Educadores explicam a estrutura do exame, indicam os temas recorrentes e revelam estratégias para gabaritar o caderno de exatas
Única disciplina a ocupar um caderno inteiro com 45 questões no segundo domingo
do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), a prova de Matemática e suas
Tecnologias é uma das áreas que mais impactam a pontuação final dos candidatos.
Longe de exigir apenas fórmulas decoradas ou álgebra abstrata, o exame avalia o
raciocínio lógico, a capacidade de análise de dados e a aplicação de conceitos
matemáticos para resolver problemas práticos do cotidiano.
Segundo Jeferson Felipin, professor de Matemática do colégio Progresso Bilíngue de Indaiatuba (SP), o grande desafio da prova está na
interpretação. “A prova do Enem não busca aferir a matemática pura de sala de
aula. O exame avalia competências essenciais do cidadão moderno, como a leitura
crítica de gráficos, o planejamento financeiro, o cálculo de proporções e a tomada
de decisões com base em dados quantitativos. O estudante que aprende a traduzir
o problema em linguagem matemática sai na frente.”
De acordo com Renato Shiotuqui, professor de matemática do Brazilian
International School - BIS,
de São Paulo (SP), a leitura e o entendimento do enunciado são etapas decisivas
da resolução. “O Enem cobra muito mais que a habilidade de fazer contas. É
essencial interpretar a situação, entender o problema real apresentado e só depois
aplicar o conhecimento matemático. Muitas vezes, a dificuldade do candidato não
está no cálculo em si, mas em saber por onde começar a resolver a questão.”
Conteúdos de matemática mais recorrentes no Enem
Embora o exame varie suas abordagens a cada ano, determinados
tópicos formam a espinha dorsal da prova e aparecem de forma frequente nas
edições, como taxas de juros, consumo, escalas em mapas, probabilidade de
eventos e medidas de espaço.
Matheus Hisnauer, professor de matemática da Escola Internacional de Alphaville - EIA, de Barueri (SP), identificar a
relevância desses temas ajuda a organizar os estudos de forma estratégica. “A
regra de três, por exemplo, é uma ferramenta coringa na prova. Muitas vezes o
participante não se recorda da fórmula exata de um tópico, mas consegue
encontrar a resposta correta aplicando a lógica da proporcionalidade”, aponta.
O professor da EIA indica os conteúdos de matemática com maior
histórico de incidência na prova:
Razão, Proporção e Regra de Três: fundamentais para resolver problemas
de escala, porcentagem e grandezas direta ou inversamente proporcionais;
Porcentagem e Matemática Financeira: cálculos de descontos, aumentos
sucessivos, margem de lucro e juros simples/compostos em situações comerciais;
Estatística Básica: leitura de tabelas e análise de gráficos, acompanhada do
cálculo de média aritmética, mediana e moda;
Geometria Plana e Espacial: determinação de áreas, perímetros e
volumes de sólidos, aplicados a plantas de imóveis, embalagens e reservatórios;
Funções de 1º e 2º Graus (Afim e Quadrática): interpretação de gráficos de
crescimento, pontos de máximo/mínimo e variações ao longo do tempo;
Probabilidade e Análise Combinatória: análise de riscos, sorteios,
possibilidades de agrupamentos e contagem.
Dicas práticas e estratégias de estudo
Para garantir um desempenho de alto nível, a combinação de uma
rotina de estudos bem estruturada com o gerenciamento inteligente do tempo no
dia do exame faz toda a diferença. Segundo Cristine Tolizano, professora da Escola
Bilíngue Aubrick, de
São Paulo (SP), o segredo está em alinhar a preparação prévia com a execução
tática da prova.
“A matemática do Enem exige constante treino de aplicação prática.
Na reta final, o estudante deve focar na revisão ativa de conceitos
fundamentais e, durante a prova, atuar com frieza técnica para não perder pontos
em conteúdos que domina por conta do cansaço ou da gestão inadequada do tempo”.
