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Voltar a acordar
cedo, fazer as tarefas, dormir bem. Com o fim das férias, famílias de todo o
país enfrentam o desafio anual de readaptar a rotina de crianças e adolescentes
para a volta à escola. Mas, além de organizar materiais e horários, pais e
responsáveis têm em mãos a tarefa de motivar estudantes que, muitas vezes,
estão imersos em um mundo digital de gratificação instantânea, para um ambiente
que exige foco e dedicação ao longo de todo o ano.
Para facilitar
essa transição, a preparação deve começar antes mesmo do primeiro sinal tocar.
Segundo o mestre em Educação Brasileira e diretor de Marketing e Produto na
Aprende Brasil Educação Juliano Costa, a retomada de hábitos deve ser gradual.
“Regular o sono e a alimentação cerca de uma semana antes, antecipando o
horário de dormir em meia hora ou uma hora a cada dia, é fundamental para
reajustar o relógio biológico”, afirma.
Além do ajuste
fisiológico, é preciso dar um sentido produtivo aos dias finais de descanso.
Para crianças e adolescentes que passaram as férias com horários desregulados
entre televisão, celular e brincadeiras, recomenda-se a reintrodução de
atividades relacionadas ao aprendizado, como a leitura de livros paradidáticos
ou simplesmente folhear os novos livros didáticos sem compromisso, para se
familiarizar com o que será estudado. Seja na rede pública ou privada, o
retorno às aulas deve ser encarado como um ritual positivo. Para os pequenos, a
escola é o lugar da ludicidade e do reencontro com amigos; para os mais velhos,
é o treino para a responsabilidade e a construção de projetos de vida
Conexão real contra a "economia da atenção"
Um dos maiores
obstáculos para o engajamento escolar é a competição com os dispositivos
móveis. Redes sociais como TikTok e Instagram funcionam como "caça-níqueis
de dopamina", oferecendo prazer constante e imediato, o que pode viciar o
cérebro com recompensas imediatas.
Para lidar com
esse problema, a estratégia das famílias deve ser oferecer o que as telas não
conseguem: conexão real e propósito concreto. A ciência indica que jovens se
engajam mais quando possuem autonomia e veem resultados práticos. "Muitas
vezes, em vez de proibir ou dar ordens, a gente poderia pensar em envolver
esses jovens em projetos cujo resultado eles possam ver na prática, como
atividades esportivas, sair com a família, ver um filme, visitar um parque,
conhecer um lugar novo, fazer uma leitura de um livro que a família conhece que
pode ser discutido na mesa", sugere o especialista. Essas conversas
coletivas e o tempo de qualidade afastam a criança da tela e constroem um
propósito baseado na convivência real.
Acolhimento impacta o boletim
A volta às aulas
também exige atenção à saúde mental porque, quando o cérebro está estressado ou
ansioso, entra em modo de sobrevivência e bloqueia áreas responsáveis pelo aprendizado.
“O impacto disso é mensurável. Existem estudos que mostram que alunos que
passam por programas de acolhimento emocional podem aumentar seus resultados
acadêmicos em até 11%. Da mesma forma, existe toda uma linha da pedagogia,
chamada pedagogia da afetividade, que consegue criar relações entre o afeto, a
relação emocional com o conhecimento e os níveis de engajamento e de
aprendizagem”, pontua Costa. Para fazer essa conexão existem rituais de
transição que podem ser feitos nas primeiras semanas de aula. Atividades em
que, no lugar dos conteúdos formais, os estudantes possam participar, por
exemplo, de gincanas, dinâmicas de integração ou conversas. “Aprender sob
estresse não funciona. O vínculo afetivo com a escola é pré-requisito para o
sucesso cognitivo.”
Além disso, a
expectativa quanto às dificuldades de um novo ano letivo, os novos colegas e
professores e todas as novidades que vêm com o retorno à escola podem deixar
crianças e adolescentes ainda mais ansiosos. “Cabe à família tornar esse processo
menos estressante, oferecendo apoio emocional e muito diálogo para mostrar à
criança que ela não está sozinha nessa jornada.”
"Para que eu vou usar isso?"
Outro desafio
comum, especialmente com adolescentes, é a falta de compreensão sobre a
utilidade dos conteúdos curriculares. Muitos questionam o motivo para estudar
determinadas matérias. A resposta passa pela compreensão de que o currículo
brasileiro é preparatório e exploratório: o aluno é apresentado a todas as
áreas (humanas, exatas, biológicas) para que possa fazer escolhas vocacionais
com propriedade no futuro.
Cabe aos pais e à
escola conectarem esses conteúdos à vida real. “Seja observando a geometria, na
arquitetura, a química, nos produtos de supermercado ou a história, no turismo,
é vital mostrar que o conhecimento é uma ferramenta para entender o mundo e
realizar sonhos. O cérebro costuma desconsiderar aquilo que ele não entende
como útil", alerta Costa. Portanto, demonstrar que o estudo é um
preparatório para o mundo do trabalho e para a vida adulta ajuda a dar
significado ao esforço diário.
Pertencimento como superação
No contexto da
rede pública e de comunidades vulneráveis, o desafio da motivação ganha
contornos sociais. Contudo, independentemente do índice de vulnerabilidade, o
conceito de pertencimento se mostra poderoso. “Uma escola de sucesso é aquela
que mostra a esses jovens que o aprendizado, as aulas e os projetos são o
passaporte dele para um futuro melhor e com mais oportunidades. É menos sobre
tecnologia de ponta, dispositivos e programas, e mais sobre o estar junto, o
olho no olho e a expectativa alta sobre o potencial de cada criança, de cada
adolescente”, ressalta o especialista. Para ele, quando o estudante percebe que
professores e comunidade têm altas expectativas sobre seu potencial, a
realidade social deixa de ser uma barreira intransponível.

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