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domingo, 15 de fevereiro de 2026

Como cães treinados evitam tragédias maiores em casos de terrorismo

 

Quando se fala em terrorismo, a imagem mais comum é a da resposta. Sirenes, isolamento, equipes armadas, explosões controladas. O que quase nunca aparece é o que acontece antes. E é justamente nesse antes que muitas tragédias deixam de acontecer.

Atuo há mais de duas décadas na área de detecção de explosivos com cães. Nesse tempo, aprendi que o papel mais importante da segurança não é reagir a um ataque, mas impedir que ele chegue a existir. Cães treinados operam exatamente nesse espaço silencioso entre a ameaça e o dano.

Em contextos de terrorismo, o tempo é um fator crítico. Quanto mais cedo um risco é identificado, maiores são as chances de neutralizar sem vítimas. O cão de detecção atua nesse ponto inicial. Ele não confirma intenções, não julga cenários e não reage ao medo. Ele identifica um odor específico e responde de forma previsível. Essa previsibilidade salva-vidas.

Existe uma percepção equivocada de que o cão age por instinto. Na realidade, o que é visto como habilidade natural é resultado de método. O treinamento transforma o instinto em comportamento controlado. O cão aprende a reconhecer um conjunto específico de partículas químicas e a sinalizar de maneira passiva, sem tocar, sem excitação, sem ruído. Em explosivos, silêncio e controle são tão importantes quanto a detecção em si.

Em situações de terrorismo, essa precisão faz toda a diferença. Um artefato pode estar em uma mochila, em uma sacola abandonada ou integrado a um ambiente aparentemente comum. O cão não precisa de pistas visuais. Ele não depende de imagens ou interpretações. Ele trabalha com o que não é visível ao ser humano. E faz isso de forma consistente, desde que o treinamento seja rigoroso e constantemente validado.

Outro aspecto pouco discutido é o impacto da prevenção no comportamento coletivo. Quando um ataque é evitado antes de se concretizar, não há pânico, não há interrupção da vida urbana e não há trauma coletivo. A cidade continua funcionando. O transporte segue operando. Eventos acontecem. Essa normalidade é o maior indicador de que a segurança funcionou.

Também é importante entender que cães treinados não atuam sozinhos. Eles fazem parte de um sistema. Um sistema que envolve planejamento, protocolos claros e tomada de decisão baseada em evidência. O cão sinaliza. A partir dali outras etapas entram em ação. Quanto mais cedo esse processo começa, menor é o risco para todos os envolvidos.

Em períodos de alerta elevado, como os vividos por diversas cidades europeias nos últimos anos, a presença de equipes de detecção canina ajudou a reduzir o número de intervenções emergenciais e a evitar escaladas desnecessárias de tensão. Muitas vezes, o simples fato de confirmar rapidamente que não há um artefato permite liberar um espaço e evitar reações em cadeia que poderiam gerar acidentes ou confrontos.

Esse trabalho de detecção não tem caráter heroico. Ele exige disciplina, repetição e responsabilidade. O erro não é uma opção aceitável. Por isso, a validação constante é parte essencial do processo. É preciso provar, repetidamente, que o animal mantém o mesmo nível de desempenho em ambientes diferentes e sob pressão real.

Quando uma tragédia acontece, ela ocupa manchetes. Quando uma tragédia é evitada, quase ninguém percebe. Mas é nesse silêncio que mora o verdadeiro valor do trabalho preventivo. Cães treinados evitam tragédias maiores não porque são extraordinários, mas porque operam com método em um sistema que prioriza a vida antes do espetáculo.


Sebastien Florens - especialista internacional em detecção de explosivos com cães, com mais de 25 anos de experiência em segurança preventiva. De origem francesa, atuou em empresas privadas homologadas pelo Estado em ambientes de alta complexidade na Europa. Hoje, dedica-se à formação de cães de trabalho e à transmissão de conhecimento técnico, com foco em precisão, controle e validação contínua.

 

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