Dra. Aline Coelho Gonçalves, oncologista especializada em câncer de mama, explica como o monitoramento do DNA tumoral circulante (ctDNA) identifica mutações associadas à resistência à terapia endócrina e reduziu em 55% o risco de progressão em estudo internacional
E
se fosse possível saber que um tumor está ficando resistente ao tratamento
antes que ele cresça nos exames de imagem? É essa a promessa de uma das frentes
mais discutidas da oncologia de precisão com o monitoramento do DNA tumoral
circulante, o ctDNA.
O ctDNA são pequenos fragmentos de material genético liberados
pelas células do tumor na corrente sanguínea. No câncer de mama avançado, sua
análise vem sendo estudada como forma de identificar mecanismos de resistência
antes da progressão radiológica.
“Durante muito tempo, nossa principal referência para acompanhar a
evolução da doença foi aquilo que conseguíamos enxergar. Agora começamos a ter
a possibilidade de observar também sinais da biologia do tumor antes que eles
produzam uma alteração visível na imagem. Isso muda a forma como pensamos o
acompanhamento da doença”, explica a Dra. Aline Coelho Gonçalves,
oncologista especializada em câncer de mama.
Um dos trabalhos que sustentam essa mudança é o SERENA-6,
conduzido com pacientes com câncer de mama metastático, receptor hormonal
positivo e HER2 negativo. A pesquisa acompanhou, periodicamente, o ctDNA em
busca de mutações no gene ESR1, associadas à resistência às terapias
endócrinas.
O achado central está no momento da descoberta em que a mutação
pôde ser identificada no sangue quando a paciente ainda estava clinicamente bem
e sem sinais de progressão nos exames de imagem. Nessas pacientes, a estratégia
de trocar a terapia endócrina avaliada no estudo resultou em redução
de 55% no risco de progressão da doença, em comparação com a manutenção do
tratamento padrão.
“A paciente pode estar bem, a imagem pode continuar estável e,
ainda assim, o tumor já estar desenvolvendo um mecanismo de resistência.
Conseguir identificar esse movimento antes de uma progressão visível abre uma
discussão muito importante sobre quando devemos agir”, afirma a oncologista.
Segundo a especialista, o ctDNA não vem para ocupar o lugar dos
exames de imagem, e sim para somar a eles. “A imagem mostra o que a doença já
provocou do ponto de vista anatômico. O ctDNA pode revelar pistas sobre o que
está acontecendo na biologia do tumor. Não se trata de escolher um ou outro,
mas de entender como essas informações podem se complementar”, revela a médica.
Aline também ressalta que encontrar uma alteração molecular não
significa, isoladamente, que todo o tratamento deva ser modificado. O desafio
agora é definir em quais situações o monitoramento deve ser usado, com que
frequência e quando uma informação molecular deve de fato levar a uma nova
decisão terapêutica.
“Tecnologia só faz sentido quando melhora decisão. Não basta detectar uma alteração cada vez mais cedo. Precisamos saber o que fazer com essa informação e demonstrar que agir a partir dela traz benefício real para a paciente”, afirma.
Para a oncologista, o movimento aponta para uma transformação maior: o acompanhamento deixa de olhar apenas onde a doença está e passa a buscar entender como ela se comporta. “Quanto mais entendemos a biologia do tumor ao longo do tratamento, maior é a possibilidade de individualizar nossas decisões. Estamos começando a enxergar sinais que antes só percebíamos depois que a doença já havia mudado. Essa talvez seja uma das grandes fronteiras da oncologia de precisão”, conclui
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