
À esquerda, fossa séptica biodigestora (FSB) instalada em Holambra (SP);
à direita, adição mensal de esterco bovino na válvula de retenção,
antes da primeira caixa
(fotos: Isabel Figueiredo)
Reaproveitamento do líquido que
sai dos sanitários para produzir biofertilizante em pequenas propriedades
rurais é prática disseminada em toda a América Latina
Pela facilidade de
implementação, o sistema de reutilização da água que sai dos sanitários para
produzir biofertilizante em pequenas propriedades rurais é adotado no Brasil e
países vizinhos por meio de fossas sépticas biodigestoras (FSBs). Ele consiste em
três caixas d’água de mil litros cada uma, dispostas em sequência. As duas
primeiras são responsáveis pela digestão anaeróbica, enquanto a última serve
para o armazenamento do efluente final. O reservatório é utilizado de acordo
com a frequência de irrigação das culturas pelo produtor rural. O tempo de
detenção do líquido no sistema varia entre 25 e 35 dias.
Entretanto, o uso de FSBs
levanta preocupações quanto à segurança sanitária, já que o contato com o
líquido pode abrir vias de exposição a doenças transmitidas pela água –
sobretudo durante a aplicação, frequentemente realizada com baldes, regadores
ou mangueiras, diretamente no solo, sem o uso de equipamentos de proteção
individual ou isolamento da área irrigada. Para lidar com o líquido, recomenda-se
o uso de sapatos fechados, luvas de borracha, máscara e óculos. Também é
recomendável isolar a área do sistema, para evitar que pessoas e animais pisem
nas tampas das caixas, o que pode rompê-las.
“No Brasil existem milhares de
sistemas instalados, havendo também a expansão de seu uso em toda a América
Latina. E vemos com bons olhos uma tecnologia social fácil de ser construída”,
pondera Adriano Luiz Tonetti, professor da Faculdade de Engenharia
Civil, Arquitetura e Urbanismo da Universidade Estadual de Campinas
(Fecfau-Unicamp) e coautor de artigo publicado na Environmental
Monitoring and Assessment. “O que questionamos é a ideia de que o efluente
seja considerado um biofertilizante que pode ser aplicado superficialmente, com
um regador ou uma mangueira, ou incorporado ao solo sendo simplesmente
espalhado sobre ele.”
“Fizemos uma visita nos
arredores de Campinas e eu vi um agricultor aplicando o efluente em um pé de
goiaba. Circulamos pela propriedade e voltamos para o mesmo lugar, e lá estava
um cachorro deitado no solo no pé da goiabeira. Ele deve ter bebido aquela
água, se espojado ali, e depois pode ser que tenha entrado na casa e feito
contato com uma criança. Se naquela água houver um patógeno, foram criadas
todas as condições para fechar seu ciclo”, adverte o pesquisador.
Pensando em minimizar os riscos
da prática, a engenheira ambiental Caroline Kimie
Miyazaki, da Fecfau-Unicamp, fez em seu mestrado uma avaliação
quantitativa de risco microbiológico para estimar a probabilidade de infecção a
partir de determinados cenários de exposição ao uso do sistema. Orientada por
Tonetti, ela também sugeriu modificar a saída da última caixa d’água: em vez de
entregar o líquido em uma torneira, a engenheira sugeriu que ele fosse
distribuído por um cano enterrado abaixo do nível do solo.
Outra sugestão é eliminar uma
das etapas do método preconizado juntamente com o sistema: a adição de fezes
bovinas com água na primeira caixa, a cada 30 dias. De acordo com os testes
realizados pelo grupo de pesquisa de Tonetti, a prática não altera a eficiência
do biofertilizante ao final do processo – e o manuseio do material é a
principal via de contaminação dos agricultores.
Uma última proposta dos autores
se refere ao tamanho das caixas usadas no sistema – e, consequentemente, ao
tempo que o efluente leva para chegar da primeira à última caixa. “Em teoria, o
líquido fica mais ou menos um mês nesse conjunto de três tanques, tendo em
vista que uma pessoa consome por dia, dando descarga, de 10 a 15 litros de
água. Quatro pessoas numa família são mais ou menos 60 litros por dia. Mas as
caixas são de mil litros, e isso é outra coisa que estamos contestando: será
que precisa ficar um mês? Já estamos trabalhando com caixas de 500 litros, que
são muito mais baratas, e reduzimos o tempo que o líquido fica no sistema.”
A FAPESP deu suporte ao
trabalho por meio de Auxílio à Pesquisa-Regular.
Riscos
O estudo de caso foi realizado
em Campinas, onde um programa social municipal implementou 136 unidades FSBs
para famílias rurais. Paralelamente, a Unicamp iniciou um programa de
monitoramento envolvendo a coleta e análise de Escherichia coli,
com o objetivo de identificar potenciais riscos de contaminação e propor
melhorias.
Para avaliar os riscos, os
grupos expostos foram definidos com base nas seguintes categorias:
trabalhadores, crianças, comunidade local e família. Também foi adotado um
parâmetro de ocupação de 3,5 pessoas por domicílio. As vias de exposição dos
cenários basearam-se na ingestão acidental do efluente, do solo ou de fezes. O
cálculo da dose ingerida foi adaptado para cada cenário, considerando suas
especificidades.
Os cientistas mapearam seis
cenários de exposição ao uso do sistema: ingestão durante atividades de
manutenção da FSB (incluindo a adição de fezes bovinas frescas); ingestão
durante atividades de irrigação superficial com o efluente; ingestão durante
atividades recreativas após irrigação com o efluente; contato indireto por meio
de objetos após irrigação com o efluente; atividades recreativas ou de uso da
água após o escoamento do efluente da FSB atingir um corpo d'água superficial e
consumo de água subterrânea após contaminação causada pela aplicação do
efluente da FSB na superfície do solo.
Para cada cenário, foram
realizadas simulações com base em 19 parâmetros, como a fração de transferência
mão-boca, o volume de solo ingerido por uma criança, a fração de cepas
patogênicas infecciosas, a frequência de realização das atividades e a presença
de E. coli no efluente final.
De acordo com organizações
internacionais, existem dois critérios muito utilizados para avaliar a
aceitabilidade do risco à saúde de tais atividades: um é o nível de risco anual
de infecção e o outro é o DALY (sigla de Disability-Adjusted Life Year),
que combina, em um único número, os anos de vida perdidos por morte prematura e
os anos vividos com uma condição que reduz a qualidade de vida, representando
um "ano de vida saudável perdido" para uma pessoa ou população.
Os cenários “adição de fezes
bovinas” e “irrigação superficial” excederam o valor mínimo para o risco médio
anual de infecção (por pessoa, por ano) utilizado como limite de risco
aceitável. Em 95% das simulações, o primeiro cenário excedeu o valor de
referência, correspondendo a 44 ocorrências de infecção por pessoa a cada cem
anos. Os resultados indicam que a exposição dos trabalhadores a fezes frescas
por meio de contato direto constitui uma via de contaminação potencialmente
perigosa. Quanto ao número de DALYs, esse cenário foi novamente o mais crítico:
apenas um dos casos estaria dentro do valor recomendado pela Organização
Mundial da Saúde (OMS). No segundo cenário, 99% dos casos excedem o valor de
referência.
Segurança
De acordo com os cientistas, a
ideia do trabalho foi tornar o método mais seguro sanitariamente. “Propusemos
que saia um tubo da última caixa, um tubo todo perfurado, enterrado a uns 30 cm
abaixo do nível do solo, cercado de brita. O líquido vai infiltrar no solo sem
contato com o agricultor ou com as crianças que eventualmente circularem pelo
terreno ou com os animais”, resume Tonetti. Segundo ele, sua orientanda
Miyazaki conseguiu comprovar que, se a irrigação for colocada abaixo do nível
do terreno, será possível alcançar um risco de contaminação aceitável por
qualquer entidade nacional ou internacional.
Além da segurança do
trabalhador e sua família há também a questão da segurança microbiológica do
alimento. “A pergunta que todo mundo faz é se o patógeno que porventura estiver
nessa água não vai parar na planta. Já investigamos isso. A relação do tamanho
do patógeno com o poro da raiz da planta é bem desproporcional: é como estar
tomando um refrigerante de canudinho e, de repente, engolir um elefante. O
patógeno não passa pela raiz. É muito grande. Também por isso, desaconselhamos
totalmente o uso de regadores e mangueiras na aplicação do fertilizante. Para
que seja segura, ela deve ser feita pelo subsolo”, afirma Tonetti.
O artigo Risk
assessment of a septic tank variant used for the blackwater treatment pode
ser lido em: link.springer.com/article/10.1007/s10661-025-14530-4.
Agência FAPESP
https://agencia.fapesp.br/estudo-indica-medidas-para-minimizar-riscos-de-uso-de-aguas-residuais-em-agricultura-familiar/56908
Nenhum comentário:
Postar um comentário