Especialista da Rede Mater Dei de
Saúde explica por que o estilo de vida moderno tem antecipado diagnósticos e
quais sinais os jovens não devem ignorar
Uma
mudança demográfica no perfil do câncer tem desafiado a medicina global e
brasileira. Dados recentes publicados na BMJ Oncology revelam que a
incidência de câncer em pessoas com menos de 50 anos aumentou 79% entre 1990 e
2019 em todo o mundo.1 No Brasil, onde o Instituto Nacional de
Câncer (INCA) estima cerca de 704 mil novos casos da doença por ano,2
especialistas da Rede Mater Dei de Saúde já observam
essa tendência nos consultórios e alertam para a necessidade de atenção à saúde
do jovem adulto.
O
Dr. Cleydson Santos, oncologista da Rede Mater Dei, explica que o câncer ainda
é uma doença mais prevalente na terceira idade, pois está associada ao
envelhecimento das células e pela longa exposição aos fatores de risco. Mas há
alguns tumores que são mais comuns em pessoas jovens, como leucemias agudas e
linfomas. “No entanto, o que tem chamado a atenção são os tumores que se espera
encontrar somente após os 50 anos aparecendo precocemente, sobretudo os de
mama, de intestino e de pâncreas”, aponta o médico.
Por
que isso está acontecendo?
Essa
tendência não está atrelada necessariamente à genética. "É importante
lembrar que apenas 10% a 15% dos cânceres têm causa hereditária. Ou seja, 80%
ou mais dos casos acontecem devido a fatores de risco e estilo de vida",
reforça Dr. Cleyson. “E muitas vezes é difícil encontrar uma única causa: na
verdade, é uma soma de fatores que acaba culminando na mutação do DNA daquele
paciente, e com isso surgem os tumores.”
Desconsiderando
os fatores hereditários, histórico familiar, e casos específicos, como a
exposição à radiação durante o trabalho ou à poluição ambiental, o oncologista
lista alguns dos principais fatores que têm levado ao surgimento de câncer em
pessoas jovens:
- O alto consumo de ultraprocessados, como embutidos,
enlatados e fast food, ricos em sal, sódio, açúcar e gordura
saturada, além de alimentos expostos ao carvão (defumados, assados) - o
que pode aumentar o risco de neoplasia.
- A obesidade provoca inflamação crônica no corpo e está
relacionada a tumores de intestino, útero, ovário, mama, pâncreas e
fígado. Além disso, o sedentarismo e a diabetes sem controle também são
responsáveis pelo surgimento da doença;
- O uso abusivo e muitas vezes sem orientação médica adequada
de hormônios (como aqueles usados para supostamente melhorar o desempenho
durante o exercício físico);
- O consumo excessivo de álcool, que se tornou mais comum
entre jovens, principalmente durante e após a pandemia.
- O retorno da popularização do tabagismo por meio dos vapes
– os chamados dispositivos eletrônicos de fumar (DEFs) – podem levar ao
surgimento de câncer em jovens, sobretudo em adolescentes. A inflamação
crônica pulmonar causada por esse hábito também aumentará a incidência de
câncer nos próximos anos.
- A exposição solar desprotegida, motivada pela busca
estética de ficar bronzeado, e o uso de câmaras de bronzeamento
artificial, também são práticas preocupantes.
Diagnóstico,
prognóstico e tratamentos
Uma
preocupação adicional é que os tumores tendem a ser mais agressivos nos jovens,
e que muitas vezes nem os pacientes e nem os próprios médicos esperam que uma
pessoa nessa faixa etária tenha uma neoplasia, o que pode levar à demora no
diagnóstico e no início do tratamento adequado e, por consequência, ao
agravamento da condição. Em contrapartida, esse público tolera melhor
intervenções mais intensas, como a quimioterapia, do que idosos, fazendo com
que a resposta seja potencialmente muito melhor, a depender de cada caso.
“Os
jovens tendem a subestimar o diagnóstico e a importância de conhecer o próprio
corpo ao notar que algo está errado. Sintomas como uma dor que não deveria
existir, emagrecimento inexplicado, nódulos, febre sem explicação, sudorese
noturna, fraqueza geral, indisposição ou qualquer tipo de sangramento anormal
(nas fezes, na urina, ou mesmo vaginal fora do habitual) devem gerar um alerta.
O jovem deve ser orientado a procurar assistência médica e insistir na
investigação, visto que muitas vezes o clínico não cogita essa possibilidade
devido à idade do paciente”, alerta o especialista da Rede Mater Dei.
Cuidados
a serem tomados
No
tratamento desses jovens, é necessário ter cuidados específicos, sendo a
fertilidade uma das principais preocupações, já que muitos ficarão curados e
poderão querer constituir família no futuro, algo comum hoje em dia após os 30
anos. Para os protocolos que causam infertilidade, os jovens devem ser
orientados a congelar espermatozoides ou óvulos. Além da fertilidade, outras
toxicidades (cardíaca, pulmonar, neurológica) também devem ser colocadas na
balança ao definir os tratamentos.
“É
importante ressaltar que todos esses fatores de risco são modificáveis,
portanto, a prevenção segue sendo a chave. Recomenda-se manter uma alimentação
saudável, praticar atividade física regular, estar com as vacinas em dia
(incluindo a contra o HPV e Hepatite B), não fumar, evitar álcool e usar
preservativo, já que o HIV é outro fator de risco para o câncer. Além disso, é
preciso estar alerta aos sinais que o corpo dá e investigar alterações
inexplicadas na saúde, pois o diagnóstico precoce é fundamental para a cura”,
conclui Dr. Cleydson Santos.
Rede Mater Dei de Saúde
Unidades
Minas Gerais: Hospital Mater Dei Santo Agostinho, Hospital Mater Dei Contorno, Hospital Mater Dei Betim-Contagem, Hospital Mater Dei Nova Lima, Hospital Mater Dei Santa Genoveva, CDI Imagem e Hospital Mater Dei Santa Clara.
Bahia: Hospital Mater Dei Salvador e Hospital Mater Dei Emec
Goiás: Hospital Mater Dei Goiânia
Referências
1 - Li J, Kuang X. Global cancer statistics of young adults and its changes in the past decade: Incidence and mortality from GLOBOCAN 2022. Public Health. 2024 Dec;237:336-343. doi: 10.1016/j.puhe.2024.10.033. Epub 2024 Nov 7. PMID: 39515218.
2 - INCA estima 704 mil casos de câncer por ano no Brasil até 2025. 2022. Disponível em: https://www.gov.br/inca/pt-br/assuntos/noticias/2022/inca-estima-704-mil-casos-de-cancer-por-ano-no-brasil-ate-2025#:~:text=INCA%20estima%20704%20mil%20casos,Instituto%20Nacional%20de%20C%C3%A2ncer%20%2D%20INCA&text=O%20que%20%C3%A9%20c%C3%A2ncer?,Como%20surge%20o%20c%C3%A2ncer?. Acesso em: 22 jan. 2026.
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