A docente elenca um passo a passo com recomendações que vão da fase de
preparação até o momento da prova:
Crie mapas mentais de conceitos e fórmulas básicas: durante a rotina de estudos antes da
prova, organize esquemas visuais com as fórmulas mais cobradas (como áreas,
volumes, probabilidade, juros e equações) para facilitar a memorização e a
consulta rápida nas revisões;
Simule o tempo e as condições reais de prova: resolva exames de edições anteriores
cronometrando o tempo e sem o uso de calculadora, exercitando a agilidade nos
cálculos manuais e reduzindo a ansiedade para o dia do teste;
Grife dados e comandos centrais durante a leitura: ao encarar a questão na prova,
sublinhe os valores numéricos, as unidades de medida e, principalmente, a
pergunta final do enunciado, evitando erros por falta de atenção às pegadinhas
ou conversões;
Priorize as questões fáceis e médias no momento da execução: o Enem usa o modelo estatístico Teoria
de Resposta ao Item (TRI) para calcular a nota, avaliando o desempenho do aluno
com base no nível de dificuldade de cada questão e na coerência das suas
respostas. Desta forma, é penalizada a incoerência pedagógica: garanta primeiro
o acerto dos itens mais simples e intermediários para consolidar uma nota alta
antes de gastar tempo excessivo com as questões complexas.
O ENEM
O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) foi instituído em 1998 e
tornou-se a principal porta de entrada para a universidade no Brasil. A prova
permite o acesso a programas públicos educacionais como o Prouni (Programa
Universidade para Todos), Sisu (Sistema de Seleção Unificada) e Fies (Fundo de
Financiamento Estudantil); além de muitas universidades privadas, inclusive no
exterior, usarem os resultados do exame em substituição aos vestibulares
tradicionais.
O Enem é aplicado em dois domingos seguidos em locais de aplicação
por todos as regiões do território nacional. Em 2026, as provas acontecem em 8
e 15 de novembro. Foram registrados para esta edição 5.055.818 de inscritos,
alta de 5,08% em relação a 2025, e maior número de participantes confirmados
desde 2020.
No primeiro dia, os candidatos farão as provas de Linguagens,
Códigos e suas Tecnologias (45 questões de Língua Portuguesa, Literatura,
Língua Estrangeira/Inglês ou Espanhol, Artes e Educação Física), Ciências
Humanas e suas Tecnologias (45 questões de História, Geografia, Filosofia e
Sociologia) e a Redação. No segundo dia, é a vez das provas de Ciências da
Natureza e suas Tecnologias (45 questões de Biologia, Química e Física) e
Matemática e suas Tecnologias (45 questões de Matemática).
Podem participar do Enem pessoas que estejam cursando (como
“treineiros”), que já concluíram, ou que estejam concluindo o Ensino Médio. É
possível ainda usar o resultado do Enem para obter o certificado de conclusão
dos estudos, contanto que o participante tenha 18 anos completos na data da
primeira prova, e alcançar ao menos 450 pontos em cada área do conhecimento e
500 pontos na redação.
Cristine Tolizano - iniciou sua carreira docente há 21 anos e atua até hoje nos cursinhos preparatórios para os principais vestibulares do país, alicerce de sua trajetória como professora de Matemática, Estatística e Letramento Financeiro. Leciona também no Ensino Fundamental II, no Ensino Médio e no treinamento de alunos para olimpíadas de conhecimento. É graduada em Matemática Aplicada, Estatística e Física (IME-USP e UNIMES), atuou como colaboradora em projetos de pesquisa na FE-USP (Etnomatemática) e no IPEN-USP (Estatística e Consultoria Ambiental).
Jeferson Gamaliel Felipin - graduado em Matemática na USP, com pós-graduação pela Unicamp. Atualmente, é mestrando em Educação Matemática pela Unesp. Professor de Matemática do Progresso Bilíngue Indaiatuba, do Ensino Médio brasileiro e currículo IB.
Matheus Hisnauer - licenciado em Matemática pela Universidade de São Paulo (USP) e atua como professor de Matemática e Convivência Ética. É também o líder do Núcleo de Estudos Olímpicos da Escola Internacional de Alphaville, setor responsável pela preparação e participação dos alunos em olimpíadas científicas. Ao longo de sua trajetória, liderou conquistas que somam mais de 1.100 medalhas em 95 competições, engajando estudantes desde o 3º ano do Ensino Fundamental I até a 3ª série do Ensino Médio.
Renato Shiotuqui - licenciado em matemática pela Faculdade de Guarulhos. Atua como professor de física e matemática, acumulando mais de 29 anos de experiência lecionando em escolas da rede privada e cursos pré-vestibulares.

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