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Especialista explica que o fenômeno não é falha do medicamento, mas característica da obesidade e lista estratégias para reduzir o risco após a suspensão
O
uso das chamadas “canetas emagrecedoras”, como ozempic e mounjaro, transformou
o tratamento da obesidade nos últimos anos, ao permitir perdas de peso mais
expressivas do que as obtidas apenas com mudanças no estilo de vida. Com a
popularização desses medicamentos, porém, um tema ganhou destaque (muitas vezes
de forma sensacionalista): o reganho de peso após a interrupção do tratamento.
Segundo
o endocrinologista Dr. Ramon Marcelino, médico do Hospital Das Clínicas
(HCFMUSP) e referência em medicina do estilo de vida e tratamento da obesidade,
o fenômeno não deveria ser tratado como um “efeito colateral” exclusivo dessas
medicações.
“O
reganho de peso é inerente a qualquer processo de emagrecimento, com ou sem
remédio, com ou sem cirurgia. Ele faz parte da própria biologia e do
comportamento de uma doença crônica chamada obesidade”, afirma.
Um
estudo recente publicado no BMJ reacendeu o debate ao mostrar a
tendência ao reganho após a suspensão dos fármacos. Para o especialista, porém,
o problema está menos no medicamento e mais na forma como a obesidade ainda é
tratada.
“Não
faz sentido encarar isso como uma falha da medicação. Trata-se de uma doença
crônica sendo tratada de forma intermitente, cara e pouco acessível. Se o
cuidado fosse contínuo e integrado ao longo prazo, esse impacto seria muito
menor”, explica.
Doença crônica,
tratamento contínuo
Assim
como ocorre em condições como hipertensão ou diabetes, a obesidade exige manejo
prolongado. A interrupção abrupta do tratamento pode levar a um retorno dos
sintomas, no caso, o aumento do apetite e do peso corporal.
“Ninguém
demoniza um anti-hipertensivo porque a pressão sobe quando ele é suspenso. Com
a obesidade, ainda falta compreender que estamos lidando com uma condição
crônica, multifatorial e progressiva”, ressalta Ramon.
Dados
mostram que apenas cerca de 30% das pessoas com obesidade conseguem perder mais
de 5% do peso corporal apenas com mudanças comportamentais intensivas, sem
medicamentos. Isso reforça, segundo o médico, que “não tratar” a obesidade
costuma ser mais caro e mais prejudicial à saúde do que tratá-la adequadamente.
Além
disso, o especialista chama atenção para um paradoxo pouco discutido: as mesmas
canetas acusadas de “causar reganho” são amplamente usadas para tratar o
reganho de peso após a cirurgia bariátrica.
“Alguém
realmente acredita que um paciente que reganhou peso depois da cirurgia teria
ganhado menos se nunca tivesse sido operado?”, questiona.
Por que o
reganho acontece?
Ao
suspender a medicação, o organismo tende a reagir com aumento do apetite e
redução do gasto energético, mecanismos biológicos de defesa do peso corporal.
Esse efeito pode ser potencializado quando a perda de peso ocorreu basicamente
pela diminuição da quantidade de comida, sem mudanças sustentáveis na qualidade
da dieta e no nível de atividade física.
“A
potência das medicações atuais é inédita, e isso trouxe novos desafios. O reganho
não deve nos paralisar, mas nos obrigar a aprimorar estratégias e ampliar o
cuidado”, afirma o endocrinologista.
5 dicas para evitar o reganho de peso
1. Converse com seu médico: Evite
suspender a medicação em períodos como férias ou feriados prolongados, quando
há maior exposição alimentar e menor rotina.
2. Aumente a atividade física antes do desmame: Elevar gradualmente a intensidade e a duração dos
exercícios ajuda a compensar o aumento do apetite após a suspensão.
3. Priorize a qualidade da alimentação: A perda de peso não deve ocorrer apenas pela
diminuição do volume de comida, mas pela melhora da qualidade da dieta, com
menor densidade calórica e maior valor nutricional.
4. Faça o desmame de forma gradual: A interrupção abrupta pode provocar “fome rebote”.
A redução progressiva da dose favorece melhor adaptação fisiológica e
comportamental.
5. Defina um “peso de alerta”: Estabeleça um limite de peso para reavaliar a estratégia. Caso o reganho
comece, isso facilita a decisão de retomar a medicação ou intensificar mudanças
no estilo de vida.
Para
o especialista as canetas emagrecedoras representam um avanço real no
enfrentamento de uma doença historicamente negligenciada, ainda que tragam
novos desafios.
“O
reganho de peso não deve nos paralisar. Deve nos impulsionar a aprimorar
estratégias e ampliar o cuidado”, conclui.

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