Doença é causada por uma inflamação nas estruturas
responsáveis pelo movimento de dobrar os dedos das mãos
Você já sentiu o dedo
“prender” ao dobrar, como se estivesse acionando um gatilho? Essa sensação é
bem típica da tenossinovite estenosante dos flexores, popularmente chamada de
“dedo em gatilho”.
Segundo estimativas, o dedo em gatilho pode afetar até 2% da população em
geral, mas a prevalência costuma ser maior em pessoas com diabetes. Nessa
população, por exemplo, até 10% dos pacientes podem desenvolver esse tipo de
tenossinovite. Para além do diabetes, o dedo em gatilho é mais comum em
mulheres após os 40 anos.
Entenda melhor o dedo em gatilho
Segundo a fisioterapeuta Walkíria Brunetti, especialista em Dores Crônicas, Saúde
Postural, RPG e Pilates, a tenossinovite estenosante é uma
inflamação que afeta a bainha sinovial dos tendões flexores — estruturas
responsáveis por dobrar os dedos.
“De forma simples, podemos
imaginar o tendão como um “elástico” que liga os músculos do antebraço aos
ossos dos dedos. Para que o movimento aconteça de maneira suave, esses tendões
passam por um “túnel” na palma da mão, chamado bainha do tendão. Ao longo desse
trajeto existem estruturas chamadas polias, responsáveis por manter o tendão
próximo ao osso”, explica Walkíria.
“Quando ocorre uma inflamação, essa bainha se torna mais espessa e estreita,
dificultando o deslizamento do tendão. Com o tempo, pode surgir um pequeno
nódulo, o que piora o bloqueio mecânico. O resultado é o clássico estalo — e,
em casos mais avançados, o dedo pode, literalmente, travar ao ser flexionado”,
complementa a especialista.
Sinais e sintomas do dedo em gatilho
Nos estágios iniciais, a pessoa pode sentir:
- Dor na base do dedo;
- Inchaço local;
- Rigidez matinal;
- Sensação de travamento ao dobrar e esticar o dedo afetado.
“Em geral, os dedos polegar,
médio e o anelar são os mais atingidos por esse tipo de tenossinovite. Há casos
mais severos em que o dedo pode até mesmo ficar preso em flexão. Com isso, o
paciente vai precisar ajudar com a outra mão para conseguir esticá-lo”,
adiciona Walkíria.
Fatores de risco do dedo em gatilho
Embora qualquer pessoa possa desenvolver o dedo em gatilho, há fatores que
aumentam o risco, como:
- Diabetes (risco até 5 vezes maior);
- Artrite reumatoide;
- Doenças metabólicas e genéticas, como mucopolissacaridoses;
- Idade acima de 40 anos;
- Movimentos repetitivos das mãos.
Digitação pode causar dedo em gatilho?
Embora o uso excessivo do computador e do celular esteja frequentemente associado
às Lesões por Esforços Repetitivos (LER), a literatura científica ainda debate
o quanto a digitação isoladamente é responsável pelo problema.
“O que sabemos é que atividades que exigem movimentos repetitivos e força de
preensão constante aumentam o estresse mecânico sobre os tendões. Portanto,
esses movimentos podem contribuir para um quadro de dedo em gatilho —
especialmente quando há fatores predisponentes, como diabetes ou alterações
inflamatórias prévias”, alerta Walkíria.
Como funciona o tratamento do dedo em gatilho
Na maioria dos casos, o tratamento do dedo em gatilho é conservador. Entre as
abordagens terapêuticas estão medicamentos, fisioterapia e órteses. Em casos
mais avançados ou que não respondem ao tratamento conservador, há o tratamento
com infiltração de corticoide e, por fim, a cirurgia.
“No tratamento fisioterapêutico do dedo em gatilho, o objetivo é reduzir a
inflamação, melhorar o deslizamento do tendão e evitar a progressão para
bloqueio mecânico. A escolha dos recursos depende da fase da doença
(inflamatória inicial ou com nódulo e travamento)”, comenta Walkíria.
“Em geral, usamos ultrassom, laser de baixa intensidade (ILIB), termoterapia,
terapia manual com movimentos que podem ajudar a melhorar o deslizamento do
tensão. Também é importante trabalhar no alongamento e no fortalecimento dos
músculos das mãos, punhos e braços”, reforça a fisioterapeuta.
Talas podem melhorar sintomas em até 65% dos casos leves a moderados
Primeiramente é crucial alertar a população sobre as órteses, popularmente
conhecidas como “talas”. Embora sejam vendidas em farmácias e outros comércios,
é preciso ter muito cuidado e evitar usá-las sem orientação de um
fisioterapeuta ou médico.
“Na verdade, as órteses para tratar o dedo em gatilho devem ser personalizadas
e usadas sob supervisão do fisioterapeuta. O ideal é imobilizar apenas o dedo
afetado, mantendo os demais funcionais. Isso permite que o paciente continue
suas atividades com menor dor. Portanto, é importante entender que as talas
prontas, vendidas em farmácias, nem sempre respeitam a anatomia individual e
podem até piorar o quadro”, reforça Walkíria.
Cirurgia pode ser necessária
Quando o tratamento conservador não leva à melhora do quadro e o dedo permanece
travado, de forma persistente, a liberação cirúrgica da polia pode ser
indicada. O procedimento é simples, realizado com anestesia local e apresenta
alta taxa de sucesso, superior a 90% na maioria dos estudos.
Conclusão
“O dedo em gatilho pode ser uma condição bastante dolorida e incapacitante.
Sendo assim, a recomendação é ficar atento aos sintomas iniciais, como dor na
base do dedo e sensação de estalo. Quanto mais cedo o tratamento é iniciado,
menor é o risco de precisar de tratamentos mais invasivos”, finaliza Walkíria.
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