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terça-feira, 20 de outubro de 2026

A balança pode estar mentindo sobre o sucesso do emagrecimento

Estudo reforça que perda de peso rápida com as novas canetas de incretina pode custar músculo — e isso muda o critério de "sucesso" no tratamento da obesidade

 

Perder 15, 20 ou até 30 quilos com o uso das novas canetas de incretina (GLP-1 e GLP-1/GIP) tornou-se uma realidade cada vez mais comum nos consultórios brasileiros. Mas, segundo a médica Dra. Ana Luísa Vilela, especialista em cirurgia geral e bariátrica, endocrinologia e nutrologia, com mais de 20 anos de atuação clínica, o número que desce no visor da balança não conta a história completa — e pode, inclusive, mascarar um problema silencioso: a perda de massa magra.

Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2026 no periódico Diabetes, Obesity and Metabolism comparou as mudanças de massa magra em terapias baseadas em incretinas com intervenções intensivas de estilo de vida. O levantamento reforça uma preocupação que cresce na mesma proporção da potência desses novos medicamentos: quanto maior a perda de peso, maior a necessidade de monitorar o que, de fato, está sendo perdido — gordura, músculo, ou ambos.

"A medicina precisa parar de comemorar apenas o número que caiu na balança. Um paciente pode estar mais leve e, ao mesmo tempo, ter perdido uma reserva metabólica fundamental: músculo", afirma a Dra. Ana Luísa Vilela.

Por que isso importa

Para a médica, que constrói sua atuação a partir da interpretação metabólica e da compreensão integrada do corpo, o músculo não é apenas um tecido estético — é um órgão metabolicamente ativo, responsável por parte importante do gasto energético, da sensibilidade à insulina e da força funcional do paciente ao longo da vida.

"Quando avaliamos apenas o peso, corremos o risco de aplaudir um resultado que, na composição corporal, é frágil. Um paciente pode emagrecer e, meses depois, apresentar cansaço, perda de força e uma sensação de que 'algo não fecha' — mesmo com exames considerados normais. Muitas vezes, a resposta está exatamente nessa massa magra que se perdeu pelo caminho e que ninguém mediu", explica.

A especialista defende que composição corporal, força muscular e preservação de massa magra sejam tratados como desfechos clínicos tão relevantes quanto o número na balança — especialmente em um cenário em que as perdas de peso proporcionadas pelos novos tratamentos são cada vez mais expressivas.

O olhar da Dra. Ana Luísa Vilela

Com passagem por instituições como o Hospital das Clínicas da USP (HC-USP), o Instituto Garrido e a Beneficência Portuguesa de São Paulo, a Dra. Ana Luísa Vilela dedica sua prática atual a pacientes com sintomas persistentes — cansaço, alterações intestinais, ganho de peso, perda de força — mesmo quando os exames de rotina não indicam nenhuma alteração.

É autora do livro Renascimento Metabólico, no qual propõe uma forma de entender a saúde a partir do funcionamento do organismo, e não apenas da ausência ou presença de doença. Sua atuação representa uma medicina mais profunda, centrada na escuta, na ciência e na individualização do cuidado — princípios que, segundo ela, devem orientar também a forma como se acompanha o emagrecimento na era das canetas de incretina.

"Emagrecer bem não é apenas emagrecer rápido. É preciso perguntar: o que sobrou de músculo, de força, de metabolismo funcionando? Essa é a pergunta que toda equipe médica deveria fazer antes de declarar um tratamento como um sucesso", conclui a médica.

 

 

Dra. Ana Luísa Vilela - Médica com formação em cirurgia geral e bariátrica, endocrinologia e nutrologia, com mais de 20 anos de atuação clínica. Passou por instituições como o Hospital das Clínicas da USP (HC-USP), o Instituto Garrido e a Beneficência Portuguesa de São Paulo. Autora do livro Renascimento Metabólico, dedica-se ao estudo do metabolismo e à interpretação integrada do organismo, atendendo pacientes com sintomas persistentes mesmo diante de exames considerados normais.

 

Fonte científica Eisa N, Barood O. Lean Mass Changes With Incretin Therapy Versus Lifestyle Intervention: A Systematic Review and Meta-Analysis of Randomised Controlled Trials. Diabetes, Obesity and Metabolism. 2026;28(6):4818–4827. DOI: 10.1111/dom.70666. PMID: 41877354. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41877354/

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