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quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Gordura no fígado: por que o problema pode estar na alimentação e não no álcool

Dr. Rodolfo Gusmão, médico integrativo e CEO do Instituto Aeon, explica como resistência à insulina, excesso de açúcar e alterações metabólicas podem favorecer o acúmulo de gordura no fígado, mesmo em pessoas que não consomem bebidas alcoólicas.

 

Quando se fala em gordura no fígado, é comum associar o problema ao consumo excessivo de álcool. Mas essa não é a única explicação. A alimentação, a resistência à insulina e alterações metabólicas também podem favorecer o acúmulo de gordura no órgão, inclusive em pessoas que não têm o hábito de beber. 

Conhecida anteriormente como doença hepática gordurosa não alcoólica, a condição passou a ser chamada de doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica (MASLD). Trata-se de uma das doenças hepáticas mais prevalentes no mundo e está frequentemente associada à obesidade, ao diabetes tipo 2 e a outros fatores de risco cardiometabólicos. 

Para o Dr. Rodolfo Gusmão, médico integrativo e CEO do Instituto Aeon, um dos principais desafios é justamente a ausência de sintomas nas fases iniciais. 

“Existe a ideia de que o fígado só sofre quando há consumo excessivo de álcool. Mas o metabolismo também tem um papel importante nessa história. Uma pessoa pode não beber e, ainda assim, desenvolver acúmulo de gordura no órgão, muitas vezes sem perceber qualquer alteração”, explica o médico.
 

O açúcar também pode favorecer o acúmulo de gordura 

Um dos pontos que merecem atenção é o consumo excessivo de açúcares adicionados, especialmente aqueles presentes em refrigerantes, bebidas adoçadas e produtos ultraprocessados. 

A frutose, um tipo de açúcar encontrado naturalmente nas frutas, mas também utilizado na composição de adoçantes industriais, é metabolizada em grande parte pelo intestino e pelo fígado. Quando consumida em excesso, sobretudo em bebidas açucaradas e dentro de uma alimentação com excesso de calorias, pode favorecer a lipogênese hepática, processo pelo qual o organismo transforma substratos energéticos em gordura. 

Isso não significa que a frutose presente nas frutas inteiras tenha o mesmo efeito. A presença de fibras, água e outros nutrientes, além das quantidades habitualmente consumidas, faz diferença no contexto alimentar. 

“O problema não é comer uma fruta. O alerta está no consumo frequente e excessivo de bebidas açucaradas e produtos com alta concentração de açúcares adicionados, principalmente quando isso vem acompanhado de sedentarismo e alterações metabólicas”, destaca Dr. Rodolfo.
 

Resistência à insulina: o que ela tem a ver com o fígado? 

A resistência à insulina é um dos mecanismos centrais envolvidos no desenvolvimento da doença. Quando as células passam a responder de maneira menos eficiente à ação desse hormônio, o organismo pode apresentar alterações no metabolismo da glicose e das gorduras. 

Nesse cenário, há maior liberação de ácidos graxos pelo tecido adiposo e alterações no processamento dessas substâncias pelo fígado, favorecendo seu acúmulo nas células hepáticas. 

A condição está frequentemente associada ao excesso de gordura abdominal, ao diabetes tipo 2 e à síndrome metabólica, mas também pode ocorrer em pessoas que não apresentam obesidade. 

“Não podemos avaliar a saúde metabólica apenas pelo peso. Existem pessoas que não estão acima do peso e apresentam resistência à insulina ou acúmulo de gordura no fígado. Por isso, é importante considerar exames, histórico clínico, composição corporal e hábitos de vida”, explica o especialista.
 

O fígado pode estar comprometido sem dar sinais 

Diferentemente de outras condições que provocam sintomas perceptíveis, a gordura no fígado costuma evoluir silenciosamente, especialmente nas fases iniciais. Em muitos casos, a alteração é identificada durante exames de rotina, seja por mudanças nas enzimas hepáticas, como ALT e AST, seja por um achado incidental em exames de imagem, como a ultrassonografia abdominal. 

Entretanto, é importante destacar que os níveis dessas enzimas podem permanecer normais mesmo em pessoas com a doença. Por isso, resultados dentro dos valores de referência não excluem necessariamente alterações hepáticas. 

Embora muitos pacientes apresentem apenas esteatose, uma parcela pode desenvolver inflamação e lesão das células do fígado, condição conhecida como esteato-hepatite associada à disfunção metabólica (MASH). Em alguns casos, a progressão pode levar à fibrose e, em estágios avançados, à cirrose. 

“A ausência de sintomas não significa ausência de risco. O fígado pode passar muito tempo acumulando gordura sem provocar desconforto. O objetivo da investigação é identificar essas alterações antes que exista um comprometimento mais importante”, ressalta Dr. Rodolfo.
 

É possível reduzir a gordura no fígado? 

A boa notícia é que mudanças no estilo de vida podem contribuir para a redução da gordura hepática e para a melhora dos fatores metabólicos associados à doença. 

Entre as principais estratégias estão a redução do consumo de bebidas açucaradas e alimentos ultraprocessados, a adoção de uma alimentação equilibrada, a prática regular de atividade física e, quando indicado, a perda gradual de peso. 

Padrões alimentares como o mediterrâneo, ricos em vegetais, frutas, leguminosas, grãos integrais, azeite e peixes, são frequentemente recomendados por seus benefícios metabólicos. A prática de exercícios também pode ajudar a reduzir a gordura hepática, mesmo quando não há uma perda expressiva de peso.

A abordagem, porém, deve ser individualizada. Dependendo do estágio da doença e das condições associadas, pode ser necessário acompanhamento especializado e tratamento específico. “Não se trata de fazer detox ou buscar uma solução rápida para limpar o fígado. O cuidado envolve melhorar o funcionamento metabólico do organismo, reduzir os fatores de risco e acompanhar a evolução da doença”, explica o médico.
 

O alerta vai além do consumo de álcool 

Para Dr. Rodolfo, a principal mensagem é que a saúde do fígado não deve ser avaliada apenas pelo consumo de bebidas alcoólicas. Hábitos alimentares, resistência à insulina, alterações metabólicas e predisposição individual também precisam entrar nessa avaliação. 

“Uma pessoa pode passar anos sem consumir álcool e ainda assim desenvolver gordura no fígado. Por isso, é importante olhar para o metabolismo como um todo. Quanto mais cedo identificamos os fatores envolvidos, maiores são as possibilidades de intervir e evitar a progressão da doença”, conclui.

 

Instituto Aeon


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