Pesquisar no Blog

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

A inteligência artificial economiza tempo. Quem fica com esse ganho?

A adoção de ferramentas digitais abre uma discussão sobre produtividade e carga de trabalho; quando o tempo poupado se transforma apenas em novas demandas, as empresas precisam rever metas, dimensionamento das equipes e expectativas de disponibilidade.

 

Um relatório que exigia horas ganha uma primeira versão em minutos. Reuniões passam a ter resumos automáticos, e tarefas repetitivas podem ser realizadas com menos etapas. A inteligência artificial oferece possibilidades de economizar tempo, mas o resultado para quem trabalha depende também de uma decisão de gestão: como a empresa utiliza a capacidade que foi liberada?

Pesquisas já identificam ganhos de produtividade em atividades específicas. Um estudo divulgado pelo National Bureau of Economic Research, com mais de cinco mil profissionais de atendimento ao cliente, encontrou aumento médio de aproximadamente 14% no número de problemas resolvidos por hora com o apoio de uma ferramenta de inteligência artificial. O resultado se refere àquele contexto e não representa uma estimativa aplicável a qualquer função.

Para a psicóloga Renata Livramento, doutora em Administração e especialista em Gestão de Saúde Corporativa, a discussão precisa acompanhar o que acontece depois da adoção dessas ferramentas. “Economizar tempo em uma tarefa pode abrir espaço para melhorar a qualidade, aprender e reorganizar o trabalho. Mas, se toda economia vira imediatamente uma nova cobrança, o profissional pode continuar sobrecarregado, mesmo produzindo mais”, explica.


Produzir mais exige rever o trabalho inteiro

A redução do tempo de uma etapa não significa que todas as demais ficaram mais rápidas. Um texto produzido com apoio da ferramenta ainda pode exigir conferência, ajustes e aprovação. Uma análise automatizada precisa ser interpretada, e decisões continuam dependendo de contexto e responsabilidade.

Por isso, estabelecer novas metas exige observar o processo completo. Medir apenas a velocidade da primeira entrega pode deixar de fora o tempo de revisão e o trabalho necessário para corrigir erros. Também é importante verificar se o ganho aparece de maneira consistente nas diferentes tarefas da equipe.

“Antes de aumentar a meta, a liderança precisa entender onde houve economia e quais exigências permanecem. A ferramenta pode acelerar uma parte do processo sem reduzir, na mesma proporção, o esforço necessário para entregar um resultado confiável”, afirma Renata.

O dimensionamento das equipes também merece atenção. A expectativa de que a tecnologia absorva qualquer volume adicional pode levar à concentração de responsabilidades e à falta de margem para imprevistos. Capacitação, revisão de processos e acompanhamento dos resultados precisam entrar no planejamento da mudança.


Mais rapidez não significa disponibilidade permanente

Outro ponto é a expectativa sobre os prazos. Quando uma ferramenta permite concluir determinadas tarefas mais rapidamente, pode surgir a cobrança de que qualquer solicitação seja atendida de imediato. Para Renata, cabe à gestão definir prioridades e limites, inclusive para mensagens e demandas fora do expediente.

“A possibilidade de executar algo em poucos minutos não significa que a pessoa esteja disponível naquele momento. Ela pode estar concentrada em outra atividade ou fora do horário de trabalho. A tecnologia não substitui a necessidade de combinar prazos e respeitar a jornada”, ressalta a psicóloga.

O tempo poupado pode receber diferentes destinos: reduzir pendências, aprofundar análises, melhorar o atendimento ou criar espaço para capacitação. Esses objetivos devem ser explicitados e acompanhados, para que a equipe compreenda o que se espera da ferramenta e como seu uso será avaliado.

Na prática, a empresa pode observar a qualidade das entregas, o retrabalho, as horas extras e a percepção de carga dos profissionais, além do volume produzido. Ouvir quem utiliza a tecnologia ajuda a identificar tarefas que ficaram mais simples e dificuldades que surgiram durante a mudança.

Para Renata, o ganho precisa ser avaliado também pelas condições em que o trabalho acontece. “A pergunta é o que melhorou depois que a ferramenta entrou na rotina. Se a equipe entrega mais, mas continua sem tempo para revisar, aprender ou encerrar a jornada, é necessário rever como esse ganho está sendo administrado”, conclui.

 

Fonte:

Renata Livramento — psicóloga, doutora em Administração e especialista em Gestão de Saúde Corporativa.
renatalivramento.com.br
@renata.livramento


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Posts mais acessados