Em colaboração com a organização 10x10
Photobooks, mostra será inaugurada em 17 de março na Biblioteca de Fotografia
do IMS Paulista, apresentando uma história do fotolivro contada a partir de
mulheres que ajudaram a definir a cultura visual dos últimos dois séculos.
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O IMS Paulista exibirá, a partir do dia
17 de março, um conjunto
de fotolivros que ressaltam a importância das mulheres na construção do campo
da fotografia. A mostra O que elas viram: fotolivros históricos de
mulheres, 1843-1999 reúne 106 livros do acervo da
Biblioteca de Fotografia, incluindo títulos recém-incorporados a partir da
aquisição de uma coleção junto à 10x10 Photobooks, organização
fundada em 2012 por Russet Lederman e Olga
Yatskevich. Sediada em Nova York, a 10x10 Photobooks se dedica
à pesquisa e ao compartilhamento de fotolivros, promovendo exibições, publicando
livros a respeito e incentivando sua apreciação e compreensão.
Russet e Olga, que assinam a curadoria da mostra, comentam o projeto: "Embora os estudos sobre a história dos fotolivros tenham começado há apenas 37 anos, eles foram escritos majoritariamente por homens e têm focado em publicações de autoria masculina. Como organização sem fins lucrativos cuja missão é compartilhar fotolivros de forma global e incentivar sua apreciação e compreensão, a equipe da 10×10 discute com frequência como a história do fotolivro foi – e continua sendo – escrita a partir de uma perspectiva enviesada, e que uma ‘nova’ história precisa emergir."
No dia da abertura, haverá uma conversa aberta ao público na Biblioteca de Fotografia do IMS, às 18h30, com a participação de Russet. A entrada é grátis, com retirada de senhas 60 minutos antes.
“A exposição reforça o papel do IMS como centro de referência para o estudo dos fotolivros e para a circulação de projetos de relevância internacional. Ao trazer ao público brasileiro obras que atravessam mais de um século e meio de produção, O que elas viram amplifica o debate sobre a contribuição das mulheres na história da fotografia e cria novas oportunidades de pesquisa", diz Miguel Del Castillo, coordenador da Biblioteca de Fotografia do Instituto Moreira Salles.
Todos os livros em exibição poderão ser manuseados pelos
visitantes da mostra, que está dividida em dez seções – elas funcionam como
marcadores cronológicos, mas principalmente ressaltam o momento histórico,
sociopolítico e de conquistas de gênero em que essas mulheres produziram suas
obras: “1843-1919: Pioneiras”; “1920-1935: A nova mulher”; “1936-1945:
Levantando suas vozes”; “1946-1955: Das cinzas à família”; “1956-1964: Livros
como bombas”; “1965-1969: Nostalgia, pop e revolução”; “1970-1975: Sororidade
em florescimento”; “1976-1979: Políticas sexuais”; “1980-1989: Um despertar
global”; e “1990-1999: Em busca de uma fotodemocracia”.
“Pioneiras”, por exemplo, inclui o trabalho da inglesa Anna Atkins,
que, em 1843, publicou por conta própria Photographs of British Algae:
Cyanotype Impressions, originalmente escrito à mão e
ilustrado com 307 cianotipias das mais diversas algas britânicas. Na mostra,
ela está presente em uma edição contemporânea da publicação. Também nesta seção
se encontra o mais antigo exemplar em exibição, Dream
Children (1901), da norte-americana Elizabeth
B. Brownell (1860-1909), em que textos em prosa e poesia de 28
autores são ilustrados com cenas cuidadosamente compostas no estilo de tableaux
vivant, popular na fotografia do fim do século XIX e início do século XX.
Nas seções seguintes, aparecem obras como African Journey [Jornada africana] (1945), da antropóloga Eslanda Cardozo Goode Robeson (1895-1965). Parte do segmento “Levantando suas vozes”, a publicação é um dos primeiros livros sobre a África produzido por uma pesquisadora negra norte-americana – e sucesso à época de seu lançamento, devido ao crescente interesse de pessoas afro-americanas pela política e pela cultura africanas durante a década de 1940, quando pan-africanistas defendiam um vínculo inquebrantável entre a diáspora africana e o continente.
Já na seção “Sororidade em florescimento”, chama atenção o fotolivro Les Tortures volontaires [As torturas voluntárias] (1974), da francesa Annette Messager (1943), uma coleção de imagens recortadas de revistas e anúncios que mostram mulheres submetendo-se a diversos procedimentos cosméticos ou rotinas de beleza, pontuando como os corpos das mulheres são um lugar de violência.
Entre os numerosos destaques, o público poderá também ver Passion [Paixão] (1989), da camaronense Angèle Etoundi
Essamba (1962), no segmento “Um despertar global”. Essamba
subverte as representações estereotipadas produzidas por fotógrafos ocidentais
dos corpos femininos negros com poderosos retratos em que sobressaem orgulho,
força e consciência. A seleção inclui ainda Hiromix (1998), da
japonesa Hiromix (1976), um retrato profundamente pessoal da
cultura jovem japonesa dos anos 1990, com fotografias estreladas, em sua
maioria, pela própria autora, que busca capturar a beleza juvenil, a
exuberância e os prazeres sem amarras da experiência urbana de uma jovem
mulher. Hiromix está na seção “Em busca de uma fotodemocracia”, que
fecha a exposição.
Três brasileiras já estavam na seleção original das curadoras: Claudia Andujar (1931) com Amazônia (1979), livro que registra o período que ela passou com os Yanomami, fotografando suas cerimônias culturais, ritos xamânicos e tradições; Maureen Bisilliat (1931) comparece com o livro A João Guimarães Rosa (1969), em que fotografa o sertão mineiro inspirada pelo romance Grande sertão: veredas; e Gretta Sarfaty (1947), que rompeu padrões nos anos 1970 ao ironizar a própria imagem, com Autophotos (1978), reunindo três séries fotográficas da pioneira da body art e do feminismo no Brasil.
“Mas, como estamos no Brasil, achamos
interessante ampliar um pouco a quantidade de fotógrafas brasileiras contempladas
na seleção", diz Miguel Del Castillo. “Fiz uma sugestão a partir do acervo
do IMS, de livros importantes, publicados nesse período de tempo". Foi assim que outros quatro volumes
foram incorporados à versão brasileira da exposição: Dor (1998), de Vilma Slomp
(1952); Quem você pensa que ela é? (1995), de Claudia
Jaguaribe (1955); Pinturas e platibandas (1987), de Anna
Mariani (1935-2022); e Entre (1974), de Stefania
Bril (1922-1992).
O IMS recebe uma exposição que já teve versões em formatos variados exibidas em instituições de prestígio em todo o mundo, como o Getty Research Institute, em Los Angeles (2025), o Museo Reina Sofía, em Madri (2024), o Rijksmuseum, em Amsterdã (2022) e a New York Public Library (2022). O catálogo da mostra (no original, What They Saw: Historical Photobooks by Women, 1843–1999), de autoria das duas curadoras, recebeu em 2021 o PhotoBook Award de melhor catálogo do ano, prêmio concedido durante a feira Paris Photo, e estará disponível para consulta na exposição e para venda na Livraria da Travessa do IMS Paulista.
Em cartaz até 2 de agosto, a exposição convida o público a
refletir sobre os processos de construção da história e as possibilidades de
constantemente reescrevê-la, como pontuam as curadoras: “O que elas
viram buscou incluir um grupo diverso de publicações ilustradas com fotografias
feitas por mulheres. Para que a história do fotolivro se torne mais inclusiva,
é necessário que todas as pessoas (homens, mulheres, não binárias, brancas,
negras, asiáticas, africanas, latinas, indígenas, ocidentais, orientais etc.)
contribuam. Vemos esta sala de leitura sobre o papel das mulheres na produção,
disseminação e autoria de fotolivros como um passo necessário para desescrever
a atual história do fotolivro e reescrever uma história do fotolivro que seja
mais equitativa e inclusiva.”
Legendas das imagens de divulgação: Montagem com livros da
exposição, capa do livro Passion, de Angèle Etoundi Essamba, e página
interna do livro A João Guimarães Rosa, de Maureen Bisilliat.
Serviço
O que elas viram: fotolivros históricos de mulheres, 1843-1999
Curadoria de Russet Lederman e Olga Yatskevich
Abertura: 17 de março (terça-feira), às 10h
Visitação: até 2 de agosto
IMS Paulista | Biblioteca de Fotografia
Entrada gratuita
Conversa de abertura com Russet Lederman
Sala de aula, às 18h30, com retirada de senhas 60 minutos antes.
IMS Paulista
Avenida Paulista, 2424, São Paulo. Tel.: 11
2842-9120.
Horário de
funcionamento: Terça a domingo e feriados (exceto segundas), das 10h às 20h.
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