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sábado, 31 de janeiro de 2026

O palco como resposta aos impasses da sala de aula

Artes cênicas integradas ao currículo ajudam crianças e jovens a ampliarem repertório, organizar a própria voz e construir vínculos na escola 

 

Em um momento em que dados recentes do IBGE, do Unicef e de institutos de pesquisa educacional apontam crescimento do tempo de crianças e adolescentes diante de telas, dificuldades de comunicação presencial e desafios nas relações entre pares, a escola volta a ser cobrada por formar sujeitos capazes de escutar, argumentar e se posicionar. Nesse contexto, práticas que articulam corpo, linguagem e convivência ganham centralidade no debate educacional, especialmente aquelas que ampliam repertório cultural e ajudam estudantes a construir uma relação mais consciente consigo mesmos e com o mundo.

É a partir dessa compreensão que uma escola de São Caetano do Sul estruturou um currículo que integra conhecimento acadêmico, formação social e desenvolvimento crítico por meio das artes cênicas. Na Escola Villare, o teatro acompanha os alunos da educação infantil ao ensino médio e funciona como uma linguagem que atravessa a experiência escolar, organizando modos de aprender, conviver e se expressar.

O trabalho se desenvolve em processos contínuos. “O ponto de partida é sempre o convite”, afirma Elaine Ferreira, professora de artes cênicas da escola. A metodologia se ancora no brincar e no jogo, com foco na construção de vínculo e presença. Desde os primeiros anos, os estudantes se aproximam da linguagem teatral como espaço de experimentação, curiosidade e escuta.

Ao longo do tempo, a cena passa a assumir outras camadas. Corpo, voz e silêncio se transformam em ferramentas para formular ideias, investigar conflitos e sustentar posições diante do coletivo. As investigações não seguem um roteiro único. Cada grupo constrói suas próprias perguntas, de acordo com o momento vivido.

Em um coletivo numeroso do ensino médio, formado por alunos do 9º ano à 3ª série, a necessidade era reorganizar a escuta. A provocação escolhida foi uma palavra simples: silêncio. A partir dela, os estudantes pesquisaram poesia, música e literatura, escreveram coletivamente e criaram uma cena autoral.

Em outro grupo, atravessado por relatos de ansiedade e cansaço, a pergunta lançada foi o que é terapia. O processo deu origem a vídeos, personagens e cenas que ajudaram os alunos a elaborarem medos e tensões. Em alguns casos, o percurso se encerra no próprio processo. “Enquanto processo, é saudável”, diz Elaine.

Conteúdos de outras áreas aparecem com frequência na cena. Temas de História, Ciências, Língua Portuguesa ou Matemática surgem como matéria-prima para reflexão. O humor ocupa lugar central nesse percurso, usado pelos estudantes para questionar conceitos, brincar com ideias e reorganizar experiências.

Os temas contemporâneos emergem das inquietações dos próprios grupos e passam por um cuidado rigoroso. Antes de levar questões como alcoolismo, violência, pobreza ou manipulação política ao palco, os alunos pesquisam, leem reportagens e discutem contextos e limites de representação. Em uma produção recente, estudantes articularam pesquisa sobre a ditadura militar com vídeos autorais, criando sobreposições entre imagens históricas e o presente.

A centralidade do corpo atravessa todo o trabalho. Ao longo dos anos, os estudantes desenvolvem segurança para falar em público, organizar ideias e escutar o outro. Professores de outras áreas observam mudanças em alunos antes reservados. As famílias relatam avanços na autonomia, na confiança e na forma como os filhos se comunicam.

Nos momentos de transição entre segmentos, o teatro atua como espaço de pertencimento. O jogo favorece a construção de vínculos e o reconhecimento do grupo como coletivo, criando um ambiente em que experimentar faz parte do aprendizado.

O que se vê no palco resulta de um trabalho contínuo. A cada ano, os estudantes ampliam repertório, refinam a expressão e aprofundam perguntas. Ex-alunos relatam segurança em apresentações acadêmicas, entrevistas e processos seletivos. “O teatro ajuda a formar pessoas que se entendem melhor e conseguem

 

Cecilia Galvão - Jornalista


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