Há exatos 100 anos, em 1926, as mulheres não
tinham direitos políticos no Brasil. Sua educação formal era restrita,
sobretudo às elites, e muitas vezes centrada na religião e nos bons
costumes. A mulher concentrava suas atividades naquilo que era visto
como a “extensão do lar” — costura, magistério, cuidados.
Naquela época,
estava em vigor o Código Civil de 1916, que estabelecia o marido como chefe da
sociedade conjugal, detentor do pátrio poder. Cabia a ele administrar os bens,
decidir sobre o domicílio familiar e autorizar (ou não) que sua mulher
trabalhasse.
Vista
quase como propriedade, a mulher assumia o sobrenome do marido e devia-lhe
obediência, fidelidade e dedicação exclusiva ao lar. Além do nome, o corpo da
mulher também era tratado como propriedade masculina: tolerava-se a violência
doméstica, entendida como “assunto de família”, e o adultério masculino,
enquanto o feminino era severamente punido.
Foi
apenas em 1932 que as mulheres conquistaram o direito ao voto — ainda
limitado por classe e raça — e mesmo esses pequenos avanços legais
precisavam conviver com uma forte expectativa de submissão doméstica.
Trinta
anos depois, com a chegada das ideias feministas ao país e a criação do
Estatuto da Mulher Casada, ela finalmente deixou de ser considerada
incapaz. Desde que desse conta do trabalho doméstico, essa mulher
passava a poder trabalhar, acessar o ensino superior, administrar seus
bens e recorrer à Justiça. Foi também um momento em que a
sexualidade começou a ser debatida, ainda sob forte repressão.
As
mulheres podiam se desquitar, o que permitia a separação de corpos e bens, mas
o vínculo do casamento permanecia — e um forte estigma social as
acompanhava. Mesmo após a Lei do Divórcio, em 1977, as mulheres continuaram a
enfrentar barreiras, preconceitos e o acúmulo de funções na sociedade: ela
era esposa, mãe, dona de casa, trabalhadora, cuidadora. Parece familiar?
A
Constituição Federal de 1988, que nos rege até hoje, finalmente
estabeleceu a igualdade formal entre homens e mulheres perante a lei e
dentro do casamento. Com os avanços nos direitos feministas, observou-se também
uma expansão da presença feminina em profissões qualificadas e o início do
debate sobre a dupla jornada.
A
Lei Maria da Penha, de 2006, marcou um momento divisor
no combate à violência doméstica. À medida que as mulheres
passam a depender menos dos homens para sobreviver, cresce sua
escolaridade — superando a masculina — e o empreendedorismo
feminino.
Pouco tempo depois,
o movimento #MeToo, que surgiu nos Estados Unidos, se espalhou pelo
mundo. No Brasil, ele ganhou contornos próprios, por meio de relatos
de assédio no trabalho, na mídia e na política; casos envolvendo figuras
públicas; e maior atenção à violência cotidiana, não apenas
aos “casos extremos”. O objetivo central era — e segue
sendo — expor desigualdades de poder, dependência econômica e racismo
estrutural.
Já neste
século, o conflito entre carreira, maternidade e expectativas sociais se
intensificou. A pandemia, em 2020, escancarou a sobrecarga feminina, o
aumento do burnout e as assimetrias na equiparação de gênero no
trabalho. Passamos a ver mais mulheres em posições de liderança — ainda
minoria —, falamos mais sobre direitos reprodutivos e questionamos um
modelo de sucesso baseado na exaustão.
Em
pouco mais de um século, saímos da inviabilidade
legal à igualdade por direito; da dependência
econômica à autonomia parcial; da opção única de ser “dona
de casa” à multiplicidade de papéis sociais; e, principalmente, do
silêncio ensurdecedor a um lugar de exposição e cobrança constante.
Ainda
assim, a mulher de 2026 não vive a igualdade de fato. Não tem as mesmas
condições de trabalho, nem a divisão equitativa das tarefas domésticas, nem
alívio da pressão simultânea pela maternidade e pelo sucesso profissional. Os
avanços vieram sem a redistribuição do cuidado — e isso ajuda a
explicar o cansaço, a culpa e as rupturas que vemos hoje.
Ainda
assim, há algo novo em curso. Pela primeira vez, temos linguagem, dados e
consciência coletiva para nomear o que antes era vivido como falha individual.
As mulheres já não pedem apenas espaço. Elas questionam as regras, os
critérios de sucesso e a distribuição do tempo, do cuidado e do poder.
A luz no fim do túnel talvez não esteja em “dar conta de tudo”, mas em reorganizar o que importa, redefinir o que é progresso e construir, em conjunto, modelos de vida e trabalho que não exijam o esgotamento feminino como preço de pertencimento.
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