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sábado, 31 de janeiro de 2026

Psicóloga explica por que nem todo sofrimento pode ser chamado de trauma

Banalização do termo pode gerar confusão; entenda o que a psicologia e a psicanálise definem como trauma psíquico
 

Nos últimos anos, a palavra “trauma” se popularizou nas redes sociais, em conversas cotidianas e até em memes. Situações desagradáveis, frustrações comuns ou conflitos do dia a dia passaram a ser nomeados como traumáticos. Mas, para a psicologia e a psicanálise, trauma não é sinônimo de sofrimento intenso nem de um simples susto emocional. O conceito é mais específico, complexo e exige critérios claros. 

De forma técnica, trauma é uma experiência que foi intensa demais para a pessoa naquele momento e que não pôde ser compreendida, elaborada ou integrada emocionalmente. Ou seja, não se trata apenas do que aconteceu, mas da incapacidade psíquica de processar o que foi vivido. Quando essa elaboração falha, a experiência permanece “presa”, retornando em forma de sintomas, bloqueios, angústias ou padrões de repetição. 

Sigmund Freud, fundador da psicanálise, já afirmava que o trauma não está somente no fato externo, mas no excesso de excitação que ele provoca no aparelho psíquico. Quando a pessoa não consegue nomear, simbolizar ou dar sentido ao ocorrido, esse excesso se transforma em sofrimento duradouro. É por isso que duas pessoas podem passar pela mesma situação e reagir de formas completamente diferentes: para uma, pode ser apenas uma lembrança difícil; para outra, pode se constituir como trauma. 

Essa diferença ajuda a entender por que nem todo evento doloroso é necessariamente traumático. Existem situações chamadas de “traumatogênicas”, ou seja, que têm potencial para gerar trauma, mas isso não é automático. Se a experiência encontra espaço para ser falada, compartilhada e compreendida, há maiores chances de integração emocional e menor risco de se transformar em uma ferida psíquica persistente. 

Segundo a psicóloga Blenda Oliveira, doutora em Psicologia pela PUC-SP, o uso indiscriminado da palavra pode gerar confusão conceitual. “Nem toda experiência difícil é um trauma. Para que algo se constitua como trauma, é preciso que a pessoa não consiga elaborar emocionalmente o que viveu, que aquilo fique sem nome, sem sentido, sem possibilidade de integração”, afirma. 

A profissional explica que a forma como o sujeito lida com o acontecimento é determinante. “Duas pessoas podem atravessar a mesma situação: uma consegue falar, simbolizar, compartilhar; a outra se cala e fica sozinha com aquilo. É essa solidão psíquica que muitas vezes transforma a experiência em trauma”, diz. A ideia dialoga com autores contemporâneos, como o médico Gabor Maté, que relaciona o trauma à falta de conexão e validação emocional. 

Em outras palavras, o trauma se fortalece no isolamento. Crianças e adultos que vivenciam situações de abuso, negligência ou medo intenso sem uma rede de apoio tendem a carregar marcas mais profundas. Muitas vezes, o relato só aparece décadas depois, quando finalmente existe segurança emocional para falar sobre o que aconteceu. 

A psicóloga alerta ainda que confundir trauma com qualquer desconforto cotidiano pode ter efeitos indesejados. Embora seja importante validar sentimentos, a banalização do termo pode esvaziar a gravidade de experiências realmente devastadoras e até patologizar frustrações que fazem parte da vida. Sentir medo, susto, tristeza ou decepção não significa, necessariamente, estar traumatizado. 

Diferenciar essas experiências é fundamental para o cuidado em saúde mental. Um episódio invasivo ou violento pode provocar medo intenso e ainda assim ser elaborado ao longo do tempo, especialmente quando há apoio emocional. Já o trauma se instala quando a vivência permanece sem tradução simbólica, como algo que não encontra palavras nem sentido. 

Em tempos de excesso de informações e diagnósticos rápidos, falar com precisão sobre o tema se torna um gesto de responsabilidade. Reconhecer que nem tudo é trauma não diminui a dor de ninguém, mas ajuda a compreender melhor o sofrimento e a buscar o tipo de cuidado adequado.

 

Blenda Oliveira - doutora em psicologia pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP) e psicanalista pela Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP). É autora do livro Fazendo as pazes com a ansiedade, publicado pela Editora Nacional, que foi indicado ao Prêmio Jabuti em 2023. A especialista também palestra sobre saúde mental e autoconhecimento e vem se dedicando ao tema do envelhecimento e solidão.


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