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sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

O que é o PEI e por que ele importa, segundo a neuropsicóloga Bárbara Calmeto

Cada vez mais presente nas conversas entre famílias e educadores, o PEI — Plano Educacional Individualizado — ainda desperta dúvidas, inseguranças e até receio entre pais que percebem que seus filhos não aprendem no mesmo ritmo da turma.

 

Afinal, quem pode pedir? É preciso laudo? Qual é o momento certo? Para esclarecer essas questões, a neuropsicóloga Bárbara Calmeto explica por que o PEI não é um privilégio, mas um direito, e como ele pode ser o ponto de virada na trajetória escolar de muitas crianças. 

O PEI é um documento pedagógico que organiza estratégias, adaptações e objetivos específicos para alunos que apresentam necessidades educacionais particulares. Ele não reduz expectativas nem “facilita” o ensino, como ainda acreditam alguns mitos. Pelo contrário, segundo Bárbara, o plano existe justamente para garantir que a criança tenha acesso real à aprendizagem, respeitando seu funcionamento cognitivo, emocional e social. “Não se trata de ensinar menos, mas de ensinar de forma individualizada, do jeito que aquela criança consegue aprender”, explica. 

Um ponto fundamental, reforçado pela neuropsicóloga, é que não é preciso esperar um diagnóstico fechado para iniciar o processo. A legislação brasileira garante o direito à educação inclusiva com base nas necessidades apresentadas pelo aluno, e não apenas em laudos médicos. Na prática, isso significa que dificuldades persistentes de atenção, linguagem, leitura, escrita, comportamento ou adaptação escolar já são motivo suficiente para que a escola avalie a necessidade de um PEI. 

O pedido pode partir dos pais ou responsáveis. Bárbara orienta que essa solicitação seja feita formalmente, preferencialmente logo no início do ano letivo. “Quando a família espera demais, a criança passa meses tentando se adaptar sozinha a um modelo que não foi pensado para ela. Quanto antes o PEI começa, menores são os prejuízos emocionais e acadêmicos”, alerta. O ideal é que os responsáveis conversem com a coordenação pedagógica, relatem as dificuldades observadas e solicitem que a escola avalie a elaboração do plano.

A partir desse pedido, entra em cena o trabalho conjunto da equipe escolar. Professores, coordenação, orientadores educacionais e, quando possível, profissionais externos, como psicopedagogos e neuropsicólogos, participam da avaliação do aluno. É nesse momento que a avaliação neuropsicológica ganha destaque. De acordo com Bárbara Calmeto, ela ajuda a compreender como a criança processa informações, como está sua atenção, memória, linguagem, funções executivas e regulação emocional, ou seja, organiza dados essenciais para que o PEI não seja genérico, mas verdadeiramente individualizado. 

Com essas informações em mãos, o plano é construído de forma colaborativa. Ele define metas possíveis, adaptações curriculares, estratégias de ensino, formas de avaliação e recursos de apoio. E atenção: "não é um documento para ser arquivado! O PEI deve orientar o dia a dia em sala de aula e ser revisado ao longo do ano. Afinal, o desenvolvimento não é linear. A criança muda, amadurece, aprende. O PEI precisa acompanhar esse movimento”, explica a neuropsicóloga. 

Para os pais, é importante entender que o PEI não rotula nem limita o futuro do filho. Ao contrário, ele protege a criança de fracassos repetidos, baixa autoestima e sofrimento emocional. Crianças que não recebem os apoios necessários tendem a acreditar que não são capazes, quando, na verdade, apenas não estão sendo ensinadas da maneira adequada ao seu perfil. 

Outro ponto essencial é a parceria entre família e escola. Bárbara reforça que os pais não devem se colocar apenas como solicitantes, mas como participantes ativos do processo. Compartilhar informações sobre o comportamento da criança em casa, acompanhar a execução do plano e manter diálogo constante com a escola faz toda a diferença para o sucesso do PEI.

Em um cenário educacional que ainda avança lentamente na inclusão, entender o PEI como um direito e uma ferramenta de cuidado é fundamental. Mais do que um papel, ele representa um compromisso com a aprendizagem, com a saúde emocional e com o desenvolvimento integral da criança. 

Quando bem construído, o PEI não beneficia apenas o aluno, mas transforma a prática pedagógica e fortalece uma escola mais justa, humana e preparada para acolher as diferenças. Bárbara acrescenta que o PEI pode ser indicado para um público muito mais amplo do que se imagina. "Ele é destinado a alunos com transtorno do espectro autista (TEA), com TDAH, com deficiências intelectuais, físicas, visuais ou auditivas, com transtornos específicos de aprendizagem, como dislexia, disgrafia e discalculia, além de crianças com atrasos no desenvolvimento, dificuldades emocionais significativas e também alunos com altas habilidades ou superdotação". Segundo a neuropsicóloga, o critério principal não é o rótulo diagnóstico, mas a forma como a criança aprende e se desenvolve no ambiente escolar. Sempre que o currículo regular não consegue atender às necessidades do aluno sem adaptações, o PEI se torna uma ferramenta essencial para garantir equidade, acesso ao aprendizado e desenvolvimento pleno.


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