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sábado, 28 de fevereiro de 2026

Quando o esforço deixa de ser sentido e vira vício

Vi um vídeo da Alysa Liu (patinadora olímpica de 20 anos) dizendo:

'I love struggling, actually. It makes me feel alive.' ('Na verdade, eu adoro me esforçar. Isso me faz sentir viva.')


E minha primeira reação foi: É ISSO! Eu também amo me esforçar. Me sinto viva fazendo. Lutando. Construindo.


Mas aí... parei.


Será que isso não é exatamente a armadilha?

 

O que é strugglemaxxing


O termo significa maximizar (“maxxing") o esforço/luta (“struggle"). Esse conceito fica bem evidente em épocas como Olimpíadas, onde vemos os atletas mais esforçados do mundo conquistando medalhas, realizando sonhos. Quase que automaticamente, nossa admiração pelo esforço aumenta.


Perceba que maximizar o esforço não significa apenas aceitar as dificuldades que surgem naturalmente na sua vida, mas sim buscar elas ativamente. 

'Na verdade, eu adoro me esforçar. Isso me faz sentir viva.’ -- A atleta aqui encontra prazer no atrito. Sentido no difícil. 


Por que isso viraliza agora? Por causa de todo o contexto cultural em que estamos metidos. 


De um lado, é uma reação ao “quiet quitting” (a cultura de trabalhar o mínimo possível no seu emprego em vez de “vestir a camisa” e ir além de suas obrigações em busca de subir na empresa), e à história do equilíbrio entre vida e trabalho e do “faça menos". De outro lado, temos os atletas olímpicos como ícones de dedicação extrema, ídolos a serem modelados. 


Admiramos o esforço versus a vida fácil e confortável, e esse esforço nos parece um antídoto ao tédio moderno de uma vida hiperconectada mas vazia. 

Pensando assim, parece até que o tal do struggle, o esforço seria um caminho para o sentido... 

 

Identificação + insight


Eu também sinto muito forte esse prazer do esforço. Me sinto viva fazendo e me identifiquei visceralmente com a atleta. Sinto prazer no trabalho difícil, sinto sentido no esforço, vitalidade no atrito. 


E Viktor Frankl aprovaria isso, do ponto de vista do sentido no sofrimento escolhido. 


Mas como diria João Kléber, páaara para para para, para tudo aê!


É exatamente aí que eu caio no grande looping do fazer para ser. (uma armadilha comum aos autistas nível 1 de suporte, como venho descobrindo)


Quem sou eu sem o fazer?


Se eu ficasse inválida, minha vida ainda teria sentido?


Intelectualmente, sei que sim.


Mas visceralmente... ainda não sinto. Pra mim ainda é muito difícil dissociar auto-valor da capacidade de gerar valor pro outro. Essa é a minha armadilha, e eu sinto que pode ser a de muita gente. 

 

O esforço saudável v. patológico


Onde o “struggle” é saudável:

Em Frankl, temos o sentido no sofrimento enquanto um sofrimento inevitável ganha sentido. Ele diz: “Não podemos evitar sofrimento. Mas podemos escolher como responder". No sofrimento que lhe foi imposto em Auschwitz, Frankl escolhe dar sentido (ajudar outros, manter dignidade, escrever livro mentalmente). 

Para Mihaly Csikszentmihalyi: Flow = desafio adequado (nem fácil demais, nem impossível). 


Para artistas e atletas, temos o prazer no processo de dominar a sua arte. 

Em uma criança aprendendo a andar, que cai mil vezes, levanta e cai de novo, temos prazer na tentativa. 


Em todos esses exemplos, temos esforço como MEIO (não fim). Isso significa um esforço conectado com um PROPÓSITO intrínseco.

 

Aqui, se escolhe o desafio difícil porque ele gera flow/sentido/vitalidade. Como quando a Alysa Liu treina patinação 6h por dia por escolha, cai, se machuca, cansa, mas ama o processo. Não é sobre a medalha (o fim), é sobre dominar o impossível (o meio). Ou seja, é uma escolha consciente do desafio. 

