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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Canetas emagrecedoras e TDAH em adultos: o que a ciência já sabe, segundo o neurologista Dr Matheus Trilico

Por anos, o tratamento do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) em adultos esteve centrado quase exclusivamente no controle dos sintomas cognitivos e comportamentais. No entanto, na prática clínica, uma realidade se impõe com frequência: a associação entre TDAH e obesidade.

Segundo Dr. Matheus Trilico, neurologista referência no tratamento de TDAH e Autismo em adultos, essa relação é mais do que estatística, ela é neurobiológica e comportamental.

“Adultos com TDAH apresentam maior prevalência de obesidade. Impulsividade, busca por recompensa imediata e dificuldade de planejamento interferem diretamente no comportamento alimentar. Muitas vezes, o TDAH antecede o ganho de peso”, explica o neurologista.


O papel da tirzepatida nesse cenário

Nos Estados Unidos, medicamentos como o Mounjaro e o Zepbound — ambos à base de tirzepatida — foram aprovados pela Food and Drug Administration (FDA) para tratamento de diabetes tipo 2 e obesidade, respectivamente.


Importante: Zepbound não existe no Brasil; trata-se de uma referência norte-americana.

A tirzepatida atua como agonista duplo dos receptores GLP-1 e GIP, hormônios incretínicos ligados à saciedade e ao controle glicêmico. Na prática, reduz o apetite, diminui a ingestão calórica e promove perda de peso significativa,  estudos internacionais apontam reduções que podem chegar a cerca de 20% do peso corporal em protocolos prolongados.


Pode ajudar adultos com TDAH?

De forma direta, não há estudos que avaliem o impacto da tirzepatida sobre sintomas de TDAH: atenção, memória de trabalho, impulsividade cognitiva ou hiperatividade. O que existe é um possível benefício indireto.

“Quando reduzimos a fome fisiológica e a compulsão alimentar por mecanismos hormonais, diminuímos uma das maiores dificuldades do paciente com TDAH: a impulsividade alimentar”, afirma Dr. Trilico.

A Neuroimagem já demonstrou que TDAH e obesidade compartilham circuitos relacionados à dopamina, recompensa e controle inibitório. Assim, ao modular a saciedade e reduzir o reforço alimentar, medicamentos como Mounjaro podem funcionar como ferramenta auxiliar no manejo do peso em pacientes com TDAH, mas não como tratamento do transtorno em si.


O neurologista ressalta ainda:
“O tratamento farmacológico específico do TDAH deve ser mantido conforme diretrizes. A tirzepatida não substitui estimulantes nem atua sobre os sintomas centrais do transtorno”.


Há risco de interação com medicamentos para TDAH?

Até o momento, não há evidências de interações farmacológicas clinicamente relevantes entre tirzepatida e medicamentos amplamente utilizados no TDAH adulto, como:

  • Metilfenidato;
  • Lisdexanfetamina;
  • Atomoxetina.
A tirzepatida não interfere na via metabólica CYP2D6,  responsável pelo metabolismo de parte desses fármacos, e não há recomendação formal de ajuste de dose quando utilizados em conjunto.

Os efeitos adversos mais comuns da tirzepatida são gastrointestinais: náuseas, vômitos, diarreia e constipação. Existe também o atraso no esvaziamento gástrico, especialmente nas primeiras semanas de uso.

Contudo, não há estudos que demonstrem comprometimento da absorção ou da eficácia dos medicamentos orais para TDAH por esse mecanismo.

Ainda assim, o acompanhamento clínico é prudente, sobretudo em pacientes com sintomas gastrointestinais relevantes ou comorbidades cardiovasculares, já que estimulantes também podem impactar pressão arterial e frequência cardíaca.


Manejo integrado é essencial

Para Dr. Matheus Trilico, o ponto central não é a medicação isolada, mas a abordagem multidisciplinar.

“O TDAH pode ser uma barreira importante ao sucesso em programas de perda de peso. Precisamos tratar funções executivas, organização, planejamento alimentar e adesão. Medicamentos como a tirzepatida podem ajudar, mas não resolvem o núcleo do transtorno”, enfatiza o médico.

Para Dr Matheus, Intervenções nutricionais estruturadas como padrões inspirados na dieta mediterrânea ou DASH podem contribuir, embora as evidências específicas em adultos com TDAH ainda sejam limitadas.


O que podemos concluir?

  • Não há evidência de que tirzepatida trate sintomas de TDAH.
  • Pode auxiliar indiretamente no controle do peso em adultos com TDAH e obesidade.
  • Não há interações farmacológicas relevantes documentadas com medicamentos estimulantes ou atomoxetina.
  • Monitoramento clínico é recomendado.

O avanço das chamadas “canetas emagrecedoras” abre novas possibilidades terapêuticas no campo metabólico. Mas, quando falamos de TDAH em adultos, o caminho continua sendo o tratamento estruturado, individualizado e baseado em evidências.

“Obesidade e TDAH frequentemente caminham juntos. O erro é tratar apenas um deles”, resume Dr Matheus Trilico.

 

Dr. Matheus Luis Castelan Trilico - CRM 35805PR, RQE 24818. Médico pela Faculdade Estadual de Medicina de Marília (FAMEMA); Neurologista com residência médica pelo Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (HC-UFPR); Mestre em Medicina Interna e Ciências da Saúde pelo HC-UFPR. Pós-graduação em Transtorno do Espectro Autista.

Mais artigos sobre TEA e TDAH em adultos podem ser vistos no portal do neurologista: https://blog.matheustriliconeurologia.com.br/


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