Psiquiatra
explica como a ansiedade em relação ao exame pode levar à evitação e dá
orientações para que o medo não comprometa o diagnóstico precoce
O Outubro Rosa
reforça todos os anos a importância da mamografia para detectar o câncer de
mama em fases iniciais, quando as chances de cura são maiores. Ainda assim,
muitas mulheres adiam o exame mesmo sabendo que deveriam fazê-lo. Em boa parte
dos casos, o motivo não é falta de informação, mas o medo: do resultado, do
desconforto, da possibilidade de ouvir uma notícia difícil.
Segundo Bianca
Bolonhezi, médica psiquiatra, essa reação tem uma explicação. "Diante de
algo que nos assusta, o cérebro tende a buscar alívio imediato, e uma das
formas mais rápidas de conseguir isso é evitar a situação. Adiar o exame traz
uma sensação momentânea de tranquilidade, como se, sem o resultado, o problema
não existisse", explica.
O ciclo da
evitação
O problema é que
esse alívio dura pouco. A cada adiamento, a preocupação continua presente e,
muitas vezes, cresce. "A evitação alimenta a ansiedade. Quanto mais a
mulher adia, maior o exame se torna na cabeça dela, e mais difícil fica marcar.
Ela passa a conviver com uma dúvida constante, que pode ser mais desgastante do
que o próprio exame", afirma Bianca.
Esse medo pode
ter origens diferentes. Algumas mulheres já acompanharam de perto o câncer de
uma mãe, irmã ou amiga e associam o exame a essa experiência. Outras tiveram um
resultado alterado no passado e guardam a lembrança da espera angustiante. Há
ainda quem tenha receio da dor, desconforto com a exposição do corpo ou
dificuldade de lidar com ambientes hospitalares.
"Cada
mulher tem a sua história, e o medo precisa ser acolhido, não julgado. Dizer
que ela está sendo irresponsável costuma aumentar a culpa e a vergonha, o que
reforça ainda mais a evitação", diz a psiquiatra.
Como lidar com o
medo sem abrir mão do exame
Para Bianca, o
primeiro passo é reconhecer o que está por trás do adiamento. "Perguntar a
si mesma 'do que exatamente eu tenho medo?' ajuda a transformar uma angústia
difusa em algo mais concreto, que pode ser enfrentado", orienta.
Algumas atitudes
práticas podem ajudar: marcar o exame em uma data definida em vez de esperar o
"momento certo", pedir que alguém de confiança acompanhe a consulta,
conversar com a equipe sobre o receio de sentir dor e se informar sobre como o
exame funciona e quanto tempo leva para o resultado sair. Planejar o que fazer
no período de espera, mantendo a rotina e evitando buscas excessivas na
internet, também reduz a sensação de descontrole.
A especialista
lembra que um pedido de exame complementar não significa, necessariamente, um
diagnóstico de câncer. "Muitas alterações que levam a uma investigação
adicional acabam não se confirmando como doença. Ter essa informação em mente
ajuda a não transformar cada etapa em uma sentença", explica.
Quando procurar
ajuda
Em alguns casos,
o medo é tão intenso que provoca sintomas físicos, como taquicardia, falta de
ar e crises de pânico, ou faz com que a mulher deixe de lado todos os cuidados
com a saúde por anos. Nessas situações, o acompanhamento com psiquiatra ou
psicólogo pode fazer diferença.
"A
ansiedade tem tratamento. Quando ela começa a impedir a pessoa de cuidar de si,
buscar ajuda não é um exagero, é uma forma de proteger a própria saúde",
afirma Bianca.
Para a psiquiatra, falar abertamente
sobre o medo também é parte da prevenção. "O Outubro Rosa costuma focar na
importância de fazer o exame, mas é igualmente importante reconhecer que, para
muitas mulheres, o obstáculo é emocional. Acolher esse medo pode ser o que
faltava para que ela finalmente marque a mamografia", conclui.
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