O ano era 2016 quando o vice-presidente do Google em Pesquisa de Machine Learning, Geoffrey Hinton, fez uma previsão sobre o futuro do trabalho na era da Inteligência Artificial. Hinton, que também é cientista da computação, disse que os radiologistas desapareceriam num prazo de cinco a dez anos. Afinal, se algoritmos de IA já superavam humanos na interpretação de imagens médicas, por que manter os humanos?
A
previsão era sedutora como todo hype ao redor de inovações tecnológicas: uma
narrativa que combinava progresso linear com disrupção inevitável, feita por
uma autoridade no assunto. Conhecido como o padrinho da IA, Hinton ganharia, em
2024, o Prêmio Nobel de Física por seu trabalho no
desenvolvimento das redes neurais - que viriam a fundamentar a revolução do
aprendizado profundo e da IA.
Só
faltava uma coisa: estar correta.
Oito
anos depois, os radiologistas não apenas ainda existem como houve um aumento
significativo nesse número de profissionais. Em 2016, o Brasil contava com
7.086 radiologistas registrados. Já em 2025, o número de radiologistas no país
chegou a 12.868, um aumento de cerca de 81,4%. E existe uma falta crônica
nas regiões Norte e Nordeste.
A
ironia contida no erro de Hinton apareceu novamente agora em dados vindos de um
lugar improvável: a indústria de design. Segundo o Relatório de Empregos em IA
2025 da Autodesk, que analisou quase três milhões de anúncios de emprego ao
longo de dois anos, a habilidade mais demandada em posições relacionadas à
Inteligência Artificial não é programação, não é expertise em aprendizado de
máquina, não é computação em nuvem. É design.
Design,
a habilidade humana por excelência, aquela que envolve julgamento estético,
compreensão de contexto, empatia com usuários, e a capacidade de imaginar o que
ainda não existe. Entre as 10 habilidades mais procuradas em empregos de IA,
encontram-se também comunicação, liderança, colaboração e "habilidades
interpessoais", esse eufemismo corporativo para a difícil arte de
trabalhar bem com outros seres humanos.
O
que Hinton entendeu mal é a natureza do trabalho especializado. É que um
radiologista não é um algoritmo que detecta anomalias em radiografias. Ele
conversa com pacientes ansiosos, integra resultados de imagens com histórico
clínico e sintomas, discute casos complexos com oncologistas e cirurgiões,
decide quando uma sombra ambígua merece investigação ou observação. A
interpretação de imagens é um componente do trabalho, não sua totalidade.
O
mesmo acontece com o design. A IA generativa pode criar logotipos, gerar
layouts, sugerir paletas de cores. Mas não pode conversar com um fundador para
entender a história de vida contida na criação daquela marca, não pode navegar
as tensões entre diferentes stakeholders e muito menos decidir quando quebrar
as regras se o contexto exigir ousadia.
O
erro é supor que trabalho especializado é a execução de tarefas técnicas.
Tarefas técnicas são frequentemente a parte mais automatizável. O que resta é o
que sempre foi exclusivo do humano: julgamento sob incerteza, navegação de
complexidade social, imaginação aplicada a problemas mal definidos. E é isso
que vai se tornar cada vez mais valioso.
O
investidor norte-americano Balaji Srinivasan capturou bem
essa dinâmica numa observação: “a IA não tira seu emprego, ela permite que você
faça qualquer trabalho. Porque ela permite que você seja um designer de UX
aceitável, um animador de efeitos especiais decente, e assim por diante. Mas
isso não significa, necessariamente, que você possa fazer esse trabalho bem,
pois um especialista é frequentemente necessário para o refinamento."
A
IA democratiza a competência básica, mas aumenta o valor da maestria do craft.
O critério e o repertório desenvolvidos ao longo de anos de trabalho, a
capacidade de curadoria e o gosto único vão se tornar cada vez mais importantes
para diferenciar uma marca de todas as outras. Qualquer um pode agora gerar um
logo, mas poucos podem criar uma identidade visual que ressoe profundamente com
uma audiência específica e se destaque de todos os outros.
A
pergunta, então, não é "O que a IA pode fazer em vez de mim?", mas
"Como a IA pode amplificar o que faço de melhor?"
Voltando
aos radiologistas: a USP desenvolveu o RadVid-19, que utiliza soluções de
inteligência artificial para auxiliar os profissionais no diagnóstico e combate
à Covid-19. Eles não foram substituídos: foram equipados com uma ferramenta que
os torna mais eficazes. A tecnologia não resolveu o problema de falta de
radiologistas em locais brasileiros, ela tornou cada radiologista mais capaz.
O
relatório da Autodesk sugere que isso não é exceção, mas padrão. À medida que a
IA se torna mais capaz, a demanda por habilidades humanas aumenta. O aparente
paradoxo de Hinton vem da crença de que a automação substitui todo o trabalho
humano, em vez de complementá-lo. Se a IA é boa em executar tarefas definidas e
repetitivas, então os humanos se tornam mais valiosos naquilo que não pode ser
reduzido a elas: criatividade, empatia, liderança e a capacidade de fazer
perguntas que ninguém ainda fez.
Hinton,
contudo, estava certo sobre uma coisa: a IA é transformadora. Ele errou
apenas sobre a natureza da transformação. Não é uma história de obsolescência
humana, mas de capacidades humanas sendo reavaliadas. O que antes era
considerado "soft skill" - design, comunicação, colaboração -, num
mundo onde o custo da capacidade técnica cai a zero, converte-se em hard skill.
Difíceis de desenvolver, difíceis de automatizar, e cada vez mais
indispensáveis.
Os
vencedores neste cenário não serão aqueles com mais IA, mas aqueles que saibam
integrar máquinas sob o comando de a humanos que julgam, imaginam e se
importam. É uma lição que um radiologista poderia ter ensinado a Hinton, se ele
tivesse perguntado antes de fazer sua previsão. Às vezes, a melhor forma de ver
o futuro é conversar com as pessoas que estão fazendo este trabalho no
presente.
Rogério Martins - diretor de Criação da Cadastra, empresa global especialista em serviços tecnológicos aplicados ao marketing para fazer as empresas crescerem.
Nenhum comentário:
Postar um comentário