Por trás das
canetas emagrecedoras, nem tudo é positivo!
A busca por resultados imediatos nunca foi tão
intensa, e o emagrecimento rápido entrou definitivamente nessa lógica. A
promessa é tentadora: menos fome, menos peso na balança e transformações
visíveis em tempo recorde. As chamadas canetas emagrecedoras, como o Mounjaro,
deixaram de ser um tema restrito aos consultórios médicos e passaram a circular
nas redes sociais de famosos, nos grupos de WhatsApp e nas conversas do dia a
dia.
Mas, junto com os quilos a menos, começaram a
surgir relatos que chamam atenção. Um deles ganhou até nome: o chamado “efeito
Mounjaro”. Trata-se da perda acelerada e desigual de gordura corporal sendo
acentuadamente rápida em coxas, glúteos, pernas, braços e face, com manutenção
da gordura abdominal, alterando o equilíbrio visual do corpo.
O emagrecimento é tão rápido que o rosto também
muda antes que o restante do corpo consiga acompanhar. Essa alteração rápida
acentua as silhuetas androgênicas mudando a percepção corporal de algumas
mulheres que se veem com membros inferiores muito menores do que o tronco, às
vezes, pela primeira vez na vida.
E o que vemos por debaixo das roupas, agora
frouxas, são corpos reduzidos de volume, porém, deformados por flacidez e perda
de massa muscular. Este efeito poderia ser minimizado com acompanhamento médico
e estratégias voltadas à preservação da massa magra, através do exercício
físico direcionado.
Por trás dessa mudança estética existe uma resposta
fisiológica importante. O corpo não interpreta o emagrecimento abrupto como
algo positivo. Ao contrário, entra em um estado de alerta, semelhante a um modo
de sobrevivência. Segundo Clarissa Rios, médica, educadora física e CEO da
DoctorFit, o problema não está exatamente no medicamento, mas na forma como ele
é utilizado.
“Esses medicamentos funcionam, sim. Mas, quando
usados de maneira isolada, sem ajuste de alimentação, treino e reposição
hormonal, o organismo entra em desequilíbrio, potencializando o reganho de
peso, o famoso “efeito sanfona”, explica.
Nesse cenário, o corpo passa a economizar energia e
prioriza o que considera indispensável para sobreviver. E, infelizmente, o
músculo costuma ser o primeiro a ser sacrificado. A perda de massa muscular não
afeta apenas a estética, compromete força, metabolismo, saúde hormonal e
funcionalidade.
“O músculo exige energia para existir. Quando o
corpo entende que está em risco, ele se livra do músculo primeiro, impactando
diretamente a disposição, o metabolismo e até a forma como essa pessoa vai
envelhecer”, alerta Clarissa.
As consequências aparecem rapidamente. Um corpo
mais fraco, metabolismo mais lento, queda de desempenho físico e aumenta a
probabilidade do temido efeito rebote. É frequente a recuperação o peso
perdido, mas, infelizmente, com mais gordura e menos músculo. Sem falar no
impacto visual, flacidez, rosto mais fundo e uma aparência envelhecida, efeitos
que contrastam com a ideia inicial de “resultado positivo”.
O problema, portanto, não é emagrecer, mas o
caminho escolhido para isso. Emagrecimento não deveria significar perda de
saúde. “O músculo é um dos maiores aliados da longevidade, do equilíbrio
hormonal e da qualidade de vida. A balança pode até baixar, mas o corpo cobra
essa conta depois. Emagrecer sem preservar músculo não é evolução, é um sinal
de alerta”, reforça a médica.
Diante disso, a pergunta é: vale a pena correr o
risco? “Se a decisão pelo uso das canetas for tomada de forma consciente, ela
precisa vir acompanhada de uma estratégia completa: alimentação bem
estruturada, treino de força e prescrição médica individualizada”, orienta a
especialista.
Vivemos a era do imediatismo. Queremos tudo rápido,
inclusive o corpo “ideal”. Mas o organismo não responde no ritmo das redes
sociais. Padrões estéticos irreais empurram muitas pessoas para soluções que
parecem eficazes no curto prazo, mas que podem ser silenciosamente prejudiciais
no longo prazo. “Emagrecer deveria ser um projeto de saúde, não uma corrida
contra o espelho”, conclui Clarissa.
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