Vi um vídeo da Alysa Liu (patinadora olímpica de 20 anos) dizendo:
'I love struggling, actually. It makes me
feel alive.' ('Na verdade, eu adoro me esforçar. Isso me faz sentir viva.')
E minha primeira reação foi: É ISSO! Eu
também amo me esforçar. Me sinto viva fazendo. Lutando. Construindo.
Mas aí... parei.
Será que isso não é exatamente a armadilha?
O que é strugglemaxxing
O termo significa maximizar (“maxxing")
o esforço/luta (“struggle"). Esse conceito fica bem evidente em épocas
como Olimpíadas, onde vemos os atletas mais esforçados do mundo conquistando
medalhas, realizando sonhos. Quase que automaticamente, nossa admiração pelo
esforço aumenta.
Perceba que maximizar o esforço não significa
apenas aceitar as dificuldades que surgem naturalmente na sua vida, mas sim
buscar elas ativamente.
'Na verdade, eu adoro me esforçar. Isso me
faz sentir viva.’ -- A atleta aqui encontra prazer no atrito. Sentido no
difícil.
Por que isso viraliza agora? Por causa de
todo o contexto cultural em que estamos metidos.
De um lado, é uma reação ao “quiet quitting”
(a cultura de trabalhar o mínimo possível no seu emprego em vez de “vestir a
camisa” e ir além de suas obrigações em busca de subir na empresa), e à
história do equilíbrio entre vida e trabalho e do “faça menos". De outro
lado, temos os atletas olímpicos como ícones de dedicação extrema, ídolos a
serem modelados.
Admiramos o esforço versus a vida fácil e
confortável, e esse esforço nos parece um antídoto ao tédio moderno de uma vida
hiperconectada mas vazia.
Pensando assim, parece até que o tal do
struggle, o esforço seria um caminho para o sentido...
Identificação + insight
Eu também sinto muito forte esse prazer do
esforço. Me sinto viva fazendo e me identifiquei visceralmente com a atleta.
Sinto prazer no trabalho difícil, sinto sentido no esforço, vitalidade no
atrito.
E Viktor Frankl aprovaria isso, do ponto de
vista do sentido no sofrimento escolhido.
Mas como diria João Kléber, páaara para para
para, para tudo aê!
É exatamente aí que eu caio no grande looping
do fazer para ser. (uma armadilha comum aos autistas nível 1 de suporte, como
venho descobrindo)
Quem sou eu sem o fazer?
Se eu ficasse inválida, minha vida ainda
teria sentido?
Intelectualmente, sei que sim.
Mas visceralmente... ainda não sinto. Pra mim
ainda é muito difícil dissociar auto-valor da capacidade de gerar valor pro outro.
Essa é a minha armadilha, e eu sinto que pode ser a de muita gente.
O esforço saudável v. patológico
Onde o “struggle” é saudável:
Em Frankl, temos o sentido no sofrimento enquanto um sofrimento inevitável
ganha sentido. Ele diz: “Não podemos evitar sofrimento. Mas podemos escolher
como responder". No sofrimento que lhe foi imposto em Auschwitz, Frankl
escolhe dar sentido (ajudar outros, manter dignidade, escrever livro
mentalmente).
Para Mihaly Csikszentmihalyi: Flow = desafio
adequado (nem fácil demais, nem impossível).
Para artistas e atletas, temos o prazer no
processo de dominar a sua arte.
Em uma criança aprendendo a andar, que cai
mil vezes, levanta e cai de novo, temos prazer na tentativa.
Em todos esses exemplos, temos esforço como
MEIO (não fim). Isso significa um esforço conectado com um PROPÓSITO
intrínseco.
Aqui, se escolhe o desafio difícil porque ele
gera flow/sentido/vitalidade. Como quando a Alysa Liu treina patinação 6h por
dia por escolha, cai, se machuca, cansa, mas ama o processo. Não é sobre a
medalha (o fim), é sobre dominar o impossível (o meio). Ou seja, é uma escolha
consciente do desafio.
Onde o esforço é patológico:
No Fazer pra ser, onde meu auto-valor se torna igual a minha produtividade
No Servir pra existir, onde só tenho valor se gero valor pro outro
No esforço como identidade, onde "Eu sou quem luta" (não quem É)
No vício em esforço, onde não consigo parar (burnout glorificado)
Na cultura hustle ou cultura da correria, onde temos o esforço performático e o
Instagram do sofrimento
O que esses exemplos têm em comum é o
struggle como FIM e não como meio. E isso é igual a esforço desconectado de
sentido real.
A minha pergunta central
Quem sou eu sem o fazer?
Se eu ficasse inválida, não pudesse fazer
mais nada, minha vida ainda teria sentido?
Taí uma pergunta existencial de primeira
grandeza.
E eu sei a resposta intelectualmente: “Sim,
existem pessoas que não podem “fazer” e suas vidas têm sentido.”
Mas, emocionalmente, visceralmente, eu ainda
não SINTO isso sobre mim mesma. Uma bela dissociação entre saber (mente) e
sentir (corpo/alma).
E dá pra entender por que isso é tão difícil pra mim, no contexto da minha vida: advogada por 15 anos (produtividade = valor), larguei tudo em 2012, construí um negócio do zero (fazer = sobrevivência), passei a fazer 7 dígitos/ano (sucesso = quanto produzo). Aí esse ano largo os 7 dígitos garantidos pra seguir a minha Verdade, e agora? groundlessness (sem o fazer que gera dinheiro = quem sou?).
Eu estou há 49 anos condicionada: eu sou o
que faço.
Desfazer isso não é rápido. Não basta só
insight terapêutico. É trabalho para desprogramação somática, emocional, de
identidade mesmo.
O strugglemaxxing versão patológica
(armadilha onde eu caio feito patinha) é quando buscamos o esforço para validar
a existência.
“Se não to lutando/fazendo/produzindo,
não tenho valor".
Aí você não consegue relaxar na praia, porque
sente culpa. Não consegue tirar férias, porque sente que não está gerando
valor. O groundlessness que eu to vivendo agora passa a ser um terror, porque
“se não sei como monetizar, não sirvo pra nada".
Aqui, o struggle passa a ser prova de valor,
e não meio de sentido. E é aí que as coisas complicam.
IA e futuro do trabalho
Aí minha mente viajandona já pula para "Se IA tirar nosso 'fazer', quem seremos?” E essa pergunta não é futura. É AGORA. Já tá acontecendo, e só vai aumentar.
Mas a minha resposta é que a IA não vai tirar o esforço. Ela vai, sim, revelar
qual esforço é real versus qual é só distração ou performance.
O que a IA vai eliminar?
Esforço burocrático (preencher planilhas, responder emails genéricos)
Esforço repetitivo (tarefas que robô faz melhor)
Esforço cognitivo básico (pesquisa, sumarização, tradução)
Ou seja, esforço que NÃO gera sentido (só
cansa).
Mas eu acredito que a IA não vai eliminar:
Esforço existencial (quem sou? o que importa?)
Esforço relacional (amor, amizade, comunidade)
Esforço criativo (arte, filosofia, sentido)
Esforço somático (yoga, breathwork, presença no corpo)
Esforço de SER (não fazer)
Ou seja, esforço que GERA sentido
A IA vai forçar humanidade a confrontar:
"Se eu não preciso 'fazer' pra
sobreviver... quem sou?"
Exatamente a pergunta que eu to me fazendo
agora e te provocando a fazer por aí.
Estamos adiantados. E o meu groundlessness
atual (que pelas respostas vi que está acontecendo com muito mais gente) é um
treino pro futuro pós-IA.
Mas e aí…o strugglemaxxing é bom ou ruim?
Depende.
Se o esforço for igual a um caminho pro
sentido, eu acredito que é bom.
Se o esforço for igual a prova de valor, pra
mim é uma grande armadilha, na qual eu quero parar de cair.
E você? Ama o esforço porque te faz viva, ou
porque prova que você importa?
Responde. Quero saber.
Com amor,
Nenhum comentário:
Postar um comentário