Especialistas em
cibersegurança apontam que proteção efetiva precisa de controles técnicos,
educação digital e maior responsabilidade das plataformas
Freepik
A entrada de crianças e adolescentes no
ambiente digital acontece cada vez mais cedo, mas a proteção não acompanha esse
ritmo. Uma pesquisa realizada pela Unico em parceria com a Ipsos revelou que mais da metade dos adolescentes brasileiros já
tiveram contato com conteúdos inadequados na internet, um indicativo
claro de que o ecossistema digital atual falha ao lidar com públicos em
formação.
No mês em que disseminamos o uso consciente
da internet, especialmente nesta faixa etária, especialistas alertam que o
problema vai muito além de episódios isolados ou do tipo de conteúdo acessado.
“Trata-se de um ambiente desenhado para
engajamento contínuo, onde verificação de idade frágil, algoritmos de
recomendação e ausência de governança digital ampliam a exposição de jovens a
riscos que eles ainda não estão preparados para enfrentar”, afirma Jardel
Torres, sócio e diretor comercial (CCO) da OSTEC, empresa referência nacional
em cibersegurança.
“O ambiente digital foi construído para
adultos, mas passou a ser ocupado massivamente por crianças e adolescentes. Sem
ajustes estruturais de segurança, isso cria uma assimetria perigosa entre
tecnologia sofisticada e usuários vulneráveis”, complementa Torres.
Conteúdo inadequado é só a parte visível do problema
A exposição a materiais impróprios costuma
ser o primeiro alerta, mas está longe de ser o único risco. Atualmente,
crianças e adolescentes também se tornam alvos frequentes de engenharia social,
assédio digital, golpes disfarçados de jogos ou desafios virais e coleta
indevida de dados pessoais. Com menos repertório crítico e maior propensão ao
compartilhamento, esse público acaba ampliando sua própria superfície de
ataque, muitas vezes sem perceber.
“O jovem confia mais rápido, compartilha mais
informações e questiona menos o que aparece na tela. Isso o transforma em um
alvo estratégico para práticas maliciosas que passam despercebidas pelos
mecanismos tradicionais de segurança”, explica Jardel Torres.
Nos últimos meses, episódios que ganharam
grande repercussão nas redes sociais como o caso exposto pelo influenciador
Felca, envolvendo a adultização e exposição indevida de menores, ajudaram a
trazer o tema para o debate público. No entanto, o especialista afirma que
esses casos apenas iluminam um problema que já existia de forma silenciosa no
ambiente digital.
“Quando um episódio viraliza, ele chama
atenção para algo que vinha acontecendo sem visibilidade. A maioria dos riscos
não vira manchete, mas impacta diretamente o desenvolvimento emocional,
psicológico e digital de crianças e adolescentes”, avalia o executivo.
Outro ponto crítico é a facilidade com que
menores burlam restrições de idade em plataformas digitais. A autodeclaração,
ainda amplamente adotada, se mostra insuficiente para impedir o acesso a
ambientes inadequados e transfere a responsabilidade quase integralmente para
famílias e escolas.
Segurança digital precisa mudar de lógica
De acordo com Jardel, enfrentar esse cenário
exige uma mudança clara de abordagem: sair da reação a incidentes e adotar
segurança digital desde a concepção das plataformas, especialmente quando o
público inclui menores de idade. Isso envolve:
- Tecnologias de cibersegurança mais
inteligentes, capazes de identificar padrões de risco e comportamentos
suspeitos;
- Mecanismos mais robustos de verificação etária
e governança digital;
- Educação digital contínua, que prepara jovens
para navegar com mais consciência e senso crítico.
“Não se trata de limitar o acesso à
tecnologia, mas de torná-la responsável. Se o ambiente digital continuar
falhando na proteção dos mais jovens, estaremos formando uma geração altamente
conectada e estruturalmente vulnerável”, conclui Jardel Torres.
Nenhum comentário:
Postar um comentário