Por anos, o tratamento do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) em adultos esteve centrado quase exclusivamente no controle dos sintomas cognitivos e comportamentais. No entanto, na prática clínica, uma realidade se impõe com frequência: a associação entre TDAH e obesidade.
Segundo
Dr. Matheus Trilico, neurologista referência no tratamento de TDAH e Autismo em
adultos, essa relação é mais do que estatística, ela é neurobiológica e
comportamental.
“Adultos
com TDAH apresentam maior prevalência de obesidade. Impulsividade, busca por
recompensa imediata e dificuldade de planejamento interferem diretamente no
comportamento alimentar. Muitas vezes, o TDAH antecede o ganho de peso”,
explica o neurologista.
O papel da tirzepatida nesse cenário
Nos
Estados Unidos, medicamentos como o Mounjaro e o Zepbound — ambos à base de
tirzepatida — foram aprovados pela Food and Drug Administration (FDA) para
tratamento de diabetes tipo 2 e obesidade, respectivamente.
Importante: Zepbound não existe no Brasil; trata-se de uma
referência norte-americana.
A
tirzepatida atua como agonista duplo dos receptores GLP-1 e GIP, hormônios
incretínicos ligados à saciedade e ao controle glicêmico. Na prática, reduz o
apetite, diminui a ingestão calórica e promove perda de peso
significativa, estudos internacionais apontam reduções que podem chegar a
cerca de 20% do peso corporal em protocolos prolongados.
Pode ajudar adultos com TDAH?
De
forma direta, não há estudos que avaliem o impacto da tirzepatida sobre
sintomas de TDAH: atenção, memória de trabalho, impulsividade cognitiva ou
hiperatividade. O que existe é um possível benefício indireto.
“Quando
reduzimos a fome fisiológica e a compulsão alimentar por mecanismos hormonais,
diminuímos uma das maiores dificuldades do paciente com TDAH: a impulsividade
alimentar”, afirma Dr. Trilico.
A
Neuroimagem já demonstrou que TDAH e obesidade compartilham circuitos
relacionados à dopamina, recompensa e controle inibitório. Assim, ao modular a
saciedade e reduzir o reforço alimentar, medicamentos como Mounjaro podem
funcionar como ferramenta auxiliar no manejo do peso em pacientes com TDAH, mas
não como tratamento do transtorno em si.
O neurologista ressalta ainda:
“O tratamento farmacológico específico do TDAH deve ser mantido conforme
diretrizes. A tirzepatida não substitui estimulantes nem atua sobre os sintomas
centrais do transtorno”.
Há risco de interação com medicamentos para TDAH?
Até
o momento, não há evidências de interações farmacológicas clinicamente
relevantes entre tirzepatida e medicamentos amplamente utilizados no TDAH
adulto, como:
- Metilfenidato;
- Lisdexanfetamina;
- Atomoxetina.
Os
efeitos adversos mais comuns da tirzepatida são gastrointestinais: náuseas,
vômitos, diarreia e constipação. Existe também o atraso no esvaziamento
gástrico, especialmente nas primeiras semanas de uso.
Contudo,
não há estudos que demonstrem comprometimento da absorção ou da eficácia dos
medicamentos orais para TDAH por esse mecanismo.
Ainda
assim, o acompanhamento clínico é prudente, sobretudo em pacientes com sintomas
gastrointestinais relevantes ou comorbidades cardiovasculares, já que
estimulantes também podem impactar pressão arterial e frequência cardíaca.
Manejo integrado é essencial
Para
Dr. Matheus Trilico, o ponto central não é a medicação isolada, mas a abordagem
multidisciplinar.
“O
TDAH pode ser uma barreira importante ao sucesso em programas de perda de peso.
Precisamos tratar funções executivas, organização, planejamento alimentar e
adesão. Medicamentos como a tirzepatida podem ajudar, mas não resolvem o núcleo
do transtorno”, enfatiza o médico.
Para
Dr Matheus, Intervenções nutricionais estruturadas como padrões inspirados na
dieta mediterrânea ou DASH
podem contribuir, embora as evidências específicas em adultos com TDAH ainda
sejam limitadas.
O que podemos concluir?
- Não há evidência de que
tirzepatida trate sintomas de TDAH.
- Pode auxiliar indiretamente no
controle do peso em adultos com TDAH e obesidade.
- Não há interações
farmacológicas relevantes documentadas com medicamentos estimulantes ou
atomoxetina.
- Monitoramento clínico é
recomendado.
O
avanço das chamadas “canetas emagrecedoras” abre novas possibilidades
terapêuticas no campo metabólico. Mas, quando falamos de TDAH em adultos, o
caminho continua sendo o tratamento estruturado, individualizado e baseado em
evidências.
“Obesidade
e TDAH frequentemente caminham juntos. O erro é tratar apenas um deles”, resume
Dr Matheus Trilico.
Mais artigos sobre TEA e TDAH em adultos podem ser vistos no portal do neurologista: https://blog.matheustriliconeurologia.com.br/
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