Pesquisar no Blog

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Como escolher e formar conselheiros para construir o futuro das empresas


Integrar um conselho de administração é muito mais do que ocupar uma cadeira.

A contribuição de um conselheiro começa antes de sua nomeação, com uma escolha orientada pelas necessidades estratégicas da organização, e se consolida ao longo do mandato, por meio da capacidade de questionar, ouvir, aprender e participar das decisões que definirão o futuro do negócio. 

O primeiro equívoco a evitar é selecionar conselheiros apenas pela reputação, pelo currículo ou pela rede de relacionamentos. A pergunta central não deve ser quem está disponível ou é conhecido no mercado, mas quais competências a empresa precisa reunir para enfrentar seus desafios. Isso exige compreender a estratégia, o estágio de maturidade da governança, os riscos do negócio e as transformações que podem alterar seu ambiente competitivo. 

Uma boa matriz de competências ajuda a tornar essa escolha mais objetiva e transparente. Experiência empresarial, conhecimento financeiro, domínio de temas regulatórios, visão estratégica e familiaridade com inovação são atributos relevantes, mas não suficientes. Integridade, independência de julgamento, capacidade de escuta, disposição para aprender e habilidade para influenciar sem exercer autoridade executiva são igualmente importantes. 

Diversidade de experiências, formações e perspectivas também precisa fazer parte desse processo. Conselhos compostos por pessoas com trajetórias semelhantes correm maior risco de reproduzir certezas e deixar de perceber alternativas. A pluralidade amplia o campo de análise, desde que acompanhada de um ambiente no qual as diferenças possam ser expressas e debatidas com respeito. Afinidade cultural não pode significar concordância permanente: o bom conselheiro precisa ter liberdade para questionar decisões e confrontar ideias, sempre com o propósito de proteger os interesses da organização. 

Essa preocupação deve ser ainda maior nas empresas familiares, nas quais vínculos pessoais e profissionais frequentemente se sobrepõem. Parentesco não equivale a competência, assim como experiência executiva não garante, por si só, aptidão para atuar em um conselho. Selecionar conselheiros é também uma decisão de continuidade e sucessão, que deve considerar as competências necessárias hoje e aquelas que serão indispensáveis amanhã. 

Entretanto, escolher bem é apenas o começo. A nomeação não transforma automaticamente um profissional experiente em um conselheiro efetivo. A contribuição depende de uma integração bem-estruturada, de informações adequadas sobre o negócio e de clareza quanto ao papel, às responsabilidades e às expectativas relacionadas ao mandato. 

Essa integração é uma responsabilidade compartilhada. O presidente do conselho deve criar condições para que todos participem, acolhendo perspectivas diferentes e evitando que a influência de alguns integrantes silencie os demais. A organização, por sua vez, precisa assegurar acesso às informações relevantes, diálogo respeitoso e condições para o exercício independente das atribuições. Ao novo conselheiro cabe conhecer a cultura, a estratégia, os riscos e a dinâmica de funcionamento da empresa, sem abrir mão do olhar crítico que justifica sua presença. 

A independência, aliás, não se resume à ausência formal de conflitos de interesse. É também uma postura cotidiana: ter coragem para fazer perguntas difíceis, rever posições diante de novos fatos e discordar quando necessário. Da mesma forma, contribuir não significa falar mais ou demonstrar conhecimento a todo momento, mas formular as perguntas certas, conectar diferentes perspectivas e ajudar o grupo a tomar decisões melhores. 

Esse trabalho exige atualização permanente. Mudanças tecnológicas, inteligência artificial, novos riscos e transformações sociais e econômicas desafiam continuamente o repertório dos conselheiros. Buscar conhecimento, ouvir feedbacks e avaliar honestamente a própria contribuição são atitudes indispensáveis para quem pretende continuar relevante. A experiência acumulada tem valor, mas não substitui a disposição para aprender. 

Também é necessário compreender que um mandato não constitui um direito adquirido. A permanência deve fazer sentido para a organização e para o próprio conselheiro. Quando a contribuição deixa de ser efetiva, as competências já não correspondem às necessidades do negócio ou a independência fica comprometida, reconhecer a necessidade de mudança, inclusive de saída, é uma demonstração de maturidade. 

Cabe considerar que a qualidade de um conselho não se mede apenas pelos nomes que o compõem, mas pela capacidade de transformar conhecimentos diversos em decisões consistentes. Escolher com critério, integrar com responsabilidade e cultivar a independência são etapas de um mesmo processo. É assim que a presença se expressa na participação consistente e na contribuição efetiva, tornando o colegiado um espaço capaz de preparar a organização para um futuro ainda desconhecido. 


Marcia Amorim - conselheira de administração Certificada pelo IBGC, Presidente do Conselho Consultivo do Grupo São Vicente – Rede Supermercadista do Estado de São Paulo, Coach de Executivos credenciada pela International Coaching Federation (ICF), Consultora Associada à Lee Hecht Harrison Consultoria – Grupo Adecco e associada da Women Corporate Directors (WCD Brasil)


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Posts mais acessados