Com 1.518 mulheres assassinadas em 2025, a psicóloga, especialista em saúde mental e Instituto Vita Alere, Karen Scavacini, do explica como o trauma começa antes da morte e pode impactar o desenvolvimento emocional das crianças
O Brasil registrou 1.518 feminicídios em 2025, uma média de quatro mulheres mortas por dia, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). No estado de São Paulo, foram 270 casos no mesmo período, o maior número da série histórica. Por trás dessas estatísticas estão histórias interrompidas, e crianças que passam a conviver com um trauma que, muitas vezes, começa antes mesmo da morte.
Casos recentes de grande repercussão evidenciam essa realidade. Em dezembro do ano passado, Tainara Souza Santos, de 31 anos, foi atropelada e arrastada por cerca de um quilômetro na Marginal Tietê, na capital paulista. O autor do crime, apontado como seu ex-companheiro, foi preso e o caso é tratado como feminicídio. Meses depois, Priscila Alves Versão, de 22 anos, amiga de Tainara, foi morta; o companheiro foi preso e o crime também é investigado como feminicídio. Priscila deixou três filhos pequenos.
Para a psicóloga, especialista em saúde mental e fundadora do Instituto Vita Alere, Karen Scavacini, o feminicídio raramente é um evento isolado, e costuma ser o desfecho de um processo progressivo de violência que já impactava toda a dinâmica familiar. “A violência não começa no grito. Muitas vezes começa no silêncio, na desvalorização constante e na perda gradual de autonomia emocional e material. Quando há ameaças, controle sobre roupas, trabalho ou relações sociais, estamos diante de um relacionamento abusivo. Muitas vezes ele começa de forma branda e vai se intensificando. Muitas mulheres acabam ficando presas nesse relacionamento por não terem rede de apoio psicossocial ou autonomia financeira para romper o ciclo”, complementa ela.
Quando a violência doméstica culmina em feminicídio, a
ruptura é devastadora também para os filhos: além de perderem a mãe de forma
abrupta e traumática, muitas vezes ficam privados da convivência com o pai,
seja pela prisão ou pelo afastamento. O que já era um ambiente marcado por
tensão se transforma em luto, desamparo e quebra profunda da sensação de
segurança. Em um país que registra números recordes desse crime, especialistas
alertam que o enfrentamento ao feminicídio não pode se limitar à
responsabilização penal do agressor. É preciso incorporar políticas
estruturadas de acolhimento psicológico e acompanhamento social às crianças que
se tornam vítimas indiretas, sob o risco de perpetuar impactos emocionais
duradouros e ciclos de violência que atravessam gerações.
Karen Scavacini - psicóloga e pesquisadora, mestre em Saúde Pública pelo Karolinska Institutet (Suécia) e doutora em Psicologia pela USP. Fundou em 2013 o Instituto Vita Alere, pioneiro em pós‑venção e saúde mental digital no Brasil. Representa o país na International Association for Suicide Prevention (IASP) e é fundadora da ABEPS. Sua atuação combina ambientes digitais, educação emocional e pesquisa aplicada em saúde mental.
Instituto Vita Alere
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