etapas. A inteligência
artificial oferece possibilidades de economizar tempo, mas o resultado para
quem trabalha depende também de uma decisão de gestão: como a empresa utiliza a
capacidade que foi liberada?
Pesquisas já identificam ganhos de
produtividade em atividades específicas. Um estudo divulgado pelo National
Bureau of Economic Research, com mais de cinco mil profissionais de atendimento
ao cliente, encontrou aumento médio de aproximadamente 14% no número de
problemas resolvidos por hora com o apoio de uma ferramenta de inteligência
artificial. O resultado se refere àquele contexto e não representa uma estimativa
aplicável a qualquer função.
Para a psicóloga Renata Livramento, doutora
em Administração e especialista em Gestão de Saúde Corporativa, a discussão
precisa acompanhar o que acontece depois da adoção dessas ferramentas.
“Economizar tempo em uma tarefa pode abrir espaço para melhorar a qualidade,
aprender e reorganizar o trabalho. Mas, se toda economia vira imediatamente uma
nova cobrança, o profissional pode continuar sobrecarregado, mesmo produzindo
mais”, explica.
Produzir mais exige rever o trabalho
inteiro
A redução do tempo de uma etapa não
significa que todas as demais ficaram mais rápidas. Um texto produzido com
apoio da ferramenta ainda pode exigir conferência, ajustes e aprovação. Uma
análise automatizada precisa ser interpretada, e decisões continuam dependendo
de contexto e responsabilidade.
Por isso, estabelecer novas metas exige
observar o processo completo. Medir apenas a velocidade da primeira entrega
pode deixar de fora o tempo de revisão e o trabalho necessário para corrigir
erros. Também é importante verificar se o ganho aparece de maneira consistente
nas diferentes tarefas da equipe.
“Antes de aumentar a meta, a liderança
precisa entender onde houve economia e quais exigências permanecem. A
ferramenta pode acelerar uma parte do processo sem reduzir, na mesma proporção,
o esforço necessário para entregar um resultado confiável”, afirma Renata.
O dimensionamento das equipes também
merece atenção. A expectativa de que a tecnologia absorva qualquer volume
adicional pode levar à concentração de responsabilidades e à falta de margem
para imprevistos. Capacitação, revisão de processos e acompanhamento dos
resultados precisam entrar no planejamento da mudança.
Mais rapidez não significa
disponibilidade permanente
Outro ponto é a expectativa sobre os
prazos. Quando uma ferramenta permite concluir determinadas tarefas mais
rapidamente, pode surgir a cobrança de que qualquer solicitação seja atendida
de imediato. Para Renata, cabe à gestão definir prioridades e limites,
inclusive para mensagens e demandas fora do expediente.
“A possibilidade de executar algo em
poucos minutos não significa que a pessoa esteja disponível naquele momento.
Ela pode estar concentrada em outra atividade ou fora do horário de trabalho. A
tecnologia não substitui a necessidade de combinar prazos e respeitar a
jornada”, ressalta a psicóloga.
O tempo poupado pode receber diferentes
destinos: reduzir pendências, aprofundar análises, melhorar o atendimento ou
criar espaço para capacitação. Esses objetivos devem ser explicitados e
acompanhados, para que a equipe compreenda o que se espera da ferramenta e como
seu uso será avaliado.
Na prática, a empresa pode observar a
qualidade das entregas, o retrabalho, as horas extras e a percepção de carga
dos profissionais, além do volume produzido. Ouvir quem utiliza a tecnologia
ajuda a identificar tarefas que ficaram mais simples e dificuldades que
surgiram durante a mudança.
Para Renata, o ganho precisa ser
avaliado também pelas condições em que o trabalho acontece. “A pergunta é o que
melhorou depois que a ferramenta entrou na rotina. Se a equipe entrega mais,
mas continua sem tempo para revisar, aprender ou encerrar a jornada, é
necessário rever como esse ganho está sendo administrado”, conclui.
renatalivramento.com.br
@renata.livramento
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