Onde o esforço é patológico:


No Fazer pra ser, onde meu auto-valor se torna igual a minha produtividade 


No Servir pra existir, onde só tenho valor se gero valor pro outro


No esforço como identidade, onde "Eu sou quem luta" (não quem É)


No vício em esforço, onde não consigo parar (burnout glorificado)


Na cultura hustle ou cultura da correria, onde temos o esforço performático e o Instagram do sofrimento


O que esses exemplos têm em comum é o struggle como FIM e não como meio. E isso é igual a esforço desconectado de sentido real.

 

A minha pergunta central


Quem sou eu sem o fazer?


Se eu ficasse inválida, não pudesse fazer mais nada, minha vida ainda teria sentido?


Taí uma pergunta existencial de primeira grandeza.


E eu sei a resposta intelectualmente: “Sim, existem pessoas que não podem “fazer” e suas vidas têm sentido.”


Mas, emocionalmente, visceralmente, eu ainda não SINTO isso sobre mim mesma. Uma bela dissociação entre saber (mente) e sentir (corpo/alma).


E dá pra entender por que isso é tão difícil pra mim, no contexto da minha vida: advogada por 15 anos (produtividade = valor), larguei tudo em 2012, construí um negócio do zero (fazer = sobrevivência), passei a fazer 7 dígitos/ano (sucesso = quanto produzo). Aí esse ano largo os 7 dígitos garantidos pra seguir a minha Verdade, e agora? groundlessness (sem o fazer que gera dinheiro = quem sou?). 

 


Eu estou há 49 anos condicionada: eu sou o que faço. 


Desfazer isso não é rápido. Não basta só insight terapêutico. É trabalho para desprogramação somática, emocional, de identidade mesmo. 


O strugglemaxxing versão patológica (armadilha onde eu caio feito patinha) é quando buscamos o esforço para validar a existência. 


“Se não to  lutando/fazendo/produzindo, não tenho valor". 


Aí você não consegue relaxar na praia, porque sente culpa. Não consegue tirar férias, porque sente que não está gerando valor. O groundlessness que eu to vivendo agora passa a ser um terror, porque “se não sei como monetizar, não sirvo pra nada". 


Aqui, o struggle passa a ser prova de valor, e não meio de sentido. E é aí que as coisas complicam. 



IA e futuro do trabalho


Aí minha mente viajandona já pula para "Se IA tirar nosso 'fazer', quem seremos?” E essa pergunta não é futura. É AGORA. Já tá acontecendo, e só vai aumentar.


Mas a minha resposta é que a IA não vai tirar o esforço. Ela vai, sim, revelar qual esforço é real versus qual é só distração ou performance.


O que a IA vai eliminar? 


Esforço burocrático (preencher planilhas, responder emails genéricos)


Esforço repetitivo (tarefas que robô faz melhor)


Esforço cognitivo básico (pesquisa, sumarização, tradução)


Ou seja, esforço que NÃO gera sentido (só cansa).



Mas eu acredito que a IA não vai eliminar: 


Esforço existencial (quem sou? o que importa?)


Esforço relacional (amor, amizade, comunidade)


Esforço criativo (arte, filosofia, sentido)


Esforço somático (yoga, breathwork, presença no corpo)


Esforço de SER (não fazer)


Ou seja, esforço que GERA sentido


A IA vai forçar humanidade a confrontar:


"Se eu não preciso 'fazer' pra sobreviver... quem sou?"


Exatamente a pergunta que eu to me fazendo agora e te provocando a fazer por aí.


Estamos adiantados. E o meu groundlessness atual (que pelas respostas vi que está acontecendo com muito mais gente) é um treino pro futuro pós-IA.

 

Mas e aí…o strugglemaxxing é bom ou ruim?


Depende.


Se o esforço for igual a um caminho pro sentido, eu acredito que é bom.


Se o esforço for igual a prova de valor, pra mim é uma grande armadilha, na qual eu quero parar de cair.


E você? Ama o esforço porque te faz viva, ou porque prova que você importa?

Responde. Quero saber.



Com amor,

 Paula Abreu


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