Banalização do termo pode gerar
confusão; entenda o que a psicologia e a psicanálise definem como trauma
psíquico
Nos últimos anos, a palavra “trauma” se popularizou nas redes
sociais, em conversas cotidianas e até em memes. Situações desagradáveis,
frustrações comuns ou conflitos do dia a dia passaram a ser nomeados como
traumáticos. Mas, para a psicologia e a psicanálise, trauma não é sinônimo de
sofrimento intenso nem de um simples susto emocional. O conceito é mais
específico, complexo e exige critérios claros.
De forma técnica, trauma é uma experiência que foi intensa demais
para a pessoa naquele momento e que não pôde ser compreendida, elaborada ou
integrada emocionalmente. Ou seja, não se trata apenas do que aconteceu, mas da
incapacidade psíquica de processar o que foi vivido. Quando essa elaboração
falha, a experiência permanece “presa”, retornando em forma de sintomas,
bloqueios, angústias ou padrões de repetição.
Sigmund Freud, fundador da psicanálise, já afirmava que o trauma
não está somente no fato externo, mas no excesso de excitação que ele provoca
no aparelho psíquico. Quando a pessoa não consegue nomear, simbolizar ou dar
sentido ao ocorrido, esse excesso se transforma em sofrimento duradouro. É por
isso que duas pessoas podem passar pela mesma situação e reagir de formas
completamente diferentes: para uma, pode ser apenas uma lembrança difícil; para
outra, pode se constituir como trauma.
Essa diferença ajuda a entender por que nem todo evento doloroso é
necessariamente traumático. Existem situações chamadas de “traumatogênicas”, ou
seja, que têm potencial para gerar trauma, mas isso não é automático. Se a
experiência encontra espaço para ser falada, compartilhada e compreendida, há
maiores chances de integração emocional e menor risco de se transformar em uma
ferida psíquica persistente.
Segundo a psicóloga Blenda Oliveira, doutora em Psicologia pela
PUC-SP, o uso indiscriminado da palavra pode gerar confusão conceitual. “Nem
toda experiência difícil é um trauma. Para que algo se constitua como trauma, é
preciso que a pessoa não consiga elaborar emocionalmente o que viveu, que
aquilo fique sem nome, sem sentido, sem possibilidade de integração”, afirma.
A profissional explica que a forma como o sujeito lida com o
acontecimento é determinante. “Duas pessoas podem atravessar a mesma situação:
uma consegue falar, simbolizar, compartilhar; a outra se cala e fica sozinha
com aquilo. É essa solidão psíquica que muitas vezes transforma a experiência
em trauma”, diz. A ideia dialoga com autores contemporâneos, como o médico
Gabor Maté, que relaciona o trauma à falta de conexão e validação emocional.
Em outras palavras, o trauma se fortalece no isolamento. Crianças
e adultos que vivenciam situações de abuso, negligência ou medo intenso sem uma
rede de apoio tendem a carregar marcas mais profundas. Muitas vezes, o relato
só aparece décadas depois, quando finalmente existe segurança emocional para
falar sobre o que aconteceu.
A psicóloga alerta ainda que confundir trauma com qualquer
desconforto cotidiano pode ter efeitos indesejados. Embora seja importante
validar sentimentos, a banalização do termo pode esvaziar a gravidade de
experiências realmente devastadoras e até patologizar frustrações que fazem
parte da vida. Sentir medo, susto, tristeza ou decepção não significa,
necessariamente, estar traumatizado.
Diferenciar essas experiências é fundamental para o cuidado em
saúde mental. Um episódio invasivo ou violento pode provocar medo intenso e
ainda assim ser elaborado ao longo do tempo, especialmente quando há apoio
emocional. Já o trauma se instala quando a vivência permanece sem tradução
simbólica, como algo que não encontra palavras nem sentido.
Em tempos de excesso de informações e diagnósticos rápidos, falar com precisão sobre o tema se torna um gesto de responsabilidade. Reconhecer que nem tudo é trauma não diminui a dor de ninguém, mas ajuda a compreender melhor o sofrimento e a buscar o tipo de cuidado adequado.
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