Inspirada pela ausência de
alternativas de tratamento para um tipo de tumor cerebral que afeta crianças, a
Medulloblastoma Initiative (MBI) mostra como investimentos direcionados e
ciência colaborativa podem acelerar curas que a indústria farmacêutica não tem
interesse em buscar
Em algum momento
entre a segunda e a terceira opinião médica, Fernando Goldsztein entendeu que
não havia mais nada a perguntar aos médicos. Seu filho Frederico, diagnosticado
com meduloblastoma, o tumor cerebral maligno mais comum na infância, havia
resistido ao tratamento padrão. A recidiva veio três anos depois do diagnóstico
inicial. Especialistas em Boston foram diretos: não havia protocolo, não havia
ensaio clínico promissor, não havia saída. O que havia eram medidas de controle
para qualidade de vida e uma contagem regressiva de tempo, ainda que incerto.
Essa cena se repete, com variações, para centenas de milhares de famílias ao
redor do mundo todos os anos. Não apenas com meduloblastoma, mas com as cerca
de 7 mil condições classificadas como raras, um conjunto de doenças que,
juntas, afetam cerca de 300 milhões de pessoas globalmente, segundo a
Organização Mundial da Saúde (OMS). Uma população maior do que a do Brasil
inteiro, dispersa em diagnósticos diversos que se traduzem em um volume de
pessoas pequeno demais para justificar investimentos para a descoberta de
soluções capazes de salvar mais vidas.
É nesse vazio que
a Medulloblastoma Initiative (MBI) nasceu, e é nesse vazio que seu modelo pode
fazer diferença muito além do câncer que lhe deu origem.
O paradoxo
das doenças raras
Rara, no
vocabulário regulatório, não significa incomum. Nos Estados Unidos, o FDA
classifica como rara qualquer doença que afete menos de 200 mil pessoas num
país de 320 milhões. Pelo mesmo critério, uma condição pode atingir milhões de
pacientes no mundo e ainda assim não despertar interesse comercial suficiente
para motivar pesquisa privada.
O resultado é uma
equação perversa: quanto mais específica a doença, menor o mercado potencial,
menor o investimento em pesquisa e mais distante a perspectiva de novos
tratamentos. Estimam-se que apenas quatro centavos de cada dólar destinado à
pesquisa oncológica cheguem ao câncer pediátrico. Para doenças raras em geral,
a proporção é igualmente sombria.
O meduloblastoma
ilustra bem esse paradoxo. É o tumor cerebral pediátrico mais frequente,
responsável por cerca de 20% de todos os casos em crianças, com diagnóstico
concentrado entre os 5 e os 9 anos de idade. Apesar disso, o protocolo de
tratamento padrão combina cirurgia, radioterapia intensa e quimioterapia de
alta toxicidade numa fórmula desenvolvida nos anos 1980. Os efeitos colaterais
são graves e duradouros: déficits cognitivos, alterações hormonais, perda auditiva.
E em 20% a 25% dos casos, o tumor simplesmente não responde.
"O problema
não é falta de ciência. É falta de decisão. Quando você cria as condições
certas para os melhores pesquisadores trabalharem juntos, sem barreiras, sem
competição por crédito, os resultados aparecem muito mais rápido do que o
sistema tradicional faz crer", diz Goldsztein.
A frase resume a
hipótese que ele decidiu testar quando, em 2021, fundou a MBI a partir de
conversas com o neuro-oncologista pediátrico Roger J. Packer, do Children's
National Hospital, em Washington D.C. A pergunta era direta: o que acontece
quando você financia ciência colaborativa de forma estratégica, com prazos,
metas e transparência total?
Um consórcio
contra o relógio
O modelo da MBI
rompe com quase tudo que define o financiamento científico tradicional. Não há
custos administrativos, 100% dos recursos vão diretamente à pesquisa. Não há
silos de informação, os dados são obrigatoriamente compartilhados entre todos
os laboratórios parceiros. Não há duplicação de esforços, cada instituição
recebe uma tarefa específica dentro de uma estratégia coletiva desenhada para
gerar resultados de curto a médio prazos.
Em pouco mais de
quatro anos, o consórcio reuniu mais de 30 especialistas em 16 instituições dos
Estados Unidos, Canadá e Alemanha, e captou US$ 11 milhões em financiamento
filantrópico. Dois ensaios clínicos já foram aprovados pelo FDA em tempo que
especialistas descrevem como incomum para a área. Outros dois serão submetidos
ao órgão em 2026.
Um dos laboratórios
do consórcio iniciou testes com pacientes reais utilizando imunoterapia
avançada, uma abordagem que estimula o próprio sistema imunológico a combater
as células tumorais. Outro grupo desenvolve uma vacina contra o meduloblastoma
baseada em tecnologia de RNA mensageiro, a mesma plataforma que revolucionou o
combate à Covid-19.
"Não é uma
questão de 'se' vamos encontrar a cura. É uma questão de 'quando'. E o 'quando'
depende diretamente de quanto a sociedade decide investir nessa direção",
afirma Goldsztein.
O reconhecimento
científico veio. A publicação MIT Management destacou em 2025 a MBI como
exemplo de inovação disruptiva em saúde, apresentando a iniciativa como um
modelo capaz de acelerar descobertas que, pelo caminho convencional, levariam
décadas para chegar aos pacientes.
Um modelo
para doenças raras
O que torna a MBI
relevante para além do meduloblastoma é justamente sua arquitetura. O consórcio
não foi desenhado para resolver o cenário de uma doença específica, mas para
provar que é possível resolver problemas deixados em segundo plano.
Doenças raras
compartilham uma característica estrutural: o mercado não vai buscá-las. O
retorno comercial não justifica investimentos robustos pelos grandes players
do setor de saúde, e o financiamento público, disperso entre milhares de
condições, não é suficiente para gerar avanços concretos. O espaço que sobra é
exatamente onde a filantropia estratégica pode atuar - não como caridade, mas
como capital de risco científico, com método, metas e prestação de contas.
Goldsztein projeta
levar parte da pesquisa ao Brasil assim que as primeiras validações forem
concluídas nos Estados Unidos. Para tanto, a MBI estabeleceu em novembro um
acordo de colaboração com o Einstein Hospital Israelita, conferindo a ele o
selo de Instituição Amiga do MBI e abrindo frentes para avanços no
desenvolvimento de trocas de experiências e outras ativações conjuntas. Outras
entidades brasileiras em breve devem também se unir ao projeto.
A ambição, porém,
é maior: que o modelo da MBI sirva de referência para outras iniciativas em
outras doenças raras, com outros financiadores e outros consórcios científicos
replicando a mesma lógica colaborativa. "Cada família que enfrenta um
diagnóstico sem resposta está vivendo uma falha do sistema, não da medicina. A
ciência tem capacidade. O que falta é organização e recursos. Quando você
oferece os dois, o caminho aparece", sintetiza Goldsztein.
No Dia Mundial das Doenças Raras, a história da MBI não é apenas sobre um pai que não aceitou desistir. É sobre o que acontece quando a recusa individual encontra método, financiamento e colaboração e sobre o quanto esse encontro pode significar para os 300 milhões de pessoas que sabem que o termo raro não pode ser sinônimo de sem cura.
Medulloblastoma Initiative (MBI)
www.mbinitiative.org
Nenhum comentário:
Postar um comentário