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Inventar amigos
invisíveis, dizer “não” para tudo, jogar objetos e brinquedos, brincar de luta
ou passar por fases de ciúme intenso. Embora muitos desses comportamentos
causem estranhamento e até constrangimento nos adultos, eles são, na maioria
das vezes, manifestações esperadas do desenvolvimento infantil. Os adultos
devem ficar atentos a essas atitudes, mas a preocupação exagerada ou a
repressão rígida podem gerar vergonha, culpa e insegurança nas crianças.
“A infância é um período de descobertas
intensas, em que a criança experimenta o mundo com o corpo, com a imaginação e
com as emoções. Muitos comportamentos que parecem inadequados aos olhos dos responsáveis
são sinais de que o desenvolvimento está acontecendo de forma natural”, afirma
Jacqueline Cappellano, psicopedagoga e coordenadora da Educação Infantil da Escola Internacional de Alphaville - EIA, de Barueri (SP).
“O papel da família é orientar com acolhimento, estabelecer limites com clareza
e evitar constrangimentos desnecessários.”
A seguir, a especialista explica
comportamentos comuns em diferentes fases da infância, por que ocorrem e como
os responsáveis podem lidar com cada situação de forma positiva.
PRIMEIRÍSSIMA INFÂNCIA (0 A 3 ANOS)
A primeiríssima infância é marcada por
intenso desenvolvimento cerebral e pela descoberta do mundo por meio do corpo e
dos sentidos. Nessa etapa, a criança aprende principalmente pela exploração:
toca, leva objetos à boca, joga no chão, experimenta texturas e testa reações.
É também o período em que se consolidam os vínculos de apego e surgem as
primeiras tentativas de autonomia, como andar, falar e dizer “não”. As emoções
são vividas de forma intensa e ainda sem autorregulação, o que explica birras,
medos e mudanças rápidas de humor. Trata-se de uma fase em que o acolhimento, a
rotina e a segurança emocional são fundamentais para o desenvolvimento saudável.
Morder ou bater: antes de dominar
a linguagem, a criança usa o corpo para expressar frustração, raiva ou desejo.
É comum os pais se alterarem e tratarem a questão como agressividade;
entretanto, é preciso olhar para esta questão do ponto de vista do
desenvolvimento infantil, e não do adulto que julga. As crianças ainda não têm
o desenvolvimento cognitivo necessário para conter os impulsos e, por isso,
recorrem a recursos corporais que acabam predominando nesta fase.
“A mordida não é sinal de agressividade
estruturada, mas de imaturidade emocional. A criança ainda não sabe comunicar o
que sente de outra forma”, afirma a educadora. “Interrompa com firmeza, nomeie
o sentimento e ensine alternativas de expressão, sem rotular a criança como
agressiva ou até mesmo tirá-la do convívio dos demais.”
Birras intensas: fazem parte do
processo de construção da autonomia e da identidade, já que a criança começa a
perceber que pode querer algo diferente do adulto, mas ainda não sabe lidar com
frustrações. “O ‘não’ frequente indica que a criança está se afirmando como
indivíduo”, diz Jacqueline. “Valide o sentimento, mas sustente o limite com
serenidade e coerência.”
É importante que o adulto esteja por perto e
verbalize sua presença como recurso para a criança. Caso ela se sinta
abandonada na situação, a tendência é que seu comportamento se intensifique e
se agrave. Neste caso, o ideal é se abaixar e dizer a ele(a): “Entendo que você
está nervoso(a), mas precisa se acalmar; ficarei aqui para te ajudar e para podermos
continuar nosso passeio/brincadeira”.
Jogar objetos no chão repetidamente: é um
comportamento normal porque o bebê está experimentando causa e efeito (“se eu
solto, cai”), além de explorar gravidade, som e reação do adulto. “O bebê
descobre que suas ações provocam respostas no ambiente e nas pessoas”, explica
Jacqueline. “Transforme o comportamento em jogo (‘Caiu! Vamos pegar?’), mas vá
introduzindo limites com constância, sem transformar a situação em uma disputa
de poder”, orienta a educadora.
Dizer ‘não’ para tudo: é esperado porque
a criança está exercitando autonomia e percebendo que tem vontade própria. “O
‘não’ é um marco importante do desenvolvimento da identidade. Ofereça escolhas
limitadas, como duas opções de roupa ou alimento, para que ela exerça a escolha
e a autonomia com segurança.”
Medo intenso de estranhos ou
dificuldade na separação: ocorre porque o vínculo de apego está
consolidado e a criança começa a diferenciar pessoas conhecidas e
desconhecidas. “Esse medo é sinal de que o apego está saudável”, explica.
“Evite forçar contato físico e respeite o tempo da criança, transmitindo segurança
com sua própria postura.”
Nunca obrigue a criança a beijar ou abraçar
um desconhecido; isto gera desconforto. Ensine-a a cumprimentar dizendo 'bom
dia', 'boa tarde' e 'obrigado'; assim, ela aprende regras respeitosas de
convivência, com limites.
Regressões temporárias: voltar a fazer
xixi na roupa ou pedir colo após já ter conquistado certa independência é uma
reação que pode surgir diante de marcos importantes, como uma mudança de casa
ou da rotina da família. “Regressão não significa retrocesso definitivo, mas um
pedido de acolhimento diante de inseguranças”, afirma a especialista. “Ofereça
estabilidade na rotina e evite punições.”
FASE PRÉ-ESCOLAR (4 A 5 ANOS)
A fase pré-escolar é caracterizada pela
ampliação da linguagem, da imaginação e das interações sociais. A criança já
consegue se comunicar com mais clareza, criar narrativas, inventar histórias e
participar de brincadeiras coletivas com regras simples. O faz de conta ganha
força como ferramenta de aprendizagem e elaboração emocional. É também o
momento em que surgem maior curiosidade sobre o corpo, interesse por normas
sociais e necessidade de pertencimento. A autonomia se expande, mas ainda há
forte dependência da mediação do adulto para lidar com frustrações e conflitos.
Ter amigos imaginários: a imaginação é
ferramenta essencial para o desenvolvimento emocional e criativo. “O amigo
imaginário ajuda a criança a elaborar medos, conflitos e situações do
cotidiano”, explica Jacqueline. “Acolha e observe com naturalidade esse
comportamento, na maioria das vezes essa fase desaparece espontaneamente.”
Inventar mentiras fantasiosas: fantasia e
realidade ainda se misturam nessa idade. “Nem sempre é mentira intencional,
muitas vezes é imaginação em construção”, afirma. “Ajude a criança a diferenciar
realidade de faz de conta, sem rotulá-la como mentirosa.”
Repetir palavrões: podem surgir como
teste de impacto social e reação dos adultos. “A criança percebe que certas
palavras provocam atenção, mesmo sem entender o significado”, explica Jacqueline.
“Evite rir ou reagir exageradamente e explique que há palavras que não são
adequadas.”
Brincadeiras de luta, arma ou
super-herói: são comuns porque ajudam a criança a experimentar
regras, limites e controle de impulsos dentro do faz de conta. “Esse tipo de
brincadeira contribui para o desenvolvimento socioemocional”, afirma.
“Supervisione e estabeleça regras claras, como não machucar de verdade as
outras crianças.”
As brincadeiras vigorosas, ou Rough &
Tumble Play, são aquelas em que as crianças gostam de se envolver em jogos que
consideramos “violentos”. Enquanto lutam, batem e perseguem uns aos outros,
elas riem e gritam com energia e continuam voltando para mais brincadeiras
deste tipo.
“Embora nós, adultos, possamos estar
preocupados com o fato de que esta brincadeira seja uma briga ou uma agressão
real, as crianças são hábeis em discernir a diferença e indicarão se a
brincadeira ficou agressiva demais e responderão de acordo para continuá-la”,
afirma.
Se uma criança se machuca, ela faz uma pausa
momentânea para resolver o problema e, em seguida, o jogo é retomado. “As
crianças aprenderão até que ponto podem brincar com vigor e descobrir os
limites para uma brincadeira saudável. A brincadeira vigorosa permite que a
criança entenda os limites de sua própria força e descubra o que outras
crianças vão ou não permitir que elas façam”, pontua Jacqueline.
Ciúme intenso: pode aparecer porque
a criança teme perder espaço ou atenção dentro da família. “O ciúme é parte da
construção do senso de pertencimento”, explica. “Para amenizar esse
comportamento, reforce vínculos e evite comparações entre irmãos e outras
crianças.”
Interesse excessivo por regras: é esperado porque
a criança começa a internalizar normas sociais e pode até ‘policiar’ colegas. “Ela
está aprendendo como a convivência funciona em sociedade”, diz Jacqueline.
“Ensine flexibilidade e empatia, mostrando que todos estão em processo de
aprendizagem.”
PERÍODO DE LATÊNCIA (6 A 12 ANOS)
Já o período de latência é marcado por maior
estabilidade emocional e avanço cognitivo. A criança passa a organizar melhor o
pensamento, desenvolver habilidades acadêmicas e construir sua identidade a
partir das relações com o grupo. O interesse por regras se torna mais
estruturado, o senso de justiça se fortalece e o pensamento crítico começa a se
consolidar. Há maior capacidade de concentração, planejamento e reflexão sobre
si mesma. Embora seja uma fase mais tranquila do ponto de vista comportamental,
ainda exige escuta, orientação e presença ativa dos adultos para apoiar os
desafios sociais e emocionais que surgem.
Falar sozinho: é comum porque o
diálogo interno ajuda na organização do pensamento e na resolução de problemas.
“Falar consigo mesmo é uma estratégia cognitiva saudável”, afirma Jacqueline.
“Se a criança mantém interação social adequada com outras pessoas, não há
motivo para preocupação.”
Interesse intenso por determinado
assunto ou coisa: esse comportamento “focado” favorece a concentração, a
memória e a construção de identidade. “Focar profundamente em um tema pode
impactar positivamente na autoestima. Estimule o interesse e amplie repertórios
da criança gradualmente.”
Vergonha excessiva ou retraimento
temporário: podem surgir porque a criança passa a refletir mais
sobre si e sobre os outros que a cercam. “O período de latência é naturalmente
marcado por maior internalização”, afirma. “Respeite o perfil da criança e
incentive interações sem forçar exposições.”
Comparações constantes com colegas: acontecem porque
a identidade passa a ser construída a partir do grupo. “A criança começa a
medir suas habilidades em relação aos outros”, explica. “Valorize o esforço
individual e evite reforçar competição excessiva.”
Questionar autoridades e regras: é esperado porque
o pensamento crítico começa a se estruturar. “Questionar é parte do
amadurecimento cognitivo”, afirma Jacqueline. “Ensine a criança a discordar com
respeito e transforme o diálogo em oportunidade de aprendizado”, finaliza.
Jacqueline Cappellano - pedagoga, pós-graduada em Bilinguismo e Psicopedagogia coordenadora da Educação Infantil da Escola Internacional de Alphaville. É uma grande entusiasta da Educação Bilíngue e fascinada pelo universo da educação infantil. Enxerga no intercâmbio entre ideias e culturas, um caminho para a paz entre os povos.
ISP – International Schools Partnership